Blog Mulherias

Empresa faz reformas na periferia em 6 dias com parcelas de R$ 222

Flávia Martinelli

19/02/2018 05h00

Colaborou Stéfanni Mota, especial para o Blog MULHERIAS

O sonho da casa própria nem sempre vem com reboco, pintura e piso de cerâmica. Nas periferias e favelas, é comum parcelar um terreno enquanto ainda se arca com o aluguel e erguer o lar doce lar aos poucos. Engenheiro ou arquiteto? Nem sonhando mesmo. Em geral, as obras são executadas por pedreiros que não têm compromisso com prazos e custos finais. Com as lajes erguidas, o acabamento dos cômodos costuma ficar pra depois, bem depois. Sem hora pra acabar, a reforma pode não terminar nunca. E o barato sai bem caro.

“A falta de planejamento das construções traz uma série de problemas elétricos, hidráulicos e a típica umidade provocada pelas proximidade das casas”, diz a arquiteta e urbanista Marina Camargo Heinrich Carrara, de 29 anos. Gestora de negócios e projetos do Programa Vivenda, ela conta que a empresa é um negócio social, ou seja, tem foco em ajudar pessoas mas também visa o lucro, ainda que bem pequeno.

“Subimos favelas, vielas, chegamos até onde o caminhão de material de construção não chega”, diz a arquiteta e urbanista Marina

“Para entrar no programa, fazemos uma análise de crédito e a família precisa ter um salário-mínimo disponível, R$ 950 livres das contas do mês”, explica Marina. O custo médio de reforma de um cômodo completo é de R$ 6 mil. Os 20% de entrada, R$ 1.200 para quem tem análise de crédito simples, podem ser parcelados em oito vezes R$ 150 e o restante em 30 prestações de R$ 222. (Confira os detalhes no quadro ao lado e, ao longo da reportagem, exemplos de financiamento a partir de três análises de crédito: simples, intermediário e com restrições).

E se surgir pepino? Chama a mestra-de-obras!

Para que as reformas aconteçam, o papel de mestre-de-obras é fundamental. E na empresa ele é exercido por mulheres. A estudante de engenharia civil Stefanie Santos, de 21 anos, é uma das delas. Stefanie coordena as equipes de pedreiros e serventes, além de controlar o material de construção.

“Reforma dá muito mais problema que construção porque pegamos uma estrutura desconhecida. Na hora de quebrar, nunca se sabe o que vamos encontrar. Sempre têm surpresa.” Ela ressalta que as reformas têm três meses de garantia sem custos.

“Nosso público é feminino. As clientes estranham no início mas logo se sentem confortáveis e chegam a me solicitar em reformas futuras”, diz a mestre-de-obras Stéfanie

“Nosso público é feminino. As clientes estranham no início mas logo se sentem confortáveis e chegam a me solicitar em reformas futuras”, diz a mestre-de-obras Stéfanie

“AGORA POSSO RECEBER VISITAS!” 

“Boa tarde, pode entrar e ficar à vontade. Não repara a bagunça”, diz Angela Ribeiro, de 45 anos, seis dias depois de a reforma de sua cozinha, sala e quarto ter sido finalizada. O piso branquíssimo, o perfume de lavanda no ar e a toalhinha de crochê em cima da mesa contradizem o aviso. Depois de quatro anos sem receber uma única visita, Angela está pronta para cozinhar para amigos e parentes em sua casa no Jardim Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo.

Ela então mostra seu quarto. “Eu tive muito problema com umidade, tanto que escorria água até o chão! Perdi todos os meus móveis”. Quando as arquitetas chegaram à sua casa encontraram uma obra sem qualquer acabamento. A fiação estava exposta, as paredes estavam no tijolo cru – sem chapisco ou reboco -, o piso era de cimento grosso e a casa tinha um problema grave de infiltração e ventilação. “Agora eu vejo isso aqui, tão lindo, e nem acredito! Lembro que tinha até rato andando nos buracos das paredes”, Angela sorri.

