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Na periferia, ela investiu R$ 200 em marmitas fit e fatura R$ 7 mil por mês

Flávia Martinelli

2007-11-20T18:04:00

07/11/2018 04h00

Por Victória Durães, especial para o MULHERIAS

Couve, abobrinha, frango, ervilha. Esses ingredientes rendem bem mais que uma refeição caseira e hoje fazem parte da receita que garante as contas pagas no final do mês. De acordo com dados do IBGE, o empreendedorismo informal de comida cresceu nada menos do que seis vezes nos últimos quatro anos. Em 2015, vendedores de quentinhas na rua, sob encomenda ou de porta em porta eram 79.261 e hoje são 485.389, incluindo o mais novo sucesso no ramo: o delivery de marmitas personalizadas ou focadas em públicos específicos. É uma saída real ao desemprego e foi nessa onda que nasceu a Levinho Fit, o negócio de quentinhas saudáveis da empreendedora Gisa Olliveira, de 39 anos, moradora do bairro Vila Campo Grande, na periferia da Zona Sul de São Paulo.

"A empresa sou eu: monto o cardápio, faço compras, cozinho, embalo marmitas, escrevo as etiquetas, ponho na sacola e entrego pessoalmente para cada cliente". Foi em novembro de 2017 que Gisa decidiu pegar os R$ 200 que tinha na carteira para investir na venda de comida. Na época, ainda trabalhava como motorista de aplicativos de transporte particular, mas a manutenção do veículo ficava cara e não compensava. "Eu tinha que transformar aqueles R$ 200 em R$ 400, no mínimo, para pagar as contas de casa. Tudo foi feito na cara e na coragem, mas o segredo foi acreditar nas necessidades de um público que eu conhecia bem."

 

Ela pegou o que tinha na carteira, fez escondidinho de carne e saiu batendo de porta em porta nos comércios da região

Gisa sempre foi ligada aos esportes e à alimentação saudável. Com mãe bailarina e pai personal trainer, na adolescência era atleta profissional de natação, passou alguns anos praticando outros esportes e hoje é corredora amadora. Levanta às 5h30 todos os dias para correr na rua ou treinar na academia e só depois sai para comprar os ingredientes para a produção das marmitas. E, assim, uniu seu lifestyle ao empreendedorismo ao oferecer marmitas fit aos amigos e conhecidos que também gostam de malhar.

O primeiro prato para venda foi escondidinho de carne no pote. Deixou tudo pronto na noite anterior e de manhã saiu com a filha de 14 anos para bater na porta de todos os comércios da avenida Nossa Senhora do Sabará, também na Zona Sul. Para a surpresa delas, em duas horas as 20 unidades produzidas foram vendidas.

De acordo com estudo feito pela agência de pesquisas Euromonitor Internacional, o Brasil ocupa a quarta colocação no ranking de vendas de alimentos e bebidas saudáveis. Entre 2014 e 2017, esse mercado cresceu 98%.

As dificuldades de sair da periferia para o mundo

Apesar de muitos conhecidos virarem clientes, 40% dos pedidos do Levinho Fit chegam  pelas redes sociais. Os cardápios são enviados semanalmente para os clientes por meio de uma lista de transmissão do Whatsapp. 

Gisa vende kits que são compostos por 10 unidades de porções de dois tamanhos: 220g ou 400g. O pacote menor custa R$ 120 e os maiores, R$ 160. O valor da entrega varia de acordo com a região de São Paulo. O Levinho Fit atende toda a cidade, mas Gisa tem uma clientela fiel – a maioria de seus clientes fixos ficam nos Jardins, Perdizes, Moema e região da avenida Paulista.

Moradora da periferia, Gisa enfrenta barreiras todos os dias: da hora de fazer uma compra ao momento do fechamento dos pedidos. Como a maioria dos microempreendedores, sua maior dificuldade é conseguir capital para investir. Ela  ainda não conseguiu regularizar a empresa – precisa encerrar as atividades de um antigo negócio, de outro segmento. A informalidade dificulta o crédito.

Mas o fato é que o negócio hoje fatura em média R$ 7 mil (bruto) por mês com a venda de cerca de 40 kits de marmitas fit e sucos. Os primeiros lucros demoraram cinco meses para chegar. O que entrava no começo era reinvestido para continuar atendendo os novos clientes.

Hoje, o investimento é na compra de utensílios mais modernos, panelas novas e materiais de trabalho para melhorar a produção. "Estou reformando aos poucos minha cozinha, pra ficar mais confortável o trabalho no dia a dia".

