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Carnaval de favela tem farra feminista, anti-racista e ambiente familiar

Flávia Martinelli

02/02/2018 05h00

Colaborou Júlia Arbex, especial para o blog MULHERIAS 

"Não deixe o samba morrer/ Não deixe o samba acabar/ O morro foi feito de samba/ De samba pra gente sambar" (Alcione)  

Carnaval no morro, na quebrada, na favela, na comunidade, no subúrbio ou na periferia tem seu próprio charme e identidade. É festejar com vizinhos e colorir, num ato de resistência e até protesto, a rotina de lugares relegados à condição de bairros-dormitório. Longe dos holofotes – e em geral do poder público – esses blocos mostram a necessidade de ocupar as ruas com alegria e, cada vez mais, são oportunidade de lutar contra o machismo, preconceitos e promover a união entre as famílias. Confira os detalhes de três blocos famosos por suas causas na quebrada e outros cinco que também apostam num Carnaval mais inclusivo, diverso e – por que não? –, educativo.

O BLOCO QUE VIROU CENTRO CULTURAL INFANTIL

"Quando criarmos o Bloco do Beco, há 16 anos, a ideia era fazer com que as pessoas que não tinham dinheiro conseguissem aproveitar a festa perto de casa e que todos os moradores, de qualquer idade, participassem", diz Arailda Carlos Aguiar do Vale, a Carla, co-fundadora do bloco que sai do Jardim Ibirapuera e vai até a favela da Erundina, na Zona Sul. "A nossa proposta é alegria e rebeldia para todos."

Carla no Bloco do Beco, que virou uma associação com atividades o ano todo para crianças. Na sede na favela da Erundina, resgata brincadeiras tradicionais, promove rodas de leitura e jogos. "Ouvimos o que as crianças têm a contar. Algumas mães dizem que a relação com os filhos melhorou muito", conta emocionada

Em 2008, ela, seu marido Luiz Cláudio, e amigos do bairro – que já tocavam em escolas de samba – perceberam a importância de promover atividades culturais durante o ano todo, especialmente para as crianças que moravam ali. "Criamos o Bloquinho do Brincar, um espaço que fica dentro da favela da Erundina e é voltado para os pequenos de 6 a 12 anos. É um prédio de três andares, com brinquedoteca, biblioteca e um ateliê de artes."

Assista ao mini documentário sobre o Bloco do Beco:

Bloco do Beco – Jardim Ibirapuera/Zona Sul
Quando: 10/02 (sábado)
Onde: Rua Salgueiro do Campo
Horário: 14h


FOLIA SEM ASSÉDIO

Lília Reis, do Bloco da Moça: "Temos o apoio de manas feministas e até de amigos homens que acompanham os cortejos para denunciar qualquer tipo de abuso"

Inspirado na Praça da Moça, um dos lugares onde os moradores de Diadema se encontram, um grupo de jovens criou em 2014 um bloco que celebra o universo feminino em Diadema, na Grande São Paulo. "No Bloco da Moça conscientizamos as pessoas sobre o assédio e a irresponsabilidade no carnaval por meio das músicas, que não são machistas e incentivam o respeito durante a festa", conta Lília Reis, que acompanha o bloco desde que foi criado e é integrante e produtora do grupo há dois anos. "Temos o apoio de manas feministas e até de amigos homens que acompanham os cortejos para denunciar qualquer tipo de abuso."

O coletivo mobiliza todas as quebradas da cidade em cortejos que acontecem ao longo do ano. "Já no primeiro Carnaval na rua, usamos figurinos, adereços e bonecos construídos por nós mesmos. As marchinhas já eram autorais e homenageavam os moradores e personalidades da região", lembra Lília

Bloco da Moça – Diadema (Grande São Paulo)
Quando:
09/2 (sábado), 11/2 (domingo) e 13/2 (terça-feira)
Onde: Rua Ida Espagiari Martins (09/2); Sobradinho do Som na Av. Alda (11/2); Rua Baleia (13/2)
Horário: 18h

EMPODERANDO A POPULAÇÃO NEGRA

No Jardim Ângela, na zona sul, o Bloco do Hercu, que é formado por educadores sociais e moradores, coloca o bloco na rua e explorar o espaço público, com crianças, jovens, idosos e pessoas com deficiência. Além do Carnaval, o coletivo desenvolve ações pontuais de empoderamento, como o Negrolando, evento que acontece em novembro, durante o mês da Consciência Negra. "Fazemos atividades e rodas de conversas com a galera da nossa comunidade que não conhece nossa história. Reforçamos a questão da representatividade e do empoderamento para valorizar a cultura que não chega até nós", diz Carlos Alberto de Souza Junior, o Churras, um dos criadores do bloco.

Cena do evento Negrolando, promovido pelo Bloco do Hercu na Semana da Consciência Negra

A primeira vez que desfilaram na comunidade, há seis anos, poucos seguiam o bloco. No ano passado, reuniu mais de 3 mil moradores. "A festa foi grande, sem espaço para briga e confusão e com horário para começar e terminar. Também recebemos ajuda dos comerciantes do bairro, que divulgaram e fizeram até abadá e faixas com o nome do bloco para apoiar a gente."

Bloco do Hercu – Jardim Ângela/Zona Sul
Quando: 11/2 (domingo)
Onde: Rua Ignácio Limas, nº 14
Horário: 15h

OUTROS BLOCOS DA QUEBRADA

Bloco do Jatobá – Itaquera/Zona Leste
Jatobá é um morador da comunidade e amigo querido das pessoas que criaram o bloco. Além da música, bonecos parecidos com os de Olinda vão desfilar pelas ruas da zona leste.
Quando: 04/2 (domingo)
Onde: Rua Giácomo Quirino
Horário: 13h

Cordão Carnavalesco do Congo – Brasilândia/Zona Norte
Todo ano o bloco tem um tema e este ano é o futebol da várzea, esporte que é orgulho do bairro.
Quando: 04/2 (domingo)
Onde: Rua Raulino Galdino da Si

lva, nº 300
Horário: 14h

CarnaBronks – Jardim Paulistano/Zona Norte
O bloco foi criado por moradores da Cohab de Taipas e faz piada com o apelido do bairro, referente ao Bronk's, da periferia de Nova York. Vai ter samba, pagode e axé.
Quando: 04/2 (domingo)
Onde: Rua João Amado Coutinho, nº 1009
Horário: 14h

Bloco Ô Grajaú Vem Tomar No Copo – Grajaú/Zona sul
No quinto ano de festa, o bloco avisa todos que não têm preconceitos são bem-vindos. Não há espaço para nenhum tipo de machismo, racismo, gordofobia e homofobia.
Quando: 10/2 (sábado)
Onde: Galpão Cultural Humbalada
Horário: 15h

Bloco do Heliópolis – Heliópolis/Zona Sul
Com 40 crianças na bateria, o bloco surgiu para diversificar o carnaval em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo. A festa conta com trio elétrico, que mistura todos os ritmos, desde funk até marchinhas.
Quando: 04/2 (domingo)
Onde: Rua da Mina
Horário: 14h

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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