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Sou vegana pobre: estou mais saudável e gasto 50% menos no mercado

Flávia Martinelli

13/02/2019 05h00

(Foto: Arquivo pessoal) "Na hora da xepa, dá pra fazer a feira completa com apenas R$12", conta a vegana Martha Raquel

Com reportagem de Victória Durães, especial para o blog Mulherias

Há dois anos, a jornalista Martha Raquel Rodrigues (25) precisou parar de comer carne por causa de um problema no estômago. Era o empurrão que precisava para abolir do prato alimentos de origem animal. Martha ajuda engrossar a lista de 30 milhões de pessoas que não se alimentam de carne no Brasil. A pesquisa do Ibope Inteligência (2018) mostra que 14% da população não consomem proteína de origem animal, um aumento de 75% em comparação com a mesma pesquisa feita em 2012.

O hábito se estendeu para outras áreas da vida e, hoje, Martha é adepta do veganismo, ou seja: ela não só dispensa a carne na hora da refeição, como também abre mão de qualquer outro tipo de produto que tenha alguma ligação com os animais. "Não como absolutamente nada que derive de bichos, incluindo leite e ovos, e também não consumo produtos de marcas que fazem testes em animais ou usam alguma parte de um animal para compor seu produto", conta. "Me sinto bem seguindo meus ideais, estou mais saudável e gasto menos com alimentação. Antes de ser vegana, meu perrengue era maior. Preparar meus leites de arroz, pensar minhas refeições e não gastar com carne fizeram uma diferença gigantesca na minha vida – e no meu bolso."

A vegana Martha e seu escondidinho de R$10 que alimenta 4 pessoas

Por ideologia e/ou falta de grana o fato é que o estilo de vida pode, sim, representar uma economia significativa nas despesas com alimentação. Martha e uma grande parcela de veganos comprovam que para adotar ao estilo de vida não é preciso ser rico. "Só é caro ser vegano se você viver de industrializados. Além disso, arroz, feijão e salada são mais baratos que arroz, feijão, salada e carne", argumenta.

A estagiária de direito Luciene de Jesus (24) garante que seu gasto mensal com mercado foi reduzido em 50% ao abolir carne, ovos, leites e outros derivados da lista de compras. "Alguns meses antes de parar de comer animais, lembro de ter pago um pouco mais de R$400 na compra do mês. Como morava sozinha, comprava muitos congelados por ser prático de preparar", conta a moradora do Jaraguá, na grande São Paulo. Hoje, a estudante que ganha bolsa do Prouni conta que seu gasto com comida fica, em média, em R$150 mais o valor dos produtos de limpeza quando precisa repor. Faz diferença nas contas do mês.

Veganismo é coisa de playboy?

Não, se você é esperto e sabe que o melhor momento de ir à feira é na hora da xepa. É quando está tudo muito barato e fácil de negociar. Comprar em casas do Norte ou em lojas de produtos naturais que vendem a granel também é um bom truque para poupar. "Alimentos como feijões, grão de bico, lentilha, farinhas e aveia são mais baratos e fáceis de encontrar", diz Luciene.

Outra dica para economizar o dinheiro é fugir dos industrializados. Essa é a categoria de produtos veganos que costuma ser mais cara.  Martha conta que não tem o costume de consumir produtos embalados. "Se, ao ler a lista de ingredientes, eu não conheço ou não consigo pronunciar o nome, nem compro", conta. Antes do veganismo, a jornalista gastava, em média, R$600 com alimentação. Hoje, o valor das compras mensais não ultrapassa R$200.

Nutricionista, Cris Maymone defende a democratização das informações sobre comida

"A prática vegana não é elitista, mas a discussão sobre o tema é", pontua a nutricionista e vegana Cris Maymone. "Acredito que ainda precisamos alcançar mais pessoas. Além disso, o sistema está sempre pronto para lucrar. Ainda que o grão de bico seja mais barato que a carne, o hambúrguer de grão de bico recebe o status de 'gourmet'", explica a profissional que é professora temporária de escola pública e aluga um consultório para realizar consultas populares  de nutrição que têm como meta popularizar o veganismo, principalmente entre os mais pobres. Capão Redondo e Brasilândia são alguns dos locais atendidos por Cris.

