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Rolê literário mostra por que mercado de livros cresce na periferia de SP

Flávia Martinelli

20/09/2019 04h00

Feira Literária da Zona Sul é um dos grandes eventos responsáveis por movimentar o mercado alternativo de produção editorial (Foto: Divulgação)

Feira Literária da zona sul é um dos grandes eventos responsáveis por movimentar o crescente mercado alternativo de produção editorial (Foto: Divulgação)

 

Por Monise Cardoso e Patrícia Sodré, especial para o blog MULHERIAS

Enquanto livrarias e editorias sofrem com uma crise de baixar portas de gigantes do setor, a literatura marginal se fortalece cada vez mais. O segredo? Retroalimentação. É na periferia que os autores desse estilo nascem e é na periferia que eles encontram leitores interessados e dispostos a valorizar suas obras.

A Feira Literária da Zona Sul (FELIZS), que nasceu em 2015 justamente para unir e fortalecer essa relação entre escritores e consumidores, chega à sua quinta edição mostrando que o movimento é cada mais crescente. Só no ano passado, o evento reuniu 8.000 pessoas durante os 12 dias de evento. No próximo sábado, na Praça do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, pertinho do terminal de ônibus de mesmo nome, é a chance para apreciar de perto esse fenômeno na festa de finalização de outros 13 dias de atividades na pungente cena literária periférica de São Paulo.

Suzi Soares, produtora executiva da FELIZS, atribui o fechamento das grandes redes de livrarias à ganância sobre os lucros – é de praxe que os autores fiquem com apenas 10% do valor das vendas dos livros – e à concorrência que sites como a Amazon oferecem.

Por outro lado, para Suzi, o mercado de literatura marginal cresce porque opera numa lógica diferente da do mercado tradicional. Antes do lucro, vem a relação com o público. "No cenário da produção periférica o livro físico acaba sendo a última coisa. Antes disso, os autores divulgam na internet, em blogs, em redes sociais, eles participam de saraus. A impressão é a última coisa", explica.

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Suzi, produtora executiva da FELIZS; no próximo sábado, vale a pena ir à Praça do Campo Limpo conferir de perto (Foto: Reprodução/Facebook)

A Feira Literária da Zona Sul nasceu do projeto Sarau do Binho, evento que há mais de 15 anos reúne poetas e artistas das mais diversas vertentes no bairro do Campo Limpo. Além da FELIZS, o sarau também virou uma espécie de selo que facilita o caminho para o autor, pagando a revisão, diagramação, arte da capa e impressão do livro. "Depois disso, o autor vende o livre de mão em mão em saraus, escolas e na rua. Já publicamos 14 livros desde 2017, quando o selo começou", explica Suzi.

Edição 2019 traz homenagem à encantadora poeta Tula Pilar e ao poeta Pezão

Este ano, a feira vem acontecendo desde 8 de setembro, com até quatro atividades distintas por dia em escolas, teatros e no Sesc Campo Limpo, e prestou homenagem a dois grandes poetas da periferia: Tula Pilar e Marco Pezão.

Tula Pilar nasceu em 1970 e morreu em 11 de abril deste ano. Mineira de Leopoldina, foi empregada doméstica, mas ousou lutar por seu sonho de viver da literatura. Poeta, atriz, vendedora da revista Ocas, mãe de Samantha, Pedro e Dandara, publicou "Palavras Inacadêmicas", "Sensualidade de Fino Trato"(2017), além de figurar em diversas antologias, como "Pretextos de Mulheres Negras"(2013) e "Cartas Íntimas" (2019). Personagem inesquecível e "pilar" de diferentes saraus da periferia, tem livro lançado para a FELIZS e um copo de cachaça com os dizeres "Para Sempre 29", que está sendo vendido em sua memória. Irreverente, Tula sempre dizia ter 29 anos. Assista o vídeo sobre sua trajetória inspiradora:

Marco Antonio Iadocicco ganhou o apelido Pezão no futebol de várzea. Poeta, dramaturgo, jornalista, é um dos fundadores do Sarau da Cooperifa e do sarau A Plenos Pulmões, da Casa das Rosas, que fica na Avenida Paulista. Criou e movimenta o espaço cultural " I Love Laje". Publicou "Nóis é ponte e atravessa qualquer rio" (2013), "Pés no Chão" (2015) e escreveu as peças "É dinheiro que você quer" (2016) e "Nasce um Sarau" (2018). Figura de extrema importância para a literatura!

