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"Rainha dos pisantes" restaura e customiza tênis da quebrada

Flávia Martinelli

21/05/2018 04h00

Por Monise Cardoso, especial para o blog MULHERIAS

Juliana Schiezaro, dona da From Ghetto to Ghetto, emprega todo seu talento na restauração de um dos artigos mais preciosos das periferias: os boots

"Estava voltando da aula quando vi aquele tênis jogado no chão. Fui chutando o par até o caminho de casa. Entrei na brisa de pensar por quantas quebradas o tênis já tinha passado, daquele jeito, de chute em chute, de quebrada pra quebrada." Foi neste momento, há três anos, que o cuidado com os pisantes virou trabalho e grife para Juliana Schiezaro: hoje ela é prestadora de serviços de restauração e customização de tênis From Ghetto To Ghetto. Aos 20 anos, ela coleciona cerca de 500 pares assinados.

Para uma parte dos moradores da quebrada, os tênis têm um valor não apenas monetário, mas também sentimental. Não é só um calçado, mas um objeto de desejo, fruto de muitas parcelas no cartão de crédito ou presente de aniversário, formatura ou Natal, que a família rateia para comprar. "Para nós, representa status, pertencimento. Colocar um boot legal nos pés eleva a autoestima de quem é fã de tênis. E quanto mais exclusivo ou quanto mais história tiver o modelo, mais especial a gente se sente", diz Juliana, já chamada de Rainha dos Pisantes.

 

"Os modelos estão sempre ligados a lembranças especiais, a rolês que a gente queria muito ir, porque é pra esses momentos que a gente reserva o tênis mais legal"

Não por acaso, seu talento passou a valer ouro no Jardim Damasceno, bairro localizado no extremo da Zona Norte de São Paulo, onde a artista cresceu e vive com a avó, a mãe e um irmão mais novo.

Ela lembra do primeiro tênis customizado, um Adidas Classic, de camurça, garimpado em um brechó. O modelo foi pintado e passou a compor o estilo da menina que era fã do Fresh Prince, personagem de Will Smith no seriado americano "Um Maluco no Pedaço". "Ficou horrível, mas eu adorava. Saía me achando!" (Abaixo, um gif que ilustra bem o carinho do personagem por seus tênis)

A falta de grana e o desejo de ficar no estilo do ídolo fez com que Juliana saísse à caça de mais modelos em brechós. Com o tempo, as customizações toscas foram dando espaço para acabamentos cada vez melhores, e a brincadeira chamou a atenção dos amigos.

O primeiro "trampo de responsa" foi encomenda do MC Bitrinho, famoso pela música Kitnet, da Zona Norte de São Paulo. Um amigo em comum, de apelido Seed, já havia reparado nos tênis da amiga, a incentivou a ganhar dinheiro com isso e recomendou seu trabalho. "Meu trampo ficou conhecido na banca do Bitrinho, foi daora". Daí em diante, a From Ghetto alçou vôos por outras quebradas.

Nunca falta trampo

Juliana trabalha em 20 pares por mês, em média. "Não fico parada, porque não escolho cliente. Se tiver que tirar uma manchinha de R$10, eu tiro. Se for pra fazer uma customização de R$180, borá lá!" A From Ghetto também higieniza e restaura bonés e todo tipo de calçado.

A tabela de preços do trabalho varia entre R$30 e R$300. Juliana nunca chegou a cobrar o teto. Segundo ela, a estratégia garante a valorização do seu trabalho. "Se a pessoa vê que eu tenho moral de ter um valor máximo alto assim, ela vai entender que eu banco um trampo dessa qualidade; vai deduzir que eu entendo do que faço e que estudo pra aprimorar o resultado final".

Mas Juliana conta que nem todo mundo reconhece o peso do seu trabalho. "Já tive cliente que quando foi me entregar o tênis, parecia que estava me entregando droga. É o cara que, tempos atrás, teria grana para comprar um par novo, mas agora tá duro, e acha vergonha restaurar".

A dona da From Ghetto garante não se importar, pois a maioria dos clientes, sente orgulho de ter um tênis assinado por ela. Uma das encomendas mais especiais foi de uma cliente que ganhou um tênis da avô que, pouco tempo depois, faleceu. "Ela encomendou a restauração pra poder guardar o tênis em uma caixinha de acrílico e ter pra sempre".

