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Economistas defendem "calote" como saída para sobreviver na pandemia

Flávia Martinelli

22/05/2020 04h00

Com reportagem de Monise Cardoso, especial para o Blog Mulherias

Na crise, a prioridade é manter a dignidade e seguir adiante. Para enfrentar esse momento, duas economistas e duas empreendedoras dão dicas realistas para segurar as contas essenciais  

Ter o "nome sujo" ainda é bicho papão, sobretudo nas camadas mais pobres da população. CPF negativado no Serasa tira o sono de muita gente e vira ferramenta de julgamento. O devedor passa a se sentir como uma pessoa que vale menos. Quem nunca ouviu a frase "tudo o que você tem é o seu nome"?

"São expressões violentas e dolorosas que só minam a autoestima de quem já não tem bens ou grande poder de consumo", defende a economista Gabriela Chaves, fundadora e CEO da Nofront Empoderamento Financeiro.

Ilustração: Rawpixel

Mas o fato é vivemos tempos mais que extraordinários. Pesquisas apontam que não apenas o Brasil mas o mundo inteiro caminha para uma das maiores crises econômicas da história. Aliada à pandemia da Covid-19, por aqui a taxa de desemprego oficial é de 12,2%. Por isso, Gabriela defende que o tão polêmico "calote" seja usado como salvação por quem precisa. "A dívida faz parte da vida de qualquer agente econômico: seja uma família, o Estado ou empresa. Todo mundo tem dívidas, talvez em atraso. O que não dá é perder o sono ou deixar de comer para pagar banco", explica Gabriela.

De acordo com dados da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), desde 16 março, início da quarentena no país, as instituições financeiras concederam R$ 367,6 bilhões em linhas de crédito. Deste total, 50,9% foram para grandes empresas, 20,8% para pequenas e médias e apenas 24,3% para famílias. Se olharmos para os maiores devedores da União, a Petrobras lidera com uma dívida de R$ 41,75 bilhões, segundo dados  de setembro de 2019 da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

Lista dos 10 maiores devedores da União (Gazeta do Povo, 2019)

Gabriela explica que  o adiamento do pagamento de uma dívida deve ter estratégia. O primeiro passo para isso é fazer um diagnóstico da sua realidade financeira. "Primeiro, estabeleça o custo mínimo para as despesas de sobrevivência: alimentação, moradia e saúde. Depois, sabendo que vai fechar no vermelho, você escolhe quais contas serão ou não pagas de acordo com o que faz mais sentido pra sua realidade. Talvez nenhuma seja paga – essa é uma possibilidade no cenário de muita gente", diz.

Em São Paulo, o corte de água está proibido para os moradores de baixa renda das categorias residencial social e residencial favela pelos meses de abril, maio e junho. Cortes no fornecimento de energia elétrica também estão suspensos por três meses para todos os consumidores das áreas urbanas e rurais, a medida é da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Gabriela durante oficina financeira ministrada em um quilombo localizado em Itacaré, na Bahia. Foto: Natali Yamas

A economista também destaca a importância de negociar a postergação ou redução de despesas como o aluguel, por exemplo. "É importante ter uma conversa honesta e amigável com dono do imóvel. Mostrar seu histórico de bom pagador, o interesse em permanecer no imóvel após a crise, firmar um contrato de acordo para pagamento futuro ou, no caso de donos de negócios, mostrar seu extrato de rendimentos antes e durante a pandemia pode ajudar nessa negociação", pontua. Essa semana, o Senado aprovou um projeto de lei que proíbe despejos durante a crise, medida que agora espera por sanção de Bolsonaro.

Ione Amorim, economista e coordenadora do programa de Serviços Financeiros do  Instiuto de Defesa do Consumidor (Idec), ressalta a importância de entender também a situação do dono do imóvel que, muitas vezes, só tem aquele aluguel como renda.

"Nesse caso, serão duas famílias em situação de dificuldade, mas despejar o inquilino devedor não resolve. Quem vai alugar um imóvel num período de calamidade econômica?", diz Ione. Para quem ainda tem alguma reserva financeira, a dica é negociar o valor do aluguel com transparência para que nenhuma das partes fique descoberta.

Sem nome sujo durante a pandemia

Embora ainda não haja nenhuma medida de proteção ao consumidor em relação ao não pagamento de dívidas durante a pandemia, a economista do Idec defende que seja estabelecida a suspensão da negativação de nomes neste momento. "Alguns bancos postergaram o prazo para negativação de 10 para 45 dias. O que não ajuda em nada, pois não é piorando a situação das famílias que a economia será retomada no país. Não estamos vivendo uma situação de normalidade, na qual as prerrogativas da lei podem ser aplicadas como se nada estivesse acontecendo", afirma.

Ione também aponta para os abusos dos bancos que não têm sido transparentes quanto às regras relacionadas à acordos de dividas e que têm se negado a acolher a parte devedora dos consumidores. Neste momento, é importante suspender débitos automáticos antes que se chegue em uma situação limite. "Tem consumidor tentando falar com o banco por diversos canais e não está conseguindo", diz.

A especialista ainda critica a medida de suspensão de contratos por 60 dias, que se mostra inacessível para muita gente. "Quem tinha dívida em dia conseguiu se beneficiar, mas e quem não tinha? Os bancos vão acionar escritórios de cobrança para ir atrás dessas pessoas em um momento como este? Não faz sentido", critica.

Entrei no vermelho. E agora?

A partir do diagnóstico financeiro, a primeira lição de Gabriela Chaves em suas oficinas, é preciso incluir no salário mínimo necessário tudo o que se gasta com alimentação (compras de mercado), saúde (medicamentos e plano saúde, caso tenha) e moradia (aluguel, água e luz). "Tendo esse valor no papel, você sabe o quanto precisa para manter, minimamente, a dignidade da sua família. Todo o resto é secundário", explica.

A visualização das dívidas é essencial para todos, mesmo para aqueles que se encontram sem nenhum tipo de renda e estão vivendo apenas com ajuda de doações de cestas básicas. "Mesmo sem nenhuma perspectiva de resgate financeiro, se você está vivo e usa os serviços essenciais, uma hora será necessário dar conta dessa dívida. Por isso, coloque no papel quantas parcelas vão ficar atrasadas, é importante para que se tenha uma visualização real da situação e no futuro os acordos aconteçam de maneira mais organizada", explica Ione.

Novas alternativas

A costureira Shirley Oliveira, de 36 anos, dona do Maluca Festa e Arte ateliê, oficina de costura e artesanato de Recife (PE), vem se dedicando exclusivamente à confecção de máscaras de tecido desde o começo da pandemia. Com o que ganha, sustenta a casa onde vive com sua mãe e filha. "Vendo cerca de 50 máscaras por semana, cada uma a R$ 5. Trabalhando de domingo a domingo pra dar conta das encomendas", conta.

A costureira Shirley recomanda:

A costureira Shirley recomanda: "faça máscaras para revender com tecidos doados ou de reuso. O momento é esse"

Shirley investe, em média, R$ 2,96 por unidade – incluindo gastos com tecido, elástico, linha, energia e mão de obra. A costureira conta que as pessoas têm buscado por estampas diferentes, de super-heróis, personagens de desenhos, o que pode encarecer o custo do tecido. Mas a dica pra quem não tem muito dinheiro pra investir é contar com doação de tecidos. Lençol usado também pode virar máscara e isso pode ser uma renda emergencial no momento.

Exemplos de máscaras feitas por Shirley: opção de renda de venda fácil no momento. (Foto: Acervo pessoal)

Exemplos de máscaras feitas por Shirley: há centenas de tutoriais na internet para aprender e até quem não tem máquina de costura pode se virar na mão  (Foto: Acervo pessoal)

Ainda que as vendas não transformem a sua vida, pode ser a garantia para os custos do mínimo durante a crise.  "Você chegou à conclusão de que precisa de pelo menos R$ 200 pra comprar a cesta básica? Então encara o problema e tenta garantir a sobrevivência. Venda máscaras, rife uma bicicleta, faça vaquinha entre os amigos e familiares. Neste momento, em que temos a mão do Estado agindo tão minimamente, contar com quem tá próximo é essencial", defende Ione, a economista do IDEC.

Outra alternativa é entrar para o ramo alimentício. A Caseirinhos da Bel, fábrica de pães que funciona na cozinha de uma família de mulheres, do bairro de Tucuruvi, na Zona Norte de São Paulo, é um exemplo. O negócio não começou na crise. Maria Isabel dos Santos, de 65 anos, a matriarca, sustentou quatro filhos com a venda dos pães e nesse momento trabalha com a filha e a neta para entregar as fornadas para os clientes. "Com a pandemia as vendas caíram, sim, mas conseguimos vender de 20 a 25 pães e 3 bolos por semana", conta a filha Adriana Camila dos Santos Assis, de 39 anos.

Na foto, Dona Maria Isabel, responsável pela produção de pães da Caseirinhos da Bel (Foto: Acervo pessoal)

A família divide as tarefas: Maria Eduarda Assis Silva, de 12 anos, filha de Adriana, pesa e etiqueta as embalagens, além de triturar, congelar os recheios de pães e cuidar da lista de compras. Adriana é a responsável pela parte administrativa e financeira, pelas entregas, captação de clientes, louça, embalagem e pesquisa de novas receitas. E dona Maria Isabel é quem comanda a cozinha.

Na foto, Maria Eduarda e Adriana: mãe e filha na equipe de produção da matriarca

A adolescente Adriana, que também integra o coletivo As Yabás – uma Rede de apoio à mulheres periféricas negras e refugiadas africanas, com empreendimentos consolidados ou em formação -,  conta que como negócio, a venda de pães é bastante lucrativa e requer um investimento baixo. No último mês, mesmo com a queda nas vendas, lucramos R$ 1300. "E produzimos em casa mesmo, com um forno externo a gás que assa muitos pães de uma só vez. Agora,  investimos em um freezer para conseguir vender também unidades congeladas", conta.

Veja abaixo a receita do pãozinho: o custo é de R$6,62 e pode ser vendido a R$13

Veja abaixo a receita do pãozinho: o custo é de R$6,62 e pode ser vendido a R$ 13

Com investimento de R$ 43, é possível fazer uma fornada de 20 unidades de pães de forma. O custo por unidade é de R$ 6,64 e dá pra vender cada um a R$ 13. No valor final do pão, é considerado o valor gasto com luz, água, gás e mão de obra. O lucro é de R$ 217 por fornada. "E quanto mais você desenvolve a habilidade de fazer a massa, a tendência é que ela cresça e renda mais unidades", explica Adriana.

Pão integral com castanhas

Caseirinho da Bel
(Rende 2 unidades)

Ingredientes
2 ovos (130g)
1 copo de óleo (240 ml)
1 colher de sopa de sal (14g)
1 colher de sopa de açúcar (14g)
2 copos de leite morno ou em temperatura ambiente (720ml)
2 tabletes de fermento biológico (30g)
8 a 9 copos de farinha de trigo
Óleo para pincelar os pães

Preparo:

Bata no liquidificador os ovos, o óleo, o sal, o açúcar, o leite e o fermento.
Despeje a mistura numa tigela, junte 7 a 8 copos de farinha de trigo, mexendo vigorosamente com uma colher, até qye a massa fique bem lisa. Adicione mais farinha de trigo, aos poucos, se necessário, até dar o ponto.

Modelo com um rolo retângulos e enrole-os como rocamboles. Coloque-os em duas formas de bolo inglês grandes untadas com margarina e polvilhadas com farinha de trigo. Pincele os pães com óleo.
Deixe crescer até dobrar de volume.

Leve ao forno em temperatura baixa e aumento para a média pouco antes de começar a dourar. Corte o pão em fatias apenas depois de esfriar para evitar esfarelar.

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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