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Delivery de orgânicos com preço de feira é “oásis alimentar” na periferia

Flávia Martinelli

12/01/2018 04h00

Orgânicos não devem ser privilégio de bairros nobres: Evelyn (à esq.) recebe por whatsapp a lista de alimentos disponível na roça Abaetetuba, cultivada por Aline e sua família. Quem cuida de toda a logística de entrega em casa é a empreendedora Melissa (ao centro), do Armazém Organicamente, o primeiro do gênero na periferia

Alface, tomate, salsa, cebolinha, chuchu, maçã… Toda quinta-feira a cabeleireira Evelyn Daisy, moradora da Chácara Santana, no distrito do Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo, recebe na porta de casa produtos orgânicos fresquinhos. Fresquinhos mesmo: eles são tirados da terra naquele mesmo dia, no máximo na véspera. Em geral, Evelyn pega as verduras e legumes das mãos do próprio agricultor, Rafael Mesquita, que cuida com sua companheira, Aline Maria, da roça Abaetetuba, na cidade de São Lourenço da Serra, a cerca de 40 quilômetros dali. Toda a logística da horta à mesa é realizada pelo Armazém Organicamente, o primeiro delivery de orgânicos da periferia de São Paulo.

Alface e couve orgânica por R$ 3,40

Com encomendas por whattapp, o armazém é muito mais que um negócio de entrega de produtos sem agrotóxico. O projeto, fundamentado nos princípios da economia solidária, tem como filosofia a inclusão social por meio da geração de trabalho e renda. Não por acaso, tem foco no acesso de produtos saudáveis de pequenos agricultores a preços acessíveis para os moradores das periferias. Maço de couve ou alface orgânica, por exemplo, saem por R$ 3,40. “É quase preço de feira! Em casa e sem produto químico! Um luxo!”, comemora Evelyn.

“Luxo” que o Organicamente quer popularizar cada vez mais nas quebradas. “Frutas, verduras, legumes e hortaliças in natura e sem veneno não deveriam ser privilégio de bairros nobres”, diz a administradora de empresas Melissa Miranda, criadora do modelo de negócio que também recebe produtos excedentes de hortas comunitárias da região e incentiva a criação de novas áreas de plantio na cidade.

Melissa explica que muitas periferias sofrem de um fenômeno urbano chamado “deserto alimentar”. O conceito, novo, inclui indicadores geográficos, econômicos e sociais mas que pode ser facilmente entendido numa volta pelos bairros mais afastados do centro da cidade: “é mais fácil encontrar um pacote de bolacha recheada que uma maçã aqui na quebrada”, afirma a especialista.

O Organicamente não trabalha com estoque propositadamente, para evitar desperdícios, e mantém um pequeno entreposto na sede da Agência Solano Trindade, incubadora de projetos de economia solidária voltada para a circulação da renda da periferia na periferia. “O dinheiro precisa circular por aqui”, diz Melissa.

Assista o vídeo com o caminho dos orgânicos da horta para a mesa:

“É um sufoco fechar as contas”

Mas, apesar da necessidade de gerar sustentabilidade econômica na periferia, o empreendimento sofre dificuldades. “Quando se tem um negócio voltado para pessoas de baixa renda é preciso contar a venda em massa, com a força de muitos consumidores”, explica. O Armazém Organicamente, com menos de um ano de existência, ainda não garante lucros significativos. “É um sufoco fechar as contas.”

Melissa busca parcerias de negócios. Por enquanto, além da compra direta da roça Abaetetuba, fechou o fornecimento de produtos com apenas 5% de taxa no preço do produtor com o Instituto Chão, entidade que também faz a ponte entre agricultores e consumidores e têm uma loja no bairro da Vila Madalena, com público de maior poder aquisitivo. Há ainda um acordo com uma família de agricultores  de Ibiúna, maior pólo orgânico de produção de orgânicos. “É a família Albuquerque, que participa de uma feira em São Paulo e por isso nos poupa o frete e custo de logística”, conta Melissa.

“Frutas, hortaliças, legumes e folhas só são retirados da terra ou do pé para serem consumidos”, diz Aline, da roça Abaetetuba

Por causa da necessidade de aproveitamento máximo de recursos, o Armazém Organicamente só trabalha com encomendas. A intenção é ter desperdício zero. “Isso também é ótimo para o agricultor!”, diz a produtora Aline, diretamente do roçado de sua chácara. “Com isso, evitamos perdas e ainda tem a vantagem de oferecer alimentos que acabaram de ser colhidos”, completa.

Outra forma de otimizar a grana é aproveitar as viagens da roça, feitas por Rafael, à cidade. Se a casa da consumidora final estiver em seu caminho, como é no caso de Evelyn, ele já faz a entrega. “Assim, economizamos no combustível. Tudo foi pensado para gerar o mínimo custo e impacto ambiental. Quando possível, usamos até bicicletas”, conta Melissa.

O armazém envia mensagem de celular aos clientes três dias antes da entrega com a lista de produtos, tamanho das porções e preços. Também oferece pães, cervejas artesanais e até produtos de beleza orgânicos

“Se eu tivesse que sair para comprar seria um trabalhão, teria de ir a diferentes lugares para encontrar variedade e sairia bem mais caro”, diz a consumidora Evelyn, ao comparar o serviço com a pequena sessão de orgânicos do mercado mais próximo de sua casa

Sonhos alimentados com solidariedade numa cidade mais amorosa

“É muita satisfação envolvida”, completa Melissa, que há dez anos largou uma promissora carreira na área comercial de grandes empresas para viabilizar o antigo desejo de viver numa cidade mais sustentável, saudável e amorosa.

Ela acredita que é preciso, antes de tudo, fortalecer os vínculos entre as pessoas quando se fala de alimentação, a mais importante necessidade de sobrevivência humana. “Conexões são a base de tudo: valem para as relações entre agricultores, fornecedores e consumidores que, por serem periféricos, não podem ser excluído da cadeia de comida nutritiva.”

Evelyn sente orgulho por participar desse movimento. É o que ela diz enquanto conversa com o agricultor Rafael na hora da entrega dos produtos em sua casa. Ao receber os orgânicos, ela sempre se atualiza do Armazém e vida da família do agricultor, seus três filhos, e de Aline que, por sua vez, optou por viver no campo para também se realizar como artista plástica. “Estamos todos alimentando nossos sonhos. É possível, sim, criar uma cadeia solidária mesmo com todas as dificuldades de quem nasceu ou vive na periferia”, arremata Aline, enquanto caminha pela horta verdinha e pronta para a colheita da próxima refeição.

Para saber mais:

Armazém Organicamente
Rua Batista Crespo, 105 – Campo Limpo (ao lado do terminal de ônibus)
WhatsApp para entrega: (11) 99206-4410
OBS: Entrega em bairros fora das periferias da Zona Sul de São Paulo tem taxa de entrega diferenciada

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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