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Atriz da série "Sintonia" conta que toda mulher periférica é feminista

Flávia Martinelli

04/09/2019 04h00

Rosana Maris como Jussara da série Sintonia, e Christian Malheiros como Nando (Foto: Divulgação)

Por Larissa Santiago, especial para o blog MULHERIAS

A atriz e produtora Rosana Maris, de 39 anos, dá vida à Jussara, mãe e mulher periférica da nova série brasileira da Netflix "Sintonia".  A personagem, ainda que barraqueira e agressiva, também mostra a força feminina da periferia. "Apesar de não ter a compreensão do que é o feminismo, ela simplesmente é essa mulher que trabalha, banca a casa, a vida, vai pra frente. E, do jeito dela, quer participar, transformar aquele lugar, buscar a dignidade, cuidar". Como uma leoa, Jussara não poupa esforços para fazer com que a filha, Cacau (Danielle Olímpia), não faça as mesmas escolhas que ela.

"Embora exista de fato muitas mulheres que não se identificam com as pautas feministas diretamente por vários motivos, acho que existe uma essência, uma semente do feminismo nessas mulheres, mesmo inconsciente, que se mostra em algo mais prático. É aquele feminismo de sobrevivência mesmo, não o da discussão sobre o significado, sabe? Dou esse nome, mas cada mulher pode chamar do que quiser; ser forte, ser guerreira etc", explica a atriz.

Pega a visão

Rosana explica que o primeiro passo na formação da personagem foi trazer um olhar mais leve do público a ela. "Quando eu li a primeira vez sobre a Jussara, ela foi mudando um pouco, mas eu pensei em como poderia humanizar essa mulher ao máximo, porque eu acho que ela é a representação fiel, assim, muito forte, da mulher que a gente encontra na periferia, que cria filho sozinho, que para sobreviver naquele lugar tem que se vestir de uma força que talvez nem ela saiba que ela tenha, se é natural dela ou se ela cria, porque ela não tem ajuda nem do Estado e nem de lá de dentro." Em uma das cenas mais polêmicas da série, Jussara dá uma surra em uma das amigas de sua filha, Rita (Bruna Mascarenhas) e a acusa de ser a dona da maconha que fez a garota parar na cadeia.

Jussara: "Para sobreviver, ela teve que se vestir de uma força que talvez nem ela saiba que tenha", dia a atriz Rosana (Foto: Divulgação)

O teatro como forma de vida

A atriz, que nasceu no bairro da Penha quando ainda um local periférico, explica que sua relação com a arte, principalmente com os espetáculos, vem da infância. A escola pública teve um papel fundamental em sua relação com as artes. No entanto, a família não pôde incentivá-la com cursos – ela é quem batalhou e estudou para ter acesso.

Filha de uma dona de casa e pai pedreiro, a primeira vez que foi ao teatro tinha onze anos. "Fiquei apaixonada, mas na época, os cursos eram muito caros, então esperei um tempo para poder trabalhar, aos 18 anos, e bancar meus estudos. Nesse meio tempo assistia a muita coisa, fui ler muita coisa na biblioteca da escola, que também era incrível, tinha Shakespeare, por exemplo, autor que li antes de ir para a escola de teatro, nem sei se entendia muito bem", conta a atriz, que reconhece que o caminho em cima dos palcos não é tão glamouroso como na TV ou cinema.

"O teatro não é um ambiente que você é chamada para fazer muitas coisas durante a vida toda. Ou você mesma se produz um pouco, ou vira alguém que as pessoas querem produzir, mas esse é um caminho infinito, imenso e dificílimo", afirma. Rosana conta ter produzido peças infantis, fechado parcerias para contação de histórias e montado por conta própria um texto do dramaturgo americano Tennessee Williams, "O anjo de pedra" (1948), que já foi peça encenada no Brasil pelas companhias de teatro de Cacilda Becker e Nathalia Timberg.

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Teatro negro e periférico

A propósito de "O Anjo de Pedra", em que atuava como a protagonista, Rosana afirma que viveu uma experiência curiosa. "As pessoas questionaram um pouco o fato de eu fazer esse personagem, porque é um texto americano, foi interpretado por grandes divas, e eu, uma uma mulher negra, né, enfim… A questão a gente resolveu, misturamos o pessoal branco e negro", explica.

Na peça "O Anjo de Pedra", texto de Tennessee Williams, um dos dramaturgos mais cultuados do teatro universal (1911-1983) (Foto: Divulgação)

"A minha percepção de mulher negra veio adulta, por volta dos vinte e poucos anos, porque não tinha essa discussão. E aí, quando você pensa em audiovisual e TV é que você começa a sacar muito nitidamente que você não é branca, que você não serve para aquilo, que te encaixam em papéis", afirma.

Rosana reconhece que a arte, aqui em São Paulo (SP), ainda é algo muito elitizado e que, infelizmente, muitos jovens periféricos não podem frequentar esses espaços, mas que existe um movimento muito forte nas quebradas, de grupos independentes. "Eu acho que o teatro chega e transforma, ele é muito importante. O edital VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) e todos os outros programas de incentivo à cultura foram extremamente importantes."

Caminho da cultura no atual governo

Para Rosana, o descaso com a cultura brasileira se traduz em retrocesso de transformação de diversos ambientes, além de deixar o cenário para os artistas com um enorme ponto de interrogação.

"A cultura sempre foi um lugar que a gente teve que batalhar para colocar um pouco mais de grana, isso aconteceu sempre. Mas a gente estava caminhando e construindo, indo pra frente. O cinema, então, se organizou pra caramba, a capacidade que a gente tem e teve recentemente nos últimos anos de levar coisas pra fora, de produzir coisas aqui, de trazer todo mundo pra trabalhar aqui foi incrível", reflete. "Isso deixa a gente desesperada, porque não é só no sentido de você empregar muita gente, mas é nesse sentido de você não deixar que a gente continue evoluindo como País, como cidadão, como ser humano", afirmou a atriz.

Rosana reflete ainda sobre o papel da arte como transformação e educação, ressaltando, por fim, a importância de políticas públicas para que projetos e iniciativas se mantenham. "Acho que a gente tem que ver com bastante atenção, com um olhar muito, muito profundo mesmo, principalmente ano que vem que a gente tem novas eleições. E aí, a gente mexe nos municípios. Hoje são eles que mais têm investido em cultura, quase nada tem vindo do governo federal e dos governos estaduais, então a gente precisa estar muito atenta", conclui.

Além da série "Sintonia", em 2019 ainda será possível ver a atriz nos longas "Hebe", que estreia dia 26 de setembro, e "Dez horas para o Natal". Abaixo, o trailler da série "Sintonia".

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.