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A estilista que produz moda afro sob medida e para todos os corpos

Flávia Martinelli

20/01/2018 05h00

Aline Andrade, proprietária da marca Ìyá Ìyá Teresa, reinventando a moda a partir de Itaquera: roupas feitas para durar, contemplar a diversidade de corpos e culturas, com produção responsável e preço acessível. Suas peças, cheias de conceito e exuberância, variam de R$ 100 a R$ 360 (Foto: Renato Ricardo Carvalho)

Colaborou Cauê Yuiti, especial para o blog MULHERIAS

De sua casa em Itaquera, na periferia da Zona Leste de São Paulo, Aline Andrade sonhava em ser estilista. Estilista de verdade; com missão de criar e desenvolver coleções que representassem seus valores, estética e conceitos sobre a moda. "Não queria ser contratada para fazer adaptações – ou cópias mesmo – de roupas gringas para o Brasil, uma prática comum no nosso mercado." A designer de moda também questionava padrões de produção, de vendas e do consumo quase descartável. Aline ainda almejava diversidade de estilo para quem não se vê no manequim da vitrine e queria oferecer tudo isso a preço justo e acessível. Tarefa de gigantes. Principalmente se falta grana para montar o próprio negócio.

"Parecia impossível mesmo. Mas que alternativa me restava senão tentar, né?", diz a proprietária da marca Ìyá Ìyá Teresa, de 28 anos, que desde os 14 trabalhou para lojas – de decoração de quartos de luxo de bebês a confecções multinacionais e grandes magazines. Há 13 meses, ela inaugurou sua produção com tecidos africanos doados por um amigo. "Fiz seis peças e não parei mais."

Em sua terceira coleção de roupas, Ìyá Ìyá Teresa recupera, em plena periferia, a excelência artesanal de roupas sob medida. No boca a boca, ou melhor, de foto em foto no Instagram ou Facebook, a grife está chamando a atenção por sua moda inclusiva, democrática e feita para durar.

Ìyá Ìyá Teresa não tem loja física nem peça pronta para comprar. Os preços partem de R$ 100 e a roupa mais cara, um terno completo com blazer e calça de alfaiataria, sai por R$ 360. Quem quer encomendar um de seus vestidos, batas, jaquetas ou turbantes encontra o catálogo nas redes sociais (Foto: Marcelo Catacci)

A própria Aline, seus clientes ou amigos são os modelos dos ensaios de moda. "As peças me representam e aproveito para contemplar belezas fora do padrão. Inclusão é o que sempre procurei na moda." O comentário é uma crítica à estética eurocêntrica dessa indústria e do próprio ensino da moda em universidades. Não por acaso, sua marca foi construída a partir da ancestralidade africana ou de países de diáspora.

A estilista mostra sua estampa exclusiva ao lado do modelo Akin Cavalcante, que tem vitiligo, e da amiga e designer de moda Alexandra Oyiin (Foto: Augusto Wyss)

Tecidos importados por refugiados no Brasil

Suas coleções já foram inspiradas no samba, nas negras do Partido Alto de Salvador, um movimento do século 19 de mulheres alforriadas que trabalhavam vendendo doces de tabuleiro, e também no candomblé. Teresa, que dá nome à grife, é homenagem à avó de Aline, que foi sacerdotisa de umbanda e, posteriormente, iniciada no candomblé para o orixá Obaluaiê, o senhor da terra.

"Tenho a responsabilidade de informar o público sobre a cultura e religiosidade que me pauta, mas acredito em uma moda pra todo mundo: preto, branco, japonês e quem mais quiser se definir como quiser"

A estilista não trabalha com grandes estoques de tecidos e a matéria prima da Ìyá Ìyá vem do Senegal, Congo, Angola e Nigéria. As importações são feitas por refugiados vivem no Brasil. A influência destes amigos, por sinal, inspirou sua última coleção, chamada "Sabor", com as cores e temperos do Marrocos e Egito.

O site global de valorização de moda e cultura africana da revista Zen Magazine Africa, sediada em Lagos, centro econômico nigeriano, noticiou os turbantes esculturais do ensaio de moda produzido pela marca (foto: Augusto Wyss)

A própria Aline costuma tirar pessoalmente as medidas de seus clientes. Em São Paulo, vai até a pessoa, a recebe em sua própria casa ou, então, marca encontro em algum lugar neutro, como os Sesc de São Paulo. Quem não é da capital é orientado por ela sobre como fazer as marcações que vão dar o caimento da roupa.

"Uma das minhas produções inesquecíveis foi a de uma cliente plus size que precisava de um vestido de madrinha de casamento. Foi emocionante a reação dela quando se viu maravilhosa, com seu corpo respeitado numa peça que realça sua identidade africana", orgulha-se.

De volta ao capricho da costureira do bairro

A experiência da estilista em lojas e na indústria da moda fez Aline não aderir a linhas de montagem com metas estipuladas de produção feita por costureiras sem nome ou voz. É a dona Malu Araújo, famosa por fazer a moda acontecer no bairro de Vila Granada, na Zona Leste, quem cuida de cada arremate da antiga arte do corte e costura feito em casa. "Se eu sou coração da marca, ela é o pulmão."

Aline acredita que a retomada da roupa sob medida, da compra com pequenos empresários e do atendimento super personalizado veio para ficar. "Os consumidores estão cada vez mais conscientes." (Foto: Renato Ricardo Carvalho)

Precisamos falar do racismo e do elitismo da moda

Ela viu no empreendedorismo a saída para sua realização profissional. "Em uma empresa, por exemplo, vi que as mulheres promovidas a cargos de poder tinham sempre o mesmo padrão de beleza e cultura. Eram todas parecidas com a Barbie." Seu desapontamento chegou ao máximo quando descobriu que os seguranças de uma das lojas onde trabalhou, num ponto comercial de luxo, tinham um código especial para avisar por wakie talkie quando qualquer negro entrava no local.

Aline ainda aponta o elitismo do mundo da moda. "Me formei em design de moda mas sei que para ser estilista de uma grande marca, você tem que ter vivência no exterior, ter estudado numa daquelas duas ou três faculdades caríssimas e os bons contatos vêm do círculo social. Quantas estilistas negras estão nas semanas de moda? Ìyá Ìyá Teresa é uma resposta a tudo isso."

 

 

 

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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