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Na periferia, jogadoras criam times que cultivam "as novas Martas"

Flávia Martinelli

27/02/2019 05h00

Uniforme do Perifeminas, time do extremo Sul de São Paulo

Com reportagem de Victória Durães, especial para o Blog MULHERIAS

A designer Nayara Perone (31), a empreendedora Sidineia Chagas (27) e a analista de sistemas Renata Pocaia (34) têm uma coisa em comum: todas criaram times para reunir mulheres apaixonadas por futebol nas periferias da cidade. Ansiosas para prestigiar a Copa do Mundo Feminina, que vai ocorrer em julho na França, elas ainda são pioneiras diante da enorme distância entre o status e o mercado do futebol masculino.

Conheça as histórias dessas três percursoras que, sem glamour ou patrocínios, criaram refúgios para mulheres expressarem abertamente a paixão pelo esporte mais amado do Brasil. No futuro, apostam, é de espaços assim que sairão as "novas Martas", referência à jogadora Marta Vieira da Silva, escolhida como melhor futebolista do mundo por seis vezes e recentemente apontada pela revista Forbes Brasil como uma das mulheres mais poderosas do país.

Nayara, a fazedora de pontes do JogaMiga

"Eu nunca tive base de futebol, jogava naquelas, só no intervalo da escola porque não tinha futebol na aula de Educação Física pras meninas", conta a designer Nayara Perone, aos 31 anos. "Sofri muito machismo e homofobia. Cheguei até a apanhar dos meninos", explica a ex-moradora do Jaçanã, na Zona Norte de São Paulo, que hoje mora com sua mulher na Zona Sul, no Jardim Monte Kemel. A paixão pelo esporte ficou confinada até seus 25 anos, quando a designer decidiu jogar num time feminino, em 2013. "Mas eram partidas de fim de semana, sem grandes pretensões além da pelada amadora. Eu queria mais compromisso."

Disposta a aprender mais sobre técnicas, passes, táticas de jogo e de entrosamento entre jogadoras, em 2017 Nayara fundou o JogaMiga, um time criado para ter aulas práticas regulares aos sábados, com técnicos profissionais e tudo. "Em todos os encontros temos de 30 a 40 minutos de técnica e depois rola o futebol entre a turma. Formamos os times, jogamos e o técnico às vezes pausa o jogo pra corrigir".  

JogaMiga começou como um time de futebol e hoje o projeto conta com três campeonatos, um mapa com times de futebol feminino espalhados pelo Brasil e seis turmas que treinam semanalmente. A zagueira Nayara Perone, uma das fundadoras do time, (quinta da segunda fileira), criou um ambiente acolhedor para as minas que gostam de jogar. (Foto: Divulgação)

O que ela não imaginava era o tamanho que o clube teria: em um ano, março de 2018, foi necessário abrir novas turmas para acolher as interessadas. Hoje, o projeto conta com 6 turmas de 25 a 30 mulheres, duas técnicas e um técnico em futebol e grupos que vestem a camisa do time nos bairros do Butantã, Tatuapé e Barra Funda. E mais: o JogaMiga virou referência nacional. O clube alimenta um mapa de times de futebol feminino que estão espalhados por todo o Brasil.

 "A plataforma surgiu do contato de várias meninas e mulheres que perguntavam no instagram do JogaMiga sobre times semelhantes em suas cidades", recorda. "Nós não conseguimos abraçar o mundo com as pernas, mas conseguimos fazer com que essas mulheres se encontrassem." Como ela já conhecia times de algumas cidades das jogadoras interessadas, o mapa online conecta os dois lados. JogaMiga já cadastrou 87 times equipes espalhadas por 19 Estados o Brasil. Entre eles, certamente, há jogadoras prontas para encarar o desafio de jogar futebol profissionalmente.
JogaMiga
Treino às terças-feiras, 20h30, e quintas-feiras, 21h, na Av. Celso Garcia, 3226 – Tatuapé (Próximo ao metrô Tatuapé)
Treino aos sábados, às 14h, 16h e 17h30  na Av. Nicolas Boer, 120 – Pompéia (próximo ao metrô Barra Funda)
Treino às quartas-feiras, 21h, Av. Corifeu de Azevedo Marques, 951 – Butantã (Próximo ao metrô Butantã)

Sidinéia e o futebol empoderado do Perifeminas

Todo sábado, na quadra da Escola Estadual Joaquim Álvares Cruz, no bairro da Barragem, no extremo Sul paulistano, a mais de 50 quilômetros do centro, mulheres de todas as idades vestem a camisa do Perifeminas e se reúnem para desafiar preconceitos. É o Perifeminas, time criado em 2016 pela microempreendedora Sidinéia Chagas, que também trabalha numa biblioteca com articulação, gestão, mobilização e mediação de leitura.

 A estudante de administração sempre jogou futebol nas ruas do bairro e chegou a participar de campeonatos e partidas na escola. "Mas sempre percebi que podia ocupar esses espaços até certo ponto", explica ao lembrar das disputas dos campinhos pelos garotos, que sempre se portavam como "donos" desse território.

Em 2017, o time conseguiu apoio de um edital na compra de uniformes, máquina fotográfica e bolas, além de visitas ao Museu do Futebol com as integrantes do time. O auxílio durou três meses, e o Perifeminas segue com a proposta de fazer dos encontros uma ferramenta de impacto social. Após os jogos, sempre surgem rodas de conversas sobre empoderamento feminino e direitos humanos. "Semana passada, conversamos sobre a proibição do futebol feminino na época da ditadura, é uma conversa aberta ao público então alguns homens acabam participando".

