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Mulheres rastafari modernas mostram estilo de vida muito além dos dreads

Flávia Martinelli

08/08/2019 04h00

Tatiana Gomez, Mariana Borges e Natali Alencar em roda de conversa sobre a cultura rastafari em uma escola em Ubatuba

Com reportagem de Renata Leite, especial para o blog MULHERIAS

O movimento rastafari vai muito além dos cabelos com dreadlocks, do ritmo reggae e do uso da maconha. Trata-se de uma cultura de resistência, liberdade e identidade africana que nasceu nas favelas da Jamaica na década de 1930 para combater a discriminação de raças e de classes sociais. Ganhou força a partir do pan-africanismo, movimento que tratava do resgate e valorização do povo africano vivendo em situações de opressão após período de colonização e escravidão.

Não por acaso, um grupo de mulheres que segue os fundamentos desta verdadeira filosofia de vida se reuniu para fazer o documentário "Mulher Rastafari, quem a achará?". Dirigido por Mariana Borges, Natali Alencar e Tatiana Gomez, o filme conta com personagens de vários grupos pelo Brasil, provoca e questiona o modelo do que é ser mulher dentro da cultura rasta. De acordo com elas, há uma idealização da figura feminina perfeita e impecável. Mas a nova geração tem colocado em discussão esses códigos de conduta.

Porém, antes de questionar a atualidade, vale recuperar as raízes do movimento rastafari. A filosofia rasta teve como porta-voz o comunicador, empresário e ativista jamaicano Marcus Mosiah Garvey. Em 1920, ele se tornou um verdadeiro líder religioso após pregar a vinda de um Deus Negro ou Messias, a quem iria libertar o povo africano e seria como espelho de força e nacionalismo negro.

Uma década depois, na Etiópia, a coroação como reis do imperador Ras Tafari Makonnem (renomeado Haile Selassie) e a imperatriz Menen Asfaw foi interpretada como realização dessa profecia. Selassie foi coroado como descendente do rei Davi, que teria nascido por volta de mil anos antes de Cristo, foi o segundo rei de Israel em Jerusalém e criou um sistema repartição de terras mais justo que divisões tribais. Foi ele quem, biblicamente, venceu o gigante Golias ao cegá-lo com pedras de um estilingue. A profecia dentro da cultura rastafari previa o retorno de um neto de Davi, filho de Salomão com a rainha de Sabá, governante da Etiópia. 

Coração do rei RasTafari Makonnen com a rainha Menen Asfaw

Coração do rei RasTafari Makonnen com a rainha Menen Asfaw (Foto: Reprodução/Facebook)

O reinado do século 20 foi tomado pelo povo e pela Igreja Ortodoxa Etíope como exemplo de vida e igualdade. A rainha Menen se tornou uma fonte de inspiração para as mulheres da cultura e foi ela quem ficou à frente de todas as tarefas e responsabilidades quando o rei  foi para a guerra em 1928 contra nações colonialistas.

No Brasil, a cultura rastafari ganhou adeptos depois da década de 1960 e estourou nos anos 80 com o reggae e o apelo estético dos dreadlocks que rompiam padrões mas também convidavam os adeptos à reconexão com sua negritude e energias que, segundo a tradição, ligava os cabelos ao elemento terra. Para as mulheres do movimento, no entanto, as tradições mais ortodoxas não eram tão simples.

Segundo os aspectos religiosos do movimento, além da postura discreta ao frequentar os encontros, a mulher deveria ser a responsável por cuidar da educação das crianças e da casa e não poderia usar calças, somente saias. Os cabelos, de preferência cobertos, seriam vistos como fonte de energia sagrada; uma espécie de coroa. Em suas origens, o movimento rastafari pregou que o período de menstruação era um tempo da mulher se manter em repouso e longe das atividades fora do lar. Nesse período, ela não podia tocar o tambor nos encontros. Conheça mais sobre a cultura e as mulheres que estão ressignificando os conceitos para a atualidade.

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"Nossas referências eram de igualdade, mas isso não estava acontecendo em nossas casas"
Tatiana Gomez, 38 anos, psicóloga

A psicóloga, educadora e mulher rasta conta que o pontapé para os primeiros contatos e vivência com o movimento rastafari foi dado em 2007, na comunidade de Menelik, localizada em Jarinu, cidade onde mora atualmente, no interior de São Paulo. Ela passou a participar de um programa de rádio sobre a cultura, o " Já Regou Suas Plantas" e por meio dele conheceu outras mulheres rastafari, como Natali Alencar e Mariana Borges, que juntas fizeram o documentário "Mulher Rastafari, quem a achará?".

Além da convivência na rádio, elas passaram a dividir também as suas experiências e conflitos na vida da mulher rastafari, principalmente as coisas vividas dentro de suas casas. "Passamos a compartilhar as coisas que aconteciam no nosso cotidiano, em termos de relacionamento. Aí começamos a entender que muitas mulheres  passavam por situações de violência e situações de constrangimento no casamento e nem se davam conta, sofriam caladas", comenta Tatiana, que no filme aborda a questão da infidelidade e o machismo.

