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Fim da depressão e do busão: quatro histórias de ciclistas da periferia

Flávia Martinelli

2020-12-20T17:08:00

20/12/2017 08h00

Com reportagem de Stéfanni Mota, especial para o blog MULHERIAS

Pedalar na ciclovia da avenida Paulista é bem diferente do que disputar espaço com carros na avenida João XXIII ou enfrentar buracos nas vielas do bairro de Itaquera. Quem compara é a professora de educação física Jéssica Rodrigues, de 34 anos, moradora da Zona Leste de São Paulo, que todos os dias encara um percurso turbulento de duas horas entre sua casa e o trabalho – incluindo aí a passagem pela via de trânsito pesado e trechos em que precisa pedalar em calçadas precárias, sujas e até com cacos de vidro.

E ainda tem a questão do horário… "Mulher pedalando à noite, negra, na periferia: são marcadores que não podem ser ignorados." Mesmo assim, Jéssica ressalta, nada disso diminui a liberdade e a autonomia que uma bicicleta oferece na quebrada. Ainda que não existam pesquisas e números indicativos, é cada vez maior o número mulheres ciclistas nas periferias. Elas usam a bike para chegar ao trabalho, por lazer, para acessar locais onde os ônibus não chegam, para economizar na condução…

Já existe até coletivo dedicado ao ensino de técnicas de pedal nas periferias. O "Preta, vem de bike", do qual Jéssica faz parte, percebeu a recorrência de histórias de mulheres negras que não sabiam andar de bicicleta e se dedica a realizar o sonho de infância. O grupo se espalhou por toda a cidade

A economia é um atrativo importante. "A conta básica é que deixo de gastar R$ 7,60 por dia", diz a designer gráfica Natachi Jesus Silva, de 26 anos, moradora de Ermelino Matarazzo. Com a bike ela poupava mais de R$ 50 por semana em condução quando estava desempregada. Já com a carteira assinada, segue pedalando 6 quilômetros do trajeto ao trabalho e uma vez por semana encara o caminho inteiro até a avenida Paulista. São cerca de 24 quilômetros de pedal e ao final do mês uns R$ 150 no bolso.

Entre tantos motivos para usar a bicicleta há ainda os que não podem ser contabilizados. "A bike veio para mim como um meio de superação mesmo, de vida", diz a advogada Amélia Rocha, de 50 anos. "Veio como um meio de esquecer um poucos os problemas que eu tive", completa, emocionada, ao contar que a bike, de alguma maneira, a conecta com o filho que já morreu. "E ainda me ajudou a vencer a depressão, o sobrepeso, a sair um casamento abusivo e me trouxe amigos."

Confira os depoimentos das ciclistas das periferias que encaram não apenas as distâncias geográficas e obstáculos concretos mas, em duas rodas, carregam na bagagem histórias de superação e liberdade. Aproveite, ainda, as cinco dicas essenciais para andar de bicicleta nas quebradas!

"Pedalar me tirou do luto. Minha bike me deixou mais viva!"

Em 2012, a perda de um filho para a violência cotidiana das periferias levou a advogada Amelia Rocha, de 50 anos, à tristeza profunda. O passeio às margens da represa de Guarapiranga, as noites de natação, o cinema nos fins de semana, tudo o que havia sido construído em 17 anos de companheirismo foi levado em um único disparo policial. Mas ficou no canto da sala mais do que uma fotografia: seu único filho deixou um poderoso instrumento de cura.

Amélia começou a pedalar há pouco mais de dois anos. Antes, da casa para o trabalho, do trabalho para a casa, ela ficava presa nos pensamentos que iam sempre em direção à saudade. O trânsito, o passar dos carros, a imobilidade atrás do volante traziam o choro no confinamento do veículo. Eram situações que a transportavam ao passado. Sem perceber, Amélia largou as atividades físicas e a depressão trouxe o sobrepeso. Sedentária, em pouco tempo chegou aos 100kg.