Presentes são outra especialidade da casa. "Teve um cara que queria presentear a namorada com um Vans Old School de listras brancas. Como não encontrou o exato modelo, me pediu pra customizar com a tal da listra branca. Achei o pedido tão fofo, que fiz de graça!"

Brincadeira de gente grande

O processo é sempre o mesmo: pegar o tênis, tirar o cadarço, olhar a língua, a sola. Perguntar quais produtos o dono já usou para higienizar, há quanto tempo tem o tênis. E é a partir do diagnóstico detalhado que ela sabe o que pode ou não fazer com os calçados.

"Tem gente que mente. Diz que nunca lavou o tênis, e quando eu boto na água, o bagulho amarela, descasca. Isso é típico de tênis lavado de maneira errada ou mal pintado. Eles fazem isso pra eu dar um orçamento mais baixo. Mas aí, o barato sai caro, né?".

Ao contrário desses clientes, Juliana tem a sinceridade como parceira de trabalho. "Eu sempre aviso qual será a vida útil da pintura. Tem material que, não adianta, com o tempo, vai descascar". Segura do que desenvolve, a profissional dá três meses de garantia e mensalmente faz a 'campanha do acerto'. "Posto no Facebook que durante aquela semana irei restaurar todos os tênis que assinei e deram problema. Até hoje, não devolveram nenhum".

O talento caiu do céu

Aos 14 anos, Juliana sonhou que estava caindo de um prédio, segurando um lápis na mão. A partir desse dia, passou a desenhar sem nunca ter feito uma aula na vida. "Tudo que eu olho é desenho: qualquer feição, paisagem, quadrado a minha mente traduz como um desenho".

A empresária também desenha em jaquetas, camisetas e já se aventurou até no mundo da tatuagem. Com trabalhos 100% autorais, o processo criativo acontece diretamente na base a ser transformada e sempre à caneta. "Não sei partir de rascunho. Se for pra dar ruim vai dar!".

Os clientes chegam até a From Ghetto com uma ideia, que costuma mudar de acordo com a conversa. "A pessoa diz que gosta de clássico e quer um tênis todo preto. Eu pondero que no material daquele modelo a tinta preta não vai pegar tão bem. Proponho um meio termo e a gente chega num resultado satisfatório".

Juliana acredita ainda ter muito para melhorar, mas falta grana para investir nos cursos que gostaria de fazer. Atualmente, concentra os estudos na internet e pesquisa muito sobre processo de aplicação de tintas e higienização. Os testes são sempre feitos nos próprios tênis. Inclusive, os de novos estilos de desenhos.

Projeto de vida

Por mês, Juliana lucra entre R$ 700 e um salário mínimo. A correria que faz com os tênis garante boa parte das contas da casa. Há pouco tempo, a From Ghetto era sua única fonte de renda. Atualmente, ela precisa conciliar as customizações com um trabalho formal em uma empresa no centro da cidade.

"Minha meta como empresa é conseguir me sustentar totalmente e poder chamar só gente da quebrada pra trabalhar comigo. Eu moro num lugar onde as pessoas perdem três horas dentro de transporte público para ganhar um salário mínimo. Isso acontece porque aqui não tem trabalho pra gente, aliás, têm as coisas erradas, mas não é isso que queremos".

A profissional sabe que poderia lucrar mais com o seu talento, mas garante levar muito a sério o nome da marca. "Eu não posso usar um nome de significado tão forte e ignorar quem quer pintar uma sapatilha e tá sem grana. Não é porque eu paguei R$ 200 numa tinta que vou fazer um cliente sozinho me recompensar ".

Mas nem por isso, abraça a ideia de quem já chega pechinchando preço com o argumento de que é da quebrada. "As pessoas esquecem que eu sou da quebrada também e pago conta, me alimento, visto e calço. Levantar bandeira é importante, mas não enche barriga de ninguém".

Juliana passou a ter dimensão da sua importância quando o MC Gav, respeitado rapper de letras politizadas e articulador do Jardim Rincão, bairro da Zona Norte, a convidou para participar de um de seus clipes. Tímida, não quis aparecer, mas pintou um tênis para que o MC usasse na gravação. "Pra mim, eu estava ali. Quando alguém usa um tênis feito pela From Ghetto, está vestindo o que eu mais valorizo, e é como se ela estivesse comigo".

 

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.