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Como elas se livram de dívidas e poupam com dicas do YouTube e Instagram

Flávia Martinelli

2005-06-20T19:04:55

05/06/2019 04h55

Com reportagem de Gabriella Forabelli, especial para o blog MULHERIAS

A analista de atendimento Maiara Marques Santos, de 26 anos, começou investir há aproximadamente um ano e conseguiu juntar cerca de R$2.500,00. Diante da crise financeira e do desemprego do Brasil, pode parecer impossível economizar. Mas a aluna do curso técnico de gestão financeira e moradora da periferia da grande São Paulo, se aprofundou no assunto com pesquisas em canais no YouTube. "Encontrei dicas fáceis e práticas", conta. Entre as influenciadoras que segue está a jornalista Nathália Arcuri, fundadora do Me Poupe!, chamado de plataforma de entretenimento financeiro. "Os outros vídeos têm uma linguagem muito específica pra quem é da área, mas a Nathália parece que está fazendo bolo de chocolate."

Maiara conseguiu economizar cerca de R$2.500 com o canal de Me Poupe!

O canal de Nathália Arcuri tem mais de 3 milhões de seguidores e ensina a escolher taxas de juros de dívidas:

Outra série que se preocupa com linguagem acessível é a Guetonomia, do "Canal do Por Quê?", extensão do site Por Quê, dirigido pelo economista da FEA-USP, Mauro Rodrigues em parceria com o rapper Rafael Gomes e a cantora Denise Alves, moradores do Grajaú. Usando situações corriqueiras da vida da população periférica, eles demonstram que a economia precisa ser compreendida por todas as classes sociais.

Equipe da série Guetonomia, do Youtube. Denise Alves, ao centro, aprendeu a fugir das dívidas (Foto: Divulgação)

É o caso do episódio "Educação Financeira". Nele, a produtora de conteúdo Denise Alves, conta que ficou endividada aos 18 anos quando comprou uma chapinha e um secador e não conseguiu pagar. Na época, morava sozinha, pagava aluguel e tinha os boletos de água, luz e telefone. "Eu fiz um cartão de crédito e não consegui pagar, porque não tinha um planejamento financeiro. Sujei meu nome. Então, não sentei e conversei comigo mesma 'olha, se eu fizer um cartão hoje e comprar isso em tantos meses eu consigo pagar com o salário que eu recebo"; eu não tinha visão para saber se eu ia pagar ou não e isso foi se estendendo ao longo de anos."

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Hoje, aos 26 anos, ela conta que tomou outros tombos, mas agora todas as suas compras tendem a ser à vista. "Para pagar menos juros possível e dispôr o valor real do produto. Caso eu tenha a necessidade de realizar uma compra grande, o planejamento financeiro me ajuda a pagar todas as parcelas em dia, sem deixar faltar algo importante."

Denise explica que é comum a mulher da periferia não saber para onde seu dinheiro está indo. "A gente vive para colocar comida na mesa, pra conseguir pagar as dívidas, não existe a perspectiva de guardar grana para daqui um ano comprar um carro ou fazer uma viagem", explica. "Não há a ideia de poupar dinheiro, porque tá sempre faltando dinheiro." Ela lembra que cerca de 54 milhões de pessoas são analfabetas financeiras. "Não somos ensinados a gerir nossa grana". De fato, um levantamento feito pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), em agosto de 2018, mostrou que 93,3% da população inadimplente é da classe C/D/E enquanto 6,7% fazem parte da classe A e B.

A falta de planejamento também impacta nos negócios. No Brasil, as empresas possuem um tempo útil entre 1 e 2 anos, mas na maioria das vezes, a falência surge por não haver uma gestão financeira adequada. "As coisas aqui na periferia acontecem muito mais empiricamente, na prática. Os empreendedores não têm acesso a educação financeira. Desde sempre geram suas finanças pessoais e de seus comércios conforme a sua própria intuição." E aí que está a importância do YouTube e dos canais, como o Guetonomia e o Me Poupe!.

Dica do Insta de Veridiana Lopes, o Economia Diária

A consultora Veridiana Lopes, do canal Economia Diária diz que a busca pela educação financeira em geral acontece quando as pessoas já mergulharam em dívidas. Sabendo disso, ela criou o canal que explica os termos econômicos e formas de economizar e quitar os boletos atrasados. Em um de seus vídeos no YouTube, a educadora de finanças explica sobre a obrigatoriedade dos bancos oferecerem uma conta sem a cobrança de nenhuma tarifa. "Você consegue realizar quatro saques mensais, a retirada de dois cheques especiais e ainda possui acesso ilimitado ao internet banking. Sem pagar nada. Não faz sentido abrir uma conta com tarifas bancárias abusivas, com limite especial com quase o dobro de sua renda mensal", orienta.

Além da falta de divulgação de informações preciosas como essa, existe ainda o machismo. Até mais da metade do século 20, mulheres não tinham CPF e consequentemente não podiam ter uma conta no banco. Caso ela tivesse alguma renda, era necessário deixar na conta de seu marido. A cientista contábil Vitória Giroto, do canal do Instagram Invista como uma Garota, lembra que sua mãe foi a primeira da família a ter acesso a conta bancária. "Mas como ela mal tinha direitos, não aprendeu e consequentemente não me ensinou".

Vitória, ao lado da economista Ana Vitória Baraldi, produziu uma tese sobre a importância da educação financeira para mulheres. "O projeto começou na  faculdade, com rodas de conversas. "Foi quando me dei conta: 'como nunca falei com uma amiga minha sobre vida financeira? Será que ela sabe controlar os gastos morando sozinha? Será que já tentou investir seu dinheiro invés de guardar na poupança?'."

Foi ouvindo uma roda de conversa promovida pelas das economistas do Invista como uma Garota que a dona de buffet Elaine Aparecida de Souza, de 45 anos, parou para pensar no assunto. Elaine era a responsável pelo coffee break do evento na universidade e uma das convidadas começou a falar sobre a importância de mulheres negras investirem sua renda. Interessada, Elaine teve a ideia de levar essa roda de conversa sobre investimentos e educação financeira para as mulheres da periferia que fazem parte da ONG em que faz parte.

"Quando elas começaram a me explicar como funcionava o investimento eu disse: 'não, quero que vocês me ensinem, porque quero levar isso para a minha comunidade com uma linguagem que faça sentido.' Então, elas me explicaram como funciona investir e aí já decidi experimentar. Meu primeiro investimento é deR$20." Elaine faz parte da Associação de Mulheres na Economia Solidária (AMESOL), que reúne empreendedora e já está organizando o encontro de suas amigas com as especialistas.

 

Elaine vai levar a roda de conversa das especialistas do Invista como uma Garota para a Ong de Economia Solidária da sua quebrada. (Foto: Acervo Pessoal)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.