Na época da tragédia, Amélia cursava o segundo ano da faculdade de direito e o marido não a apoiava em nada. Pelo contrário, em caráter inquisitório, ele ameaçava queimar seus livros. Paz, só mesmo na madrugada, estudando escondida enquanto ele dormia."Até a morte do nosso filho ele usou para me boicotar. Jogava na cara que ele morreu quando eu tava estudando, dizia que eu abandonei o menino."

Amélia ignorou o sobrepeso e os 24 quilômetros que separam sua casa do trabalho, subiu na bicicleta de seu filho e foi! Hoje viaja com os amigos e até comprou outra bike. "Mas a do meu filho continua na sala"

Amélia voltou ao presente quando colegas de trabalho a convidaram para pedalar. "Nos primeiros dias a sensação é muito ruim: você parece que vai morrer. Terrível. Você faz tudo errado, só anda pela calçada, vai na contramão porque acha que é mais segura… Tudo falta de experiência", lembra dos muitos perrengues que passou. Apesar de saber pedalar, ela não tinha noções de segurança ou de como se portar no trânsito intenso e desorganizado.

Aos poucos, aprendeu sobre a necessidade de ocupar a faixa, utilizar a mesma mão que os carros e sinalizar. O medo foi sumindo. O sobrepeso também. Ela perdeu 23 quilos em um ano. Amélia diz sua bike a ajudou a dar o adeus ao marido.

"Não é que eu esqueci a morte do meu filho, nem apaguei minhas dores, mas o ciclismo fez com que eu ficasse mais viva."

Hoje, ela faz longos percursos com sua bike. Viaja com colegas, pratica outros esportes e mora sozinha. Pedalada a pedalada, Amélia quebrou as correntes do passado. "Vivo o presente, planejo o futuro. Até comprei uma outra bicicleta. Mas a do meu filho continua lá, no canto da sala." 

 
"Encontrei uma fonte de renda e causas para defender: o direito de ir e vir a autonomia feminina"

Em 2015, a professora infantil Tatiane de Souza, de 34 anos, ficou desempregada. Com dois filhos e sem perspectiva de conseguir emprego na velocidade das contas a pagar, foi ficando deprimida ao ponto de não sair mais de casa. Até que um amigo a convidou para participar de um grupo de pedal da Zona Leste, o Los Bikers. Tati pegou a bicicleta de infância do irmão e nunca mais largou a magrela.

O isolamento terminou nas primeiras pedaladas em Guaianazes, onde mora. Tati conheceu várias galeras que se reúnem para andar de bicicleta e, entre elas, o coletivo Ciclo Articuladoras, que interage com mulheres nas quebradas de São Paulo. As cicloativistas promovem oficinas de mecânica e pedal seguro. "Em rodas de conversa, partilhamos medos e inseguranças não só do pedalar mas, também, da vida", conta. "Em janeiro, faremos uma atividade em que advogadas do coletivo darão orientações jurídicas para ciclistas que vivem relacionamentos abusivos e não conhecem os caminhos legais de uma separação."

Tati, cicloativista: de dicas para andar nas ruas a orientação jurídica para mulheres que querem se separar

O ciclismo também é ativismo quando o assunto é usufruir a cidade. "Estamos em busca do nosso direito de ir e vir", enfatiza ao comentar sobre a falta de apoio aos ciclistas da periferia, onde as ciclovias são escassas. Outra preocupação é falta de conscientização no trânsito. "Aqui na nossa região os motoristas não têm respeito. No começo, tinha medo da queda, agora tenho medo mesmo da violência do trânsito."

