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Das tranças em casa ao corte chavoso: o que é ser cabeleireira na periferia

Flávia Martinelli

04/06/2018 04h00

 

A importância dos cabelos e a relação entre clientes e cabeleireiras das periferias é o tema do documentário Quem te penteia? Mais que vaidade ou prestação de serviços, quem cuida do cabelo e quem recebe esse cuidado compartilha afeto e valoriza a identidade das quebradas

Colaborou Marina Azambuja, especial para o blog MULHERIAS

Basta uma volta na periferia para constatar: salão de cabeleireira é o que não falta. Nos finais de semana estão sempre lotados. “Seja para fazer um dread, uma progressiva, dar uma lavada, escovada ou passar um gel, esse momento de cuidar do cabelo dá muita dignidade, sabe?”, diz a cabeleireira e trançadeira Cláudia Borges, de 52 anos, moradora do Jardim Ângela, na zona Sul de São Paulo. E não se trata apenas de vaidade feminina. Sucesso entre os manos, o corte chavoso, com linhas e formas geométricas esculpidas nos cabelos, é responsável por filas em barbearias e salões unissex.

“Mesmo nessa crise, salão por aqui não fecha. Se acontecer, logo o profissional se junta a outro ou faz o trabalho em domicílio, na garagem ou na sala de casa, como eu muitas vezes. Do cabelo não deixamos de cuidar”, completa Cláudia, uma das personagens do curta metragem “Quem te penteia?”, filme idealizado e realizado em vielas paulistanas pela Zalika Produções.

Assista ao teaser abaixo:


A relação entre os clientes e os profissionais que garantem toda essa “chave”, gíria que define o estilo, charme e estéticas que nascem nas periferias, é o tema do documentário que acaba de ser lançado em São Paulo (para saber dos lugares de exibição veja ao final da reportagem e acompanhe a página do filme aqui). “Percebemos que as relações entre quem cuida do cabelo e quem é cuidado são menos baseadas no capital e muito mais em uma troca humana, de afeto e de valores profundos”, explica a roteirista e diretora de arte do filme, Nina Vieira.

O documentário discute ainda assuntos como ancestralidade, autoestima e economia solidária. “O fio condutor é a busca constante de ser e viver a identidade preta e periférica da forma mais livre possível”, ressalta. Cabelo, portanto, também é símbolo de resistência aos padrões de beleza que não têm nada a ver com a quebrada. “Temos o nosso jeito, criamos nossa marca”, diz Cláudia, que aos 14 anos descobriu que os cuidados que tinha com o cabelos das irmãs podia virar profissão.

A trançadeira Cláudia reconhece uma estética própria da periferia.“É algo nosso.” Mas nessa singularidade ela vê semelhanças mundo afora. “A gente consegue se ver em fotos, filmes… É como se fôssemos um povo. Esse visual meio misturado e bagunçado, no fundo, mostra a nossa capacidade de adaptação e de manter algo que nos une”

Cláudia lembra que na infância sua mãe dizia às três filhas: “somos negros e temos orgulho de quem somos e porque somos. A mãe não quer nunca que vocês sejam interrogadas na rua pelo cabelo estar desarrumado, sujo ou feio”. A perfeição nos penteados de uma das irmãs chamou a atenção.

“A filha de um dos membros do grupo Tranza Negra, sensação dos bailes black na década de 1980, chegou até mim e perguntou quanto custava cuidar do cabelo dela”, recorda Cláudia. “Eu não soube o que dizer. Para mim, era uma coisa tão natural; só um gesto de carinho.”

Cláudia diz oferecer esse afeto às clientes até hoje em sessões de trançamento de cabelos que podem durar até mais de 8 horas num dia.“Ao colocar a mão na cabeça da pessoa, você está doando amor. E tem a conversa, a cumplicidade do momento. Eu também me abro. É uma troca de sentimento e de tempo. Ninguém quer dar seu tempo hoje em dia.”

“Aqui, é como se o nosso cabelo fosse capaz de dizer: ‘olha, seja lá o acontece ao nosso redor, estamos aqui, bem, vivendo, cantando, comendo, nos divertindo e chorando como todas as outras pessoas.’ Essa marca que se vê nos cabelos da periferia não é só na aparência, sabe?”

A cabeleireira vê proximidade e solidariedade na maneira de a periferia se relacionar em tudo. “Passamos por coisas parecidas na vida, tanto em felicidade quanto em tristeza, e nos ajudamos. As pessoas aqui não se incomodam por estarem muito perto, trocando vivências, tendo contato bem próximo. Um constrói uma casa, outro puxa atrás e os dois dividem o mesmo quintal. Aí o outro vizinho estaciona o carro na porta, fecha a rua, faz uma festa e tá tudo bem. Com cabeleireiras e clientes que viram amigas é igual, tem essa relação. Faz parte da nossa cultura.”

APELO À UNIÃO: A angolana Júlia Mayeto, outra entrevistada no documentário, tem um salão que fica dentro de uma galeria na zona Norte, no bairro Tietê. Para atrair clientes, aborda mulheres na rua e diz: “amiga, bom dia, tudo bem? Você vai fazer cabelo? Sustento minha filha com as suas tranças. Por isso minha filha é vossa também. Pra embelezar a sua cabeça e ficar bom, você precisa de mim e eu preciso de você.”

AUTOESTIMA POTENCIALIZA TUDO: Diva Green trabalha com estética desde os 14 anos, quando sentiu necessidade de cuidar de sua autoestima. “Eu usava produtos de relaxamento no cabelo e não me encontrava. A trança foi uma parada em que me reconheci, vi que era bom pra mim e para outras mulheres. Algumas têm problemas com o cabelo ao ponto de não ascenderem pessoalmente, profissionalmente… tudo. Mas o cabelo pode romper isso, coloca para fora sua identidade.” Seu salão, que começou numa garagem em Itaquera, hoje é o Diva’s Hair Style Center, na Vila Matilde, e atende as cantoras Liniker, Tássia Reis e outras famosas. Para saber mais sobre Diva, clique aqui no perfil que o blog MULHERIAS fez com ela.

ONDE ASSISTIR QUEM TE PENTEIA? EM SÃO PAULO
08/06 às 19:30 – Instituto de Cinema – R. Teodoro Sampaio, 1121 e 1109, Pinheiros
12/06 às 14:30 – SASF Capão Redondo – R. Professora Eunice Bechara de Oliveira, 860
15/06 às 11h e às 15h – Cine Julita – R. Nova do Tuparoquera, 249, Jardim São Luís
30/06 às 11h – CEU Guarapiranga – Estr. da Baronesa, 2031, Parque do Lago

 

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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