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Yoga na laje: mulheres do Capão Redondo mostram a prática sem gourmetização

Flávia Martinelli

26/04/2019 04h00

Quem disse que a prática de origem indiana é coisa para ricos ou pessoas "iluminadas"? Na quebrada da Vila Fundão, grupo de mulheres de 12 a 60 anos se encantou pelas técnicas que colocam o corpo em movimento e ainda estimulam o autocuidado, o equilíbrio e a consciência. (Foto: Divulgação Yoga na Laje)

Com reportagem de Monise Cardoso, especial para o blog MULHERIAS 

Bastam duas ferramentas para fazer Yoga: corpo e mente. Ainda assim, a atividade foi atingida pelo "raio gourmetizador" e faz muita gente acreditar que a prática indiana milenar é coisa de rico. Mentira. A moeda que mais coloca essa democracia em risco entre as mulheres da periferia é outra: o tempo. Via de regra, a rotina de horas perdidas na condução para o trabalho e o cuidado da casa e dos filhos consome os preciosos momentos que elas teriam para si.

Desde agosto do ano passado, porém, um projeto na Vila Fundão, distrito do bairro do Capão Redondo, no extremo Sul de em São Paulo, busca enfrentar esse desafio. Todos os finais de semana, o Treino na Laje reúne cerca de 30 mulheres que decidiram olhar para si e praticar as técnicas do Yoga na laje da ONG Perifa Ativa. A atividade é gratuita e conta com apoio da professora Sophia Bisilliat, de 56 anos, que começou a dar aulas de exercícios funcionais e, aos poucos, passou a introduzir o conhecimento ancestral e popular da Índia. 

"A Yoga tem como fundamento evocar o equilíbrio e a consciência, estimula princípios de autocuidado, além de botar o corpo em movimento", diz Sophia. São benefícios que valem para todos, não é mesmo? "As alunas acabaram dando um jeito de aquele momento ser delas. Deixam o filho com marido, com a mãe, o vizinho. E é incrível, porque elas ficam se sentindo, até se maquiam pra fazer o treino", conta.

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E haja disposição! O treino tem duração de três horas e inclui um circuito completo de atividades. O primeiro exercício é sempre uma caminhada pelo bairro. A prática reunia apenas mulheres, mas logo chamou a atenção de algumas crianças que passaram a acompanhar a caminhada de bike. "Hoje tem uma galera que vai de bicicleta para o treino, inclusive, já conseguimos a doação de mais de 30 bikes, além de vários mecânicos parceiros", conta Sophia.

Quem faz as atividades elogia. A vendedora Diolanda da Rocha Lopes, de 32 anos, garante que realmente funciona. "Agora eu respiro bem fundo antes de gritar com meu marido ou meus filhos", ri. Ela foi a primeira aluna do Treino na Laje e aproveitou sua popularidade na quebrada para aumentar o número de alunas. "Saí fazendo boca a boca na rua, conversando com uma e outra e daí surgiram as 30 interessadas. Temos até um grupo de WhatsApp", diz.

Passados oito meses de prática, a vendedora Diolanda conta que sentiu a melhora nas dores causadas pela musculação, único exercício que costumava praticar. "Nós não tínhamos noção do que era Yoga, eu mesma acreditava que fosse só meditar." Foto: Acervo Pessoal

Respira, expira

A funcionária pública Sandra Silva, de 45 anos, encontra no Yoga o amparo para lidar com o luto que enfrenta após o recente falecimento de sua mãe. "Além do bem-estar físico, me sinto bem emocionalmente. Os exercícios me trazem equilíbrio para refletir", desabafa. Presente nas aulas há quatro meses, ela também é praticante de corrida e comemora quando o final de semana vai se aproximando.

"Tem sido um ponto de equilíbrio. Alongar e refletir, exercitar a empatia e a compaixão e aprender a retroceder para avançar", pontua a aluna Sandra. Foto: Acervo Pessoal

Para a vendedora Claudia Regina Soares, de 41 anos, a prática também teve interferência direta no dia a dia. "Além de aprender a respirar melhor, aprendi a manter uma postura legal, ponto muito importante porque eu trabalho em pé o dia todo e morria de dores na coluna", comemora.

Além dos exercícios, Sophia sempre leva oficinas diferentes para as moradoras do extremo sul: horta, comida orgânica e stylist são algumas das que já rolaram por lá, sempre com a colaboração de parceiras e parceiros das áreas. Há sete meses na aula, Claudia conta que vem mudando os hábitos alimentares graças às rodas de conversa que acontecem ao final dos encontros.

Assista o vídeo que acompanha Sophia na Vila Fundão:
(Direção de Fábio Brandão e produção de Renata Veneri)

A influência positiva também vem do exemplo da própria professora. Para chegar ao Capão Redondo, Sophia faz uma viagem de bicicleta de mais de uma hora que começa na Pompéia, bairro na Zona Oeste da cidade. A disposição da professora inspira a assistente administrativa Daniela Silva, de 35 anos, que todo o sábado sai do município de Embu das Artes e encara mais de 1h20 de transporte público até o Capão.

Daniela descobriu o Yoga depois de ter suas atividades físicas limitadas por uma fratura no pé. "Eu nunca tive a menor curiosidade, fui na aula a convite de amigas. Hoje vejo como uma terapia, parece que ficou mais fácil lidar com os problemas. E me sinto tranquila com as meninas", explica. Após aprender a arte de respirar, ela também se livrou das crises de enxaqueca que eram frequentes. Foto: Acervo Pessoal

Os feedbacks de mais disposição, mais autoestima, mais vontade de se olhar no espelho, de se cuidar, melhora na saúde e nas relações com a família são comuns para a Sophia. Mas ela, que também é bailarina, conta que o maior ganho do projeto é a relação com as alunas. "O Treino na Laje só existe por causa delas, do contrário nada disso aqui aconteceria. Fico feliz e agradecida por poder cuidar dessas mulheres e testemunhar tantas transformações."

Inspiração: a professora vai de bike da Zona Oeste até o extremo Sul para dar as aulas. Foto: Acervo Pessoal

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.