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"Toda mulher pode ser lésbica; é uma opção política"

Flávia Martinelli

03/01/2020 04h00

Elas já foram héteros e defendem que é possível aprender a amar mulheres. Feministas radicais explicam a escolha política e defendem o lesbianismo como opção libertadora 

Por que não? (Foto: reprodução Facebook/ Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH)

Por Ariane Silva, especial para o blog Mulherias

Reconstruir a autoestima e viver sem violência são algumas das razões dadas pelas mulheres que abandonaram as relações com homens por escolha. Para elas, que são adeptas da vertente do feminismo radical, tornar-se lésbica é uma questão política, uma maneira de se rebelar contra a ordem social que ainda beneficia os homens em todas as esferas da vida: do trabalho aos relacionamentos afetivos, passando, inclusive, pela exploração das mulheres no casamento e na maternidade.

O lesbianismo político hoje, portanto, seria uma saída radical à opressão machista. E o amor profundo entre mulheres, por sua vez, uma alternativa libertadora. É o  que nos contam as três ativistas ouvidas nesta reportagem. Elas defendem que aprender a amar mulheres –de diversas formas– é um ato feminista que pode ser praticado por qualquer uma. Basta querer e se jogar.

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Para a fotógrafa e videomaker Gabrielle Borghi, de 28 anos, tornar-se lésbica envolveu a reflexão sobre a influência das relações com homens em todos os aspectos de sua vida. "Não acredito que a gente tenha um gene que determina por quem sente atração. A sexualidade humana pode parecer natural, mas na verdade foi naturalizada porque a sociedade ensina a amar homens e a odiar as mulheres." A afirmação de Gabrielle, comum entre as feministas em geral e que aparece com muita força no discurso do lesbianismo político, ecoa as palavras da filósofa americana Marilyn Frye.

Gabi Borghi: "Hoje, defendo a liberdade para definirmos se queremos nos relacionar, com quem e em quais termos, em vez de só seguir o que é esperado de nós" (Foto: Acervo pessoal)

Em 1983, ela escreveu em "Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista", que existe uma cultura heterossexual que apregoa o afeto entre homens e o ódio às mulheres. "Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram, respeitam, adoram e veneram, honram, quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos, a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender, aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam; estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens", explica a autora.

"Em suas relações com mulheres o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher numa redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva, ela cultiva o amor pelos homens."

Isso explicaria porque os homens heterossexuais, que dizem amar as mulheres, são os mesmos que as agridem e matam. Para as feministas radicais, mesmo os que não são violentos se beneficiam da exploração e do medo imposto a elas. Afinal, eles ainda compactuam com a cultura que apregoa que mulheres devem saber cozinhar, limpar e cuidar da casa ou naturalizam o fato de mulheres deixarem de sair sozinhas na rua de noite –o que, no fundo, é impor a elas o olhar dos pais, e, após o casamento, dos maridos.

As feministas radicais entendem que a sexualidade é imposta e reforçada o tempo todo, como na divisão do trabalho entre os dois sexos e, também, nas escolhas afetivas. Por esse motivo, a heterossexualidade é padrão –ou "compulsória", como escreveu a teórica feminista Adrienne Rich no ensaio "Heterossexualidade compulsória e existência lésbica".

A opressão da mulher também explica por que a "possibilidade lésbica", como elas dizem, é apagada na sociedade. "Muitas coisas que a gente sente por mulheres às vezes a gente interpreta de uma forma que não é o que a gente sente de verdade, porque interpreta a partir de uma ótica heterossexual", reflete Gabrielle, que se refere também à sua dificuldade de estabelecer e fortalecer relações com mulheres em geral antes da opção pelo lesbianismo.

"Hoje, defendo a liberdade para definirmos se queremos nos relacionar, com quem e em quais termos, em vez de só seguir o que é esperado de nós. No patriarcado, as relações entre homens e mulheres são criadas para serem desiguais."