Sidinéia, primeira da segunda fileira, é zagueira do Perifeminas

Assista o lindo vídeo produzido pela equipe do portal Periferia em Movimento, coletivo de comunicação de jornalistas do Extremo Sul de São Paulo, e emocione-se com as histórias do Perifeminas:

Perifeminas
Treino aos sábados, 14h às 16h30, na Escola Estadual Joaquim Álvares Cruz 
Local: Rua Dois, 2 – Barragem
Valor: gratuito

Renata, Viracopos e o "fut" do fim de semana cas migas

Quando o Viracopos Futebol Feminino foi fundado por Renata Pocaia, em 2015, a intenção era apenas curtir um "fut" com churrasco e brejas depois do bate-bola. Mas a iniciativa está de pé até hoje e só cresce. O Viracopos treina em uma quadra na Vila Matilde e o custo mensal do espaço é dividido pelas jogadoras. "Nós temos as participantes mensais e as avulsas. As mensais ajudam a pagar a quadra, já as avulsas são as que vem de vez em quando ou chegam por indicação e pelas redes sociais", explica a analista de sistemas de 34 anos.

O dinheiro arrecadado serve para pagar o aluguel, comprar materiais para o treino, como bolas, coletes e cones, fazer uma mini farmácia, caso alguém se machuque nos jogos e comprar bolo para as aniversariantes do mês. O time tem 20 jogadoras entre 20 e 40 anos, e hoje Renata conta com o auxílio de Camila Silvino e Francini Oliveira para administrar o grupo. A equipe treina sem técnicos, afinal a ideia é o futebol relaxante do fim de semana para encontrar as amigas.

Zagueira e fundadora do time, Renata (primeira à esq. da segunda fileira) com o time fixo do ViraCopos Futebol Feminino (Divulgação)

Mesmo assim, o time participa de festivais e campeonatos e possui 10 troféus na conta. "O momento mais marcante desses anos de Viracopos foi quando fizemos o nosso próprio Festival, em 2017, e ganhamos o troféu do nosso próprio festival", conta Renata. "Ver o reconhecimento de outros times, agradecendo pela qualidade do Festival, não tem preço, sabe? Jamais imaginei fazer um Festival de Futebol Feminino e esse retorno foi muito emocionante".
Viracopos Futebol Feminino
Treinos aos sábados, das 15h30 às 17h30
Local: Rua Otilia, 835 – Vila Matilde (próximo ao metrô)
Valor: R$ 30 (mensal) | R$ 10 (avulso)

Do picadeiro ao campo

Futebol feminino tem muito menos visibilidade que o masculino no Brasil. Mas o cenário já foi bem pior. "A prática do esporte começou nos picadeiros de circo", diz a historiadora Aira Bonfim. "Quando as atrizes vestiam as camisas dos times locais, se aproveitavam da imagem dos clubes e chamavam mais espectadores para o circo, tornando-se um entretenimento para aquelas pessoas e não um esporte, como era o caso do futebol masculino", explica a especialista, que dedica seu mestrado na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro às experiências entre o futebol e as mulheres nas primeiras décadas do século 20.

Aira conta que o bate-bola da mulherada ganhou os campos suburbanos do Rio de Janeiro entre 1939 e 1940. "Enquanto elas estavam nos campinhos de várzea, a iniciativa parecia tolerada; o que não impediu críticas dos homens da época. No entanto, a atenção maior aconteceu quando duas dessas equipes, o SC Brasileiro e o Casino Realengo, foram convidadas para fazer a preliminar da partida entre Flamengo e São Paulo no estádio do Pacaembu em maio de 1940, durante o segundo jogo inaugural do estádio paulista". Foi um escândalo.

Equipe francesa de futebol feminino Fémina Sport no início do século XX (Acervo Museu do Futebol)

Um ano depois, o presidente Getúlio Vargas formalizou o decreto 3199 que definia os esportes adequados à "natureza feminina". A lei afastou as mulheres do esporte, e foi utilizada mais uma vez durante a Ditadura Militar, em 1965, permanecendo em vigor até 1979. Mesmo com a lei revogada, a regulamentação do futebol feminino aconteceu apenas em 1983. Fica a questão: quantas desistiram por achar que o esporte era coisa de menino?

Ainda que hoje a jogadora Marta seja símbolo do sucesso do futebol feminino – ela foi apontada como uma das mulheres mais poderosas do país – a busca por reconhecimento e visibilidade permanece. A oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, a ser realizada entre junho e julho na França, vai ocorrer exatamente na mesma época que a Copa América masculina. "É uma infelicidade imaginar que teremos dois campeonatos simultâneos, competindo por audiência e espaços de divulgação e transmissão", comenta Aira, que foi pesquisadora do Museu do Futebol, e será uma das curadoras da próxima exposição da instituição sobre futebol e mulheres, prevista para maio.

E mais um episódio que ilustra como a modalidade feminina do esporte mais popular do Brasil (e muitos lugares do mundo) é visto como menos importante por órgãos importantes como a FIFA (Federação Internacional de Futebol) e CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Avante, meninas!

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.