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"Ideia de cadeia ou caixão volta com força nas periferias", diz educadora

Flávia Martinelli

06/12/2019 04h00

Tinta vermelha respinga em policial durante ato contra violência em São Paulo (Foto: Lucas Porto/ Jornalistas Livres)

Tinta vermelha respinga em policial durante ato contra violência em Paraisópolis (Foto: Lucas Porto/ Jornalistas Livres)

Por Dofona, nome de batismo do candomblé de uma pedagoga que não quis se identificar, especial para o blog MULHERIAS 

"Uma vez, vi um menino de quatro anos em meio a uma blitz policial. Ao ver seu pai ser enquadrado, a criança  também levantou os bracinhos e se encostou na parede. Ali, compreendi que aquele menino preto, de quebrada, já era marcado pelo racismo e violência do Estado; essa instituição que sempre matou e mata o povo de sua comunidade. Essa marca, naquela criança e em todos os que vivem nas periferias, está em nosso DNA de quebrada. Até quando? Como superar? Em quem acreditar? Com o que sonhar?

Sou uma educadora nascida e criada na periferia da zona sul, num dos bairros considerados como dos mais violentos do mundo na década de 1990. De lá para cá, não foram as ações de segurança do governo que trouxeram paz mas, sim, atitudes e cooperativismo de pessoas que se uniram para pensar a quebrada a partir de suas próprias necessidades. Não tem ambiente para a leitura e literatura? A comunidade criou saraus poéticos em bares. Não tem música? Bandas passaram a se apresentar nesses mesmos saraus ou em praças ou ocupando ruas, só depois vieram os poucos centros culturais.

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Para quem vê de fora, pode ser difícil compreender que as periferias não têm pensamentos comuns a todos que ali  residem. Na mesma rua onde mora a mãe que sofre ao ver seu filho sendo agredido ou preso sem provas pela polícia  há uma outra mãe agradecendo que a força de segurança está presente. Muitas contradições estão postas. Porém, não podemos desumanizar o nosso olhar e deixar de questionar: quem é o responsável pela segurança pública? Qual o projeto sobre políticas culturais e sociais que nos é oferecido?

As nove mortes de Paraisópolis foram um massacre. Fechar a saída principal e estourar bombas não foi um mero acaso, a ação foi pensada. Ouvir um PM gritar 'aqui é minha área' demonstra a ação de retaliação e desmonte do direito de ir e vir. Aos familiares que perderam seus filhos e parentes fica o desespero de não saber como agir. Denunciar quem? Apontar quais culpados?

Charge de Brum, viralizada nas redes sociais (Foto: reprodução Facebook)

Charge de Brum, viralizada nas redes sociais (Foto: reprodução Facebook)

Uns dizem que os próprios jovens que omitiram onde estavam. Qual adolescente não faz isso? Um pai disse para um veículo tradicional de comunicação que mesmo que sua filha tenha mentido para onde iria, nada dá o direito de ser agredida. Foi a máxima verdade do dia,  NADA daria o direito aos representantes do Estado agir daquela forma. Defendo que a responsabilização das forças de segurança deve ser registrada como violência racial, não só como um ato 'desastroso' de segurança da comunidade.

Todas e todos que estiveram presentes naquele baile ou conhecem a importância de um espaço de lazer gratuito na quebrada, além do DNA marcado pela violência policial, agora tiveram suas almas assinaladas. Morar em periferia é saber que a ordem do Estado chega com o pé na porta da sua casa. Nossos alimentos podem ser jogados nos chão a qualquer momento pela bota policial.

Aos meus olhos, a era cadeia ou caixão volta com força total nas periferias de São Paulo. Inúmeras incursões policiais estão acontecendo nas madrugadas com viaturas apagadas. Há surpresas nas vielas e becos. Aos espaços de lazer criados pelas próprias comunidades, estão a pólvora e o pânico.

Precisamos unir vozes. Não podemos continuar frios e estáticos frente às lágrimas e pedidos de socorro. É a hora de reagir. Fazer do luto a luta para que outros meninos e meninas não partam tão cedo por querer simplesmente se divertir."

 

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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