"Acendeu uma luz"

A historiadora Julia Marques, de 23 anos, conta que o lesbianismo político foi uma das primeiras coisas que chamaram a sua atenção quando começou a ler sobre feminismo na adolescência. Ela até já se entendia como lésbica antes do contato com a política, mas foi lendo sobre publicações feministas lésbicas dos anos 80 , como o livro "A Heresia Lésbica", de Sheila Jeffreys, que encontrou aceitação para o que até então ouvia que era uma aberração: preferir mulheres a homens. "Li textos que falavam que se relacionar com mulheres era revolucionário em todos os sentidos [o lesbianismo político], é romper com tudo que se espera de uma mulher, que nossa vida seja pequena e entregue na mão dos homens."

Julia Marques: a historiadora entrou em contato com a possibilidade de ser lésbica em textos sobre o assunto e conta que foi "chocante e maravilhoso" encontrar o afeto entre mulheres (Foto: Acervo pessoal)

O interesse pela autonomia das mulheres também é seu tema de pesquisa. Há dois anos, ela defendeu sua monografia de graduação sobre o papel das chamadas "solteironas" na revista Alterosa (1945-1960), discutindo como a heterossexualidade é forçada sobre as mulheres a partir da mídia. "Um dos textos que analisei, 'Casamento e carreira', escrito em numa revista de 1946, mostra que a autora, em pleno pós-guerra, dizia estar preocupadíssima com o excesso de mulheres no mundo e a quantidade de solteiras que seriam condenadas ao celibato ou à 'degradante situação de terceiras' nos casais." Para a revista, a possibilidade lésbica era apagada por meio da linguagem, não se casar era uma questão moral. "Esse é o primeiro texto na revista que usa o celibato e o termo solteirona como algo pejorativo."

Julia encontrou em comunidades online muitas outras mulheres que compartilhavam o interesse sobre feminismo radical e lesbianismo político e, com elas, construiu uma comunidade militante desde muito jovem. Ainda com 17 anos, participou da fundação de uma das primeiras coletivas feministas radicais brasileiras, a GARRa Feminista (Grupa Ação e Resistência Radical Feminista, de Belo Horizonte – MG). A coletiva organiza grupos de estudos e  disponibiliza bibliografia e método para que outras mulheres se organizem em redes.

Julia também é, desde 2014, uma das organizadoras da Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de Belo Horizonte, movimento construído por feministas de diversas linhas políticas, com forte presença das radicais que reivindicam o lesbianismo político. A Caminhada de BH já teve como tema "O amor entre as mulheres muda o mundo", ressaltando a ideia de que, numa sociedade machista, mulheres se amando é algo revolucionário.

Grupo Garra Feminista em marcha: elas defendem a luta e radicalização contra o patriarcado e o capitalismo. Feministas radicais defendem que o amor entre mulheres muda o mundo (Foto: reprodução Facebook)

Nem homens nem mulheres, outra forma de abandonar a heterossexualidade

Já a bióloga Fabíola Ladeira não se reivindica lésbica, mas conta ter sido profundamente influenciada pelo lesbianismo político. Ela tomou a decisão consciente de não se relacionar com homens e dedicar a vida às mulheres. Aos 34 anos, conta que, desde muito nova, rejeitou a ideia de se relacionar com homens, mas somente lendo sobre lesbianismo político ela conseguiu entender o motivo do incômodo.

"A partir dos 13, 14 anos, todas as coleguinhas começam a falar sobre meninos, querer beijar meninos, e eu sentia que eu deveria também. Só que eu não queria. Fui enrolando sobre essa questão porque queria ficar com as minhas amigas, aí eu fingia que estava interessada no assunto. Isso foi até crescer, durante toda a vida escolar", relembra. No início, tentava disfarçar o desinteresse em garotos e relata ter sofrido preconceito na escola por nunca querer estar com eles. "Nunca conseguia nem ficar a ponto de querer conversar ou beijar os garotos, e aí eu fui largando mão", conta.