“Desde que sai de Belo Horizonte e vim pra São Paulo, há 14 anos, todo dia eu olhava pra cima e pedia a Deus que me desse um barraquinho que fosse pequeno, mas que fosse o meu cantinho.”

Angela passou 10 anos economizado e mudando de um aluguel barato para outro até comprar um terreno. Levantar sua casa de quatro cômodos levou dois anos. “Os pedreiros sumiam ou ficavam até 60 dias sem aparecer mesmo quando eu pagava.” E ela foi morar na obra.

Quando conheceu o Vivenda, a primeira reforma foi no banheiro. O cômodo foi reformado há um ano, quando a empresa subsidiou o material de construção para Angela. A escolha de quem recebe o benefício é feita a partir de critérios socioeconômicos com indicação e avaliação pela Serviço de Assistência Social à Família. Na época, Angela pagou apenas R$ 900 pela obra em suaves prestações. Ela chama de “bênção” o programa citado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como “solução de negócio capaz de responder a desafios sociais e ambientais do país”.

Satisfeita, Angela partiu para os outros cômodos. Hoje, o vermelho dos tijolos deu lugar ao branco das paredes. Saíram as lâmpadas penduradas no teto e agora a fiação é nova e segura. A infiltração acabou e Angela, que hoje está desempregada, já sonha com novas conquistas: “vou correr atrás de emprego para começar a comprar meus móveis, pagar aos pouquinhos e deixar tudo arrumadinho para mim e as visitas.”

 

“QUANDO SOUBE QUE ESTAVA GRÁVIDA, OLHEI PARA  O CHÃO DE CIMENTO E VI QUE NÃO DAVA MAIS”

Glória com seus três filhos: “Minha casa é outra, foi como se eu tivesse construído do zero”

A mãe das gêmeas Sarah e Sophia, de 10 meses, está aliviada por ver suas meninas engatinhando no piso novo, lisinho e de cerâmica clarinha. Quando Glória Santos, de 45 anos, se mudou para a casa com sala, cozinha, banheiro e dois quartos, conviveu com fiação exposta, paredes de reboco grosseiro, umidade e tijolos e telhas que deixavam o vento passar. Mas a empregada doméstica e auxiliar de limpeza estava feliz na vida de recém-casada numa casa que podia chamar de sua.

 

Glória levou seu primeiro filho para o novo lar e foi realizar o sonho antigo de voltar a estudar e aprender a ler. Foi na escola que ouviu falar do Vivenda e logo pôs fim à preocupação com o conforto do adolescente. O quarto dele ganhou piso, pintura, parte elétrica e forro para o telhado. “Foi muita felicidade porque, depois de anos morando em casa de família ou pagando aluguel eu fiz uma reforma do meu gosto”, conta a baiana que saiu de Vitória da Conquista e veio para São Paulo aos 16 anos.

Mas, mal terminadas as prestações, quando Glória estava fazendo orçamento para reformar seu quarto, teve que mudar de planos.

“Eu olhava para o chão do resto da casa no cimento grosso e vi que não dava para deixar daquele jeito”, lembra Glória, quando soube que estava grávida de gêmeas

O fechamento do contrato foi acelerado para receber um cantinho para as crianças. As meninas nasceram quando o piso já estava assentado. E Glória não parou por aí.

Falta de acabamento não é só visualmente incômoda, mas representa um ambiente insalubre. O primeiro andar da casa ainda estava sem reboco ou piso, alguns cômodos ainda não tinham porta. Com as crianças começando a engatinhar, todo o resto do lar de Dona Glória ficou bonito e seguro. “Colocaram piso, porta, tudo rapidinho”, conta. “Tá tudo pronto para uma nova fase da minha vida. Agora, só falta eu aprender a ler para ter tudo o que eu sempre sonhei.”

Foto: Tuane Fernandes

Para saber mais: programavivenda.com.br

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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