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"Investi R$ 250 e hoje lucro R$ 2.000 com cosméticos veganos"

Flávia Martinelli

24/01/2020 04h00

Xampu sólido da marca Nataly Sgoviaah Conceito (Foto: reprodução Facebook)

Tendência cada vez mais crescente é oportunidade de renda 

Por Ariane Silva, especial para o Blog Mulherias

Sabe aquela receitinha de beleza que a sua vó, despretensiosamente, te ensinou pra hidratar o cabelo – babosa batida com óleo de amêndoas, ou, pra esfoliar o rosto, aquele mel com açúcar? Pois é, têm se tornado cada vez mais a principal fonte de renda de brasileiras que uniram a necessidade à uma demanda de mercado que aponta para um estilo de vida mais natural.

Com dedicação e responsabilidade, dá pra aprender métodos de em cursos ou de forma gratuita com vídeos no Youtube e começar com um investimento relativamente baixo. Foi assim com a Alice Gomes do "Veganos Paz & Amor", marca de Alagoas. "Comecei com R$ 250,00 vendendo desodorantes e sabonetes e hoje já tenho mais de 30 itens no catálogo", conta.

Cosméticos da Veganos Paz & Amor. "Cruelty Free", ou livre de crueldade, significa que o produto não é testado em animais.

Com 14% da população se declarando vegetariana, de acordo com pesquisa do Ibope de 2018, a procura por produtos veganos, que não têm origem ou realiza testes em animais, tem crescido no país. Já são 6% a mais do que na pesquisa anterior, feita em 2012. Entre os entrevistados, 60% também dariam preferência a produtos veganos se fossem mais acessíveis. Os dados têm sido observados por grupos da indústria cosmética e farmacêutica, que não demoraram a encher as prateleiras de produtos identificados como naturais, mas que além do preço bem salgado, ainda vêm com aqueles nomes supercomplicados de entender nos rótulos das embalagens.

Para ser considerado natural, o produto precisa ter em sua composição mais de 80% de óleos, manteigas e insumos naturais. Se tem sintético, corante, lauril, parafina e pouco princípio ativo pode desconfiar. Por isso, pra começar a produzir, é preciso respeitar as diretrizes da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e compreender a responsabilidade que a sua pequena marca vai assumir com as clientes.

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Por considerar de baixo risco, a Agência dispensa a necessidade de licença para produtos naturais – ou seja, você não precisa de uma autorização para produzir os cosméticos. Mas a origem das matérias prima utilizadas, obrigatoriamente, devem ter certificação. "Checar o laudo da ANVISA é fundamental para se prevenir contra adulterações que podem comprometer a qualidade e a segurança do produto", explica Nataly.

O segredo é ficar atenta aos cálculos

Nataly Sgoviah, de 29 anos, é a empresária por trás da marca Nataly Sgoviah Conceito. Moradora de Belo Horizonte, ela começou a empreender por necessidade há 4 anos atrás. "Eu estava desempregada e resolvi pegar a última parcela do meu seguro-desemprego para investir na produção. Com os cerca de R$ 600 que tinha, comprei a matéria-prima para produzir shampoo sólido, e na semana seguinte consegui vender todos por R$ 1200", lembra.

Rede de consumidoras divulga os produtos pelas mídias sociais e no boca a boca

O carro-chefe da marca é o xampu sólido, vendido por R$ 27 e que rende até 100 lavagens. O custo de produção de cada unidade sai a R$2,50. Para chegar ao preço final, Nataly faz a medição precisa dos ingredientes gastos utilizando uma balança, e inclui gastos com infraestrutura do espaço em que trabalha, além do valor da sua hora de mão de obra. Ela também confere valor de mercado de produtos equivalentes. "Eu pego o valor do aluguel, divido por horas, e calculo quantas horas gastei pra fazer aquilo. Assim eu calculo também água e energia