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Angela Davis visita Preta Ferreira: "Quero saber como posso ajudar"

Flávia Martinelli

21/10/2019 13h35

A filósofa Angela Davis visitou, neste domingo (20), a casa da cantora Preta Ferreira e da coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), Carmen Silva, em São Paulo. Ao chegar à residência, Davis anunciou: "Vim com uma questão: quero saber como posso ajudar". No dia anterior, ela já havia mencionado a injustiça sofrida pelas ativistas nos últimos meses durante palestra em evento no Sesc-SP.

As três mulheres vão se encontrar novamente hoje (21), às 17h, na plateia externa do Auditório do Ibirapuera, que tem capacidade para reunir mais de 15 mil pessoas. Às 19hs, Angela realiza uma fala pública na conferência "A Liberdade É uma Luta Constante", atividade gratuita que integra uma série de eventos do lançamento do livro "Uma Autobiografia", realizados pela Boitempo (editora que publica Angela Davis no país), em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo.

Leia mais:
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Mulheres negras são raivosas e isso é bom, diz Angela Davis em São Paulo

Angela se engajou na luta por moradia do MSTC e se posiciona contra o encarceramento em massa. Desde junho de 2019,  cinco integrantes do MSTC e outras 14 pessoas sofrem processo instaurado pelo Ministério Público que associa distintos movimentos sociais por moradia ao crime organizado, ao acusá-los de extorsão de moradores.

A cantora e produtora cultural Preta Ferreira e seu irmão, Sidney Ferreira, passaram 109 dias encarcerados em razão da denúncia. Carmen Silva, coordenadora do MSTC, Liliane Ferreira, pastora evangélica e filha de Carmen, e Adriana Ferreira, nora de Carmen, também tiveram prisões decretadas no processo. Após intensa diligência de uma equipe de advogados, os cinco respondem ao processo em liberdade.

Assista a um trecho do encontro:

Angela Davis está no Brasil para três conferências intituladas "A liberdade é uma luta constante", e tem se pronunciado publicamente sobre o encarceramento de Preta. A prisão política da cantora evidencia uma crescente perseguição contra movimentos sociais, e a luta pela liberdade de Preta e Carmen tornou-se símbolo da resistência em favor de trabalhadores de baixa renda que, à margem de políticas públicas, se organizam e, juntos, dedicam suas vidas à luta por direitos civis no Brasil.

Davis tornou-se um dos nomes mais expressivos na luta por direitos humanos e ganhou projeção internacional naquele que seria considerado um dos mais importantes julgamentos do século XX e que a colocaria, ao mesmo tempo, na condição de ícone dos movimentos negro e feminista e na lista das dez pessoas mais procuradas pelo FBI. Em sua primeira passagem por São Paulo, fez questão de ir ao encontro de Preta e Carmen, proibidas de sair de casa aos finais de semana por medida cautelar, para ouvi-las e somar-se à luta pela sua inocência.

"No presídio, li 'Uma Autobiografia' e pensava que se Angela passou por tudo isso, resistiu e tornou-se o que é, eu também tenho que resistir", disse Preta, emocionada. "Angela é da mesma época de luta que eu. Enquanto eu resistia aqui no Brasil, ela resistia nos EUA", completou Carmem. Davis agradeceu a recepção e reforçou a importância de dar projeção ao caso.

Participaram da visita as deputadas Erica Malunguinho (PSOL) e Isa Penna (PSOL) e também a cantora Maria Gadu, amiga da família.

No vídeo, Preta Ferreira canta para Angela a música que compôs enquanto estava presa:

Angela Davis no Brasil
No dia 23, a ativista norte-americana falará em mais uma conferência gratuita e aberta ao público no Cine Odeon, às 19 horas, na abertura do "Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas", o maior evento audiovisual destinado para obras e realizadores negros da América Latina.

Sobre o Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC)
Fundado em 2000, reúne, hoje, mais de 300 famílias em cinco ocupações [Casarão, José Bonifácio, Nove de Julho, Rio Branco e São Francisco]. Em 2016, o Movimento foi selecionado pelo programa Minha Casa Minha Vida Entidades e o antigo Hotel Cambridge, uma de suas ocupações, foi transformado em prédio residencial para 120 famílias. É reconhecido nacional e internacionalmente como um importante polo de reivindicação cidadã e de promoção de direitos negados a uma parcela da população.

Preta Ferreira e Angela Davis em encontro emocionante (Foto: Reprodução)

Preta Ferreira e Angela Davis em encontro emocionante (Foto: Reprodução)

Leia mais: 

Carmen, mãe de Preta, líderes de sem-teto: por que nos querem presas

"Agora não é mais só Preta Livre. Existem mais encarceradas. São milhares"

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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