A FELIZS vai até o dia 21, próximo sábado, num evento com diversas atividades simultâneas na Praça do Campo Limpo. Quem passar por lá, vai aproveitar um dia inteiro de atividades incríveis pensadas para adultos e crianças. Oficinas de grafite e fanzines, roda de conversa com as escritoras Mia Couto e Ana Maria Gonçalves, apresentação de teatro, dança e música, além de contação de histórias indígenas infantis, espaço gastronômico e venda de livros.

O encerramento do evento, às 21h30, contará com show de André Abujamra. Mas chegue antes, confira as centenas de livros e editoras independentes que estão inovando em formatos e narrativas. Vai dar para entender, sim, porque a leitura cresce cada vez mais nas margens da cidade. 

 

21 DE SETEMBRO – PRAÇA DO CAMPO LIMPO
(ao lado do terminal de ônibus de mesmo nome)

PALCO PRINCIPAL
11h – Abertura: Cortejo Musical Percussivo – Grupo Flor de Lis e Candearte
12h – Apresentação Dança – Cia Fankama Obi
13h – Apresentação Musical – Cia Deodara
17h – Apresentação Musical – Camarada Ernesto
18h30 – Sarau
19h30 Apresentação Musical – Banda Preto Soul
21h30 – Encerramento V FELIZS – Show de André Abujamra

PRAÇA
12h30 – Música – Coral Guarani Tenondê Porã
11h às 14h – Mediação de Leitura – Praia Literária
16h30 às 17h – Intervenção – Feng Huang /Dragão Chinês
17h – Apresentação teatral – "O Concerto da Lona Preta", da Trupe Lona Preta

TENDA DAS CRIANÇAS
13h – Contação de História indígena, com Ciça Veiga e Caiçaró
14h – Pintura Facial Afro- Mara Mbhali
16h – Oficina de Brincadeiras corporais infantis, com Roquinho – Participação da Coletiva Brincantes Urbanas e Aqui que a gente brinca

CONVERSA LITERÁRIA
14h às 16h30 – Conversa Literária "A Literatura como instrumento de mudança no mundo"
Com Mia Couto, Ana Maria Gonçalves e mediação de Maitê Freitas
*Atividade com Intérprete de Libras

OFICINAS
11h30 – Oficina Fabricando Instrumentos Musicais, com Marlon Cruz
13h – Oficina de Máscaras com recicláveis, com Uberê Guelé e Cleydson Catarina do Teatro Terreiro Encantado
15h – Oficina de Fanzine, com Roger Beats
16h30 – Oficina de Grafite, com Mariana Salomão

Clique aqui para para saber quais editoras estarão na Tenda de Livros, além das barracas de artesanato e gastronomia.

INTERVENÇÕES

Brincadeiras, com Bruno Coqueiro
Leitura Surpresa, com Tati Candeia
Bicicloteca, com Isabela Mohana
Homopoéticus, com Marco Miranda
Palhaçaria e perna de pau, com André Schulle
Graffiti, com Beto Silva, Nave Mãe, Nino, Guilherme dos Santos e Thiago Calle
Malabares e palhaçaria, com Jean Rocha
Omi do pão, com Uberê Guelê
Lixossauro com Demétrius Sorgon
Poetarô, com Jonas Worcman
Estátua viva, com Serginho Poeta
Vivência com Coletiva Tear e Poesia
Cabocla de Lança Estandartes Poéticos, com Queila Rodrigues
Tenda da Pilar, com Pedro Lucas e Dandara – Curadoria de Gilmarie Oliveira

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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