Com suas amigas, surgiu em 2016 o Coletivo Kandakes Kush para ajudar a levantar além de si as outras mulheres. "É um espaço de troca que auxilia nosso processo de amadurecimento e fortalecimento como gênero feminino. A cultura rasta em si não é machista. As nossas referências, baseadas no comportamento do rei Selassie e da rainha Menen, trazem exemplos de igualdade. Mas, ao mesmo tempo, dentro das nossas próprias casas isso não acontecia e aí a gente começou a pensar", afirma Tatiana. O núcleo não é fechado só para mulheres. Os homens rasta também participam para entender o seu papel e, também, compartilhar suas experiências.

 

"Hoje entendo que ser mulher é sagrado"
Mariana Borges, 33 anos, doula

Mariana Borges (Foto: acervo pessoal)

Mariana Borges (Foto: acervo pessoal)

Trilhando novos rumos em busca de sua ancestralidade e espiritualidade, a doula Mariana Borges, por meio da cultura rasta, não só descobriu sua identidade mas percebeu o quanto é importante valorizar a sua conexão com o que chama de o sagrado feminino. "Ser uma mulher rastafari pra mim foi um processo de autoconhecimento, passei a entender sobre os meus ciclos femininos. Antes desse contato, pra mim, aceitar ser mulher era muito difícil, um sofrimento mensal enfrentar as dores que envolvem o ciclo da menstruação, da objetificação do nosso corpo e violências que a mulher sofre em diversos âmbitos da vida. A cultura rasta me pacificou", explica Mariana. Hoje, ela carrega com a profissão de doula alguns princípios ligados ao movimento; como a visão da mulher enquanto um ser sagrado por ser a principal fonte geradora da vida.

 

"Sempre fui a única negra na escola e na universidade. Ser rasta me fez me descobrir negra"
Carol Afreekana, 34 anos, pedagoga, poeta e cantora

Após passar por um momento de busca pessoal, a jovem formada em Letras, pedagogia e poetisa conheceu a cultura rastafari pelo reggae. Dentro da filosofia, estudou questões ligadas à sua ancestralidade e ao resgate de si enquanto mulher negra. Carol Afreekana havia sido batizada como Caroline Cordeiro pelos pais adotivos, de classe média alta e foi criada na religião cristã tradicional antes de reconhecer rastafari. "Sempre fui a única negra na escola particular,  na universidade, sofri essa segregação, o racismo mesmo. Só que eu não conseguia enxergar o que vivia como racismo. Só entendi quando me descobrir mulher preta", comenta.

Ela abraçou a cultura rastafari como forma de homenagear as suas origens e aderiu ao sobrenome Afreekana. Desde então, insere traços característicos ligados à vida rastafari no seu dia a dia. "Busquei o amor na minha vida e em muitas religiões mas só na cultura rastafari eu consegui encontrar essa forma de amor e essa forma africana que eu escolhi ser. O reconhecimento e renascimento da Carol mulher preta, pan-africanista e rastafari me fortalece", explica Caroline.

Carolina Cordeiro (Foto: acervo pessoal)

Caroline Cordeiro (Foto: acervo pessoal)

A pedagoga participa há 17 anos de um ritual da ordem (grupo) Nyahbinghi. A celebração é feita em noite de Lua cheia com tambores que imitam as batidas do coração e ela mantém olhos fechados enquanto entoa cânticos e louvores. Sobre a maconha usada em rituais como essa ela declara: "tudo é lícito mas nem tudo me convém. O álcool é lícito mas por alguns momentos ele não me convém, o cigarro idem, não me convém, e assim por diante", exemplifica.

Carol é poeta e integrante no Dawtas Of Aya grupo de música reggae, manifestação e resistência formado por outras duas mulheres negras. O trio de irmãs retrata nas canções a luta do povo negro que, mesmo com a abolição da escravidão ainda sofre e passa por situações de opressão, seja ela racial ou social, questões manifestadas desde o início do movimento rastafari.

Além de cantar, ela mantém o blog Mundo Africano e a página Carol Afreekana no Facebook com a função de informar e divulgar conhecimento, seja por meio de vídeos-poesia e estudos sobre chás e ervas da medicina alternativa.

 

A cultura rasta em três pontos fundamentais
-A cannabis ou maconha pode ser usada para fins medicinais, recreativos e em rituais religiosos. De acordo com os adeptos, ajuda a aumentar o grau de sensibilidade espiritual. Nesses casos, a erva deve ser consagrada e não utilizada para entorpecer.

-Segundo a cultura rasta, a música reggae não só é uma forma expressar sentimentos. A letras são registros da história de luta e sofrimento do povo negro. Também servem para criticar o sistema econômico como o padrão capitalista do mundo ocidental. Algumas contêm mensagens de elevação espiritual.

-Para os rastafaris, os dreadlocks fazem jus à imagem e semelhança das coroas usadas pelo rei Haile Selassie e a rainha Menen. O movimento entende que o cabelo é símbolo de uma carga ancestral que traz as vivências dos indivíduos, a energia que eles emanam e, até mesmo, sua energia sagrada. A cabeça é interpretada como um órgão em posição superior.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.