Já mais madura, Fabíola teve contato com o feminismo radical pela internet. Ler sobre as teorias e conhecer a história de outras mulheres que decidiram se relacionar apenas com mulheres reafirmou sua decisão e transformou sua forma de fazer feminismo: "Foi quando eu decidi, conscientemente. Porque aí me encontrei, eu tinha a teoria, tinha o sentimento feminista, além daquele de estranheza", relembra.

Fabíola Ladeira defende o lesbianismo político, mas não busca relacionamentos. Isso não exclui, no entanto, relações de companheirismo e de  irmandade entre mulheres. "É o que coloco no centro. Namoros eu deixo de lado" (Foto: Acervo pessoal)

Ela atribui a sua rejeição a relacionamentos com homens à observação de como essas relações afetavam as mulheres à sua volta. "Vi mulheres dedicarem a vida ao casamento, a criar os filhos e cuidar da família, abandonando seus empregos, para no fim da vida descobrir que seus maridos tinham outras relações e terminarem sozinhas", relata.

"Eu acho que o relacionamento hétero atrasa muito a vida das mulheres", afirma. Para Fabíola, as obrigações com trabalho doméstico e a falta de reciprocidade no cuidado emocional trazem uma carga mental que prejudica a vida, o que para ela é insuportável desde sempre. Ela, que também não se relaciona sexualmente com mulheres, reivindica o que as autoras feministas chamaram de "contínuo lésbico", uma postura política que vai além das relações amorosas, como namoros, e passa pela construção e pertencimento a comunidades de mulheres com objetivos de fortalecimento coletivo e apoio mútuo.

A postura seria, portanto, uma forma de transformar as vidas das mulheres hoje e construir um futuro melhor para todas. Para Fabíola, não ter relacionamentos amorosos não exclui relações de companheirismo e sororidade (a irmandade entre as mulheres). "É o que coloco no centro. Namoros e outras relações afetivas eu deixo de lado."

A bióloga explica que o amor pelas mulheres propagandeado pelas lésbicas políticas vai na contramão da rivalidade feminina incentivada na sociedade. Fabíola entende que essa rivalidade faz parte da lógica da heterossexualidade –o "pensamento hétero", outro conceito que o feminismo radical lésbico ajuda a compreender. "Combater essa rivalidade feminina transforma a vida das mulheres e muda também a forma de fazer feminismo. É um afeto novo, por uma maneira diferente, trabalha sua paciência, trabalha toda a maneira que você age, também ajuda muito a construir estratégias, a entender como se conversa com as mulheres, a entender as necessidades das mulheres", reflete.

Lesbianismo político: as feministas teóricas que recusaram a heterossexualidade compulsória

O conceito de lesbianismo político apareceu pela primeira vez na publicação Love Your Enemy? The Debate Between Heterosexual Feminism and Political Lesbianism (Ame seu inimigo? O debate entre o feminismo heterossexual e o lesbianismo político, em tradução livre), organizado pela feminista radical britânica Sheila Jeffreys em 1981. Outra autora muito citada é a radical americana Adrienne Rich, teórica e poeta, autora do ensaio "Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica", de 1980.

O termo se refere a mulheres que decidiram, por motivos políticos, se tornarem lésbicas, recusando relacionamentos com homens e desenvolvendo relacionamentos com mulheres. Também pode se referir ao comportamento daquelas que, por princípio, não se relacionam com homens e usam o tempo e a energia disponíveis por conta disso para lutar contra a exploração das mulheres.

Hoje, a maioria das mulheres que reivindicam o lesbianismo político se refere à ideia de que é possível decidir se relacionar afetiva e sexualmente com mulheres. A política lésbica pensada pelas teóricas e adeptas da Segunda Onda Feminista, de meados dos anos 1980, permanece viva nos discursos e nas práticas das ativistas contemporâneas e influenciam comunidades lésbicas em geral. Para essas e outras mulheres que reivindicam o legado das lésbicas da 2ª onda, se o feminismo é a teoria, o lesbianismo é a prática.

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.