Tati teve que aprender a cuidar de sua bicicleta. Sabe remendar câmara de pneu e manja do câmbio aos aros. "Tem homem que acha 'estranho' mulher que ousa exibir noções de mecânica"

Enquanto sua militância segue, a vida profissional também se atrelou ao ciclismo. Hoje a bike de Tati também é fonte de renda. Ela montou um pequeno projeto de hortas orgânicas em Biritiba Mirim, na região metropolitana de São Paulo, a cerca de 40 quilômetros de onde mora. Lá Tati planta, faz a colheita e ela mesma faz a entrega produtos do coletivo Ciclo Raiz em sua bicicleta. O delivery é também de sementes, para incentivar a criação de novas hortas orgânicas na Zona Leste. "A autonomia do pedal, por enquanto, não me permite tirar todo o meu sustento, mas já abriu caminhos que eu nunca esperei."

"Uso minha 'Funny Valentine' para ensinar outras mulheres a pedalar. Acho poético e libertador"

Jéssica e sua bike: "Como adoro cor, dei uma decorada nela, colei papéis de poema, coloquei cestinha, flores"

A professora de educação física Jéssica Rodrigues é ciclista urbana há 16 anos. Pedala desde 2001, quando as ciclovias não faziam parte das políticas públicas da cidade. Ela lembra com carinho da bike comprada com as economias do estágio que, por sinal, viabilizou sua ida e volta à empresa. "A grana era curta até pra condução." Hoje, também licenciada em música, Jéssica tem uma bike toda incrementada, que apelidou de My Funny Valentine (Minha Namorada Engraçada), em homenagem à música de Frank Sinatra. "Eu gosto de pedalar bonita", diz a voluntária do projeto "Preta, Vem de Bike", que ensina outras mulheres negras a pedalar, e leva poesia e ciclismo pelas periferias.

"Pesquise, preste atenção, seja vista, faça barulho e jamais use a contramão, mana!" Confira as dicas da especialista em ciclismo nas quebradas! 

Natachi Jesus Silva, de 26 anos, começou a pedalar há três quando estava desempregada e chegou a viajar por oito dias de bike pelo interior de Minas Gerais gastando quase nada. "Acampei e levei minha comida". Depois disso, nunca mais largou sua bicicleta, a Lilika, mesmo com o novo trabalho.

Especialista em pedal: Natachi encara 24 quilômetros de pedal toda sexta-feira em São Paulo mas também adora levar sua Lilika para viajar

Hoje, ela faz diariamente metade do trajeto entre Ermelino Matarazzo e a avenida Paulista de bike e, às sextas-feiras, encara o caminho inteiro. São 24 quilômetros da periferia até o escritório e, ao final do mês, cerca de R$ 150 no bolso para gastar com coisas muito mais interessantes do que com o busão. Aqui, a especialista em rotas com tráfego intenso, avenidas movimentadas, ruas esburacadas e vielas nem sempre confiáveis dá as dicas para as ciclistas da periferia.

5 dicas para pedalar na quebrada

1- PESQUISE A ROTA – Pesquisar quem já fez ou faz a rota que você for fazer, para saber quanto às condições da via, do trânsito e de segurança.

2- FIQUE ATENTA AO LOCAL – Por segurança, se possível variar a rota e apagar as luzes ao passar por um local desconhecido. "Ao passar por um bairro que não conheço, apago as luzes da bicicleta, mas vai do 'feeling' da pessoa", indica Natachi.

3- SEJA VISTA – Quando enfrentar trânsito pesado, procurar sinalizar a direção d a mudança de faixa com os braços. Usar roupas coloridas e luzes de led na bicicleta

4- FAÇA BARULHO – Pode parecer exagero, mas um apito pode funcionar muito bem. Assim como carros tem buzina,é possível usar o apito em diversas situações.

5- EVITE O MEIO FIO E A CONTRAMÃO – Ambos podem dar uma falsa sensação de segurança, mas usar o meio fio aumenta as chances de levar uma "fininha" de algum carro ou ônibus, pois dá ao motorista a sensação de que ali "cabem dois veículos". A contramão pode aumentar muito a intensidade do acidente, em caso de uma batida, então NUNCA recorra à contramão.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.