Como funciona

A empresária fit sempre fala para seus clientes sobre a importância de uma alimentação saudável e da prática de esportes para a saúde e qualidade de vida de todos. "Muitas vezes acreditamos que isso é impossível nos dias de hoje, com toda a correria do dia a dia, e é aí que eu entro com as marmitas, para oferecer essa reeducação alimentar sem a pessoa precisar sair de casa ou ficar horas na cozinha", explica.

Muitos de seus clientes já relataram perda de peso e mais disposição para a prática de atividades físicas depois de conhecerem a Levinho Fit. "Dieta e comida precisam ser gostosas porque se é sem graça ninguém consegue continuar. Tento incentivar em todos os sentidos, desde a alimentação até os exercícios".

Além de cozinhar, Gisa também embala as marmitas uma a uma com a ajuda da filha.

As marmitas são personalizadas de acordo com a dieta individual – vegetariana, vegana – e o objetivo do cliente – low carb, ganho de massa muscular, perda de peso etc. No cardápio entram risoto de shimeji, arroz de couve flor e picadinho de carne com legumes, lentilha com brócolis e carne moída, quinoa, couve refogada e hambúrguer de frango.

A nutricionista Dayane Bellezi faz os balanceamentos dos pratos e Gisa monta os cardápios criativos aos domingos. Toda segunda-feira pela manhã ela envia as opções da semana pela lista de transmissão do Whatsapp. O combinado é  receber os pedidos para entrega dos kits depois de dois dias úteis – tempo necessário para a compra dos alimentos frescos. A empresária e sua filha entregam na casa dos clientes, que congelam ou não as porções recebidas. Esse contato direto com a cozinheira fit do começo ao fim dos pedidos torna a relação com os clientes mais próxima e acaba sendo mais uma forma de fidelizar o público – além do sabor e tempero das comidas, claro.

O cuidado com a higiene da cozinha é dobrado, principalmente por ser também de uso doméstico. "Tenho que desinfetar toda a cozinha com álcool antes de começar a trabalhar, além dos cuidados especiais para armazenar os alimentos na geladeira de casa". A limpeza antes, durante e depois da produção é feita por Gisa, que conta com a ajuda da filha para lavar a louça quando está em casa.

Os cardápios são enviados semanalmente através de listas de transmissão no WhatsApp

Próximos passos

"Os planos para o futuro são de abrir uma cozinha industrial com funcionários para me ajudar a dar conta da demanda que tem crescido a cada semana". Gisa cozinha sozinha em sua casa diariamente para a entrega das marmitas, mas o espaço está ficando pequeno para os 300kg de comida que produz mensalmente – ainda bem.

A empresária-cozinheira participou do curso de culinária oferecido pelo projeto AfroLab, da Feira Preta, maior evento de cultura e afro empreendedorismo da América Latina, e saiu da experiência de uma semana com outra visão de negócio. Antes do curso, acreditava que a quantidade de clientes que tinha era o suficiente e tinha como objetivo arranjar apenas uma cozinha onde pudesse produzir apenas as marmitas. "O projeto me ajudou a enxergar o meu negócio como uma empresa que tem tudo para expandir".

Risoto de shimeji com arroz negro é um dos pratos queridinhos dos clientes.

Apesar do pouco conhecimento com finanças, ela tem planos de contratar um motoqueiro para as entregas, criar pontos de vendas em lojas de produtos naturais e investir em um curso de Gestão de Negócios. Mesmo com a possível expansão, a empresária faz questão de continuar na cozinha. "Amo cozinhar, sou apaixonada por temperos e é isso que faz a diferença quando monto os cardápios e preparo os pratos. Sou detalhista na hora de montar as marmitas e meus clientes falam que elas são tão bonitas que ficam até dó de desmanchar!"

O conselho para os microempreendedores periféricos? Coragem para dar o primeiro passo e qualidade de produtos e serviços. "Acho que virei uma influenciadora, várias pessoas já vieram me pedir dicas para começar um negócio e eu me sinto muito honrada sabendo que minha história inspira outras pessoas. É na qualidade que mantemos a clientela, e um cliente satisfeito vai contar para a família e os amigos que ali pertinho dele tem uma pessoa que faz comidas maravilhosas, saudáveis, e que cabem no bolso de todo mundo".

Para saber mais: @levinhofit no Facebook/@Levinho.fit no Instagram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.