Segundo uma pesquisa feita pela empresa Ginger Strategic Research, a estimativa é de que o mercado de produtos alimentícios vegetarianos cresça em média 40% ao ano. Para Luciene, este crescimento pode encontrar uma barreira na hora de atingir a população pobre. "Sinto que a onda de pensar nos animais, na própria saúde e no meio ambiente tende a aumentar muito na periferia, basta a população ter mais acesso à informação. Mas ao se deparar com um produto vendido como vegano a um valor muito mais alto que o tradicional, a pessoa vai entender que veganismo é pra quem tem dinheiro", acredita.

A nutricionista Cris defende que a discussão ainda precisa ser aprofundada. "Não é só uma questão conceitual, mas uma transformação de paradigmas. É preciso quebrar uma barreira de algo que é mais reconhecido e valorizado em determinado grupo social, e isso passa pela compreensão do que se entende por alimentação como um todo", diz.

Mas e o sabor?

Bolinho de batata à la quebrada

"Mas se não come carne, o que você come?" "Já passou no nutricionista?" "Mas nem peixe?". Se você é, ou conhece algum vegano, com certeza você e/ou ele já ouviram esses questionamentos. Mas a nutricionista defende que é perfeitamente possível ter uma alimentação equilibrada mesmo sem ter carne no prato. "Dá pra compor um cardápio com todos os nutrientes e vitaminas com coisas do dia a dia, como arroz, feijão, lentilha, milho, legumes, verduras e frutas. Não é necessário ter todas as vitaminas e nutrientes necessários por dia em uma única refeição. Esse equilíbrio deve estar presente na alimentação durante todo o dia, então é muito mais fácil do que parece".

Leite de arroz. Dá pra fazer em casa ao custo de R$1 por litro

As receitas veganas também não perdem em nada quando o assunto é sabor. É o que garante Luciene que, empolgada com as transformações causadas pelos novos hábitos, resolveu criar um perfil no Instagram chamado Sapa Vegana, onde se dedica a compartilhar receitas baratas para mostrar que é possível seguir o estilo de vida gastando pouco e comendo bem. Por lá, tem receita de pão de queijo, almôndega de lentilha e até leite de arroz, cujo litro, custa apenas R$1, enquanto no mercado, a caixa não sai por menos de R$17. Martha também coleciona receitas deliciosas, como a do escondidinho de batata e soja que custa apenas R$10 e alimenta até 4 pessoas.

Para Luciene, o único arrependimento que alguém pode ter depois que se torna vegano é não ter começado antes. "É muito possível viver sem que nenhuma outra vida tenha que sofrer. Se alguém ainda tiver dúvida sobre a economia, o que eu gastava comprando um fardo de leite, que custa em média R$20, é quase o que gasto em duas semanas de feira.

Receitinhas veganas que cabem no bolso:

Escondidinho de batata e soja

Ingredientes:
2 xícaras de proteína de soja texturizada
2 tomates
10 batatas
1 limão
alho, cebola, sal e azeite a gosto

Preparo:

Coloque a soja de molho por 12 horas na água com limão. Depois, lave duas ou três vezes e esprema toda a água. Frite o alho e a cebola no azeite e refogue a carne de soja. Acrescente o tomate, o sal, um pouquinho de água e mexa até virar um molhinho (mas sem ficar líquido, só molhadinho).
Cozinhe as batatas e amasse. Refogue o alho no azeite, acrescente as batatas, um copo da água de cozimento (pode ser mais, depende da textura que você quer para o purê) e finalize com o sal.
Numa assadeira, coloque uma camada de purê, uma de carne de soja e outra de purê ♥

Leite de arroz

Ingredientes:

1 xícara (de chá) de arroz integral
3 xícaras (de chá) de água para cozinhar
4 xícaras (de chá) de água filtrada

Preparo:

Em uma panela, coloque 1 xícara de arroz agulhinha, 3 xícaras de água e deixe cozinhar em fogo médio até ficar cozido, o que vai levar cerca de 13 minutos. Desligue, coloque no liquidificador juntamente com mais 4 xícaras de água filtrada. Pulse 5,6 ou 7 vezes (conforme o seu gosto) para liberar o amido do arroz pra água. Está pronto!

A receita rende 1L de leite e custa mais ou menos 0,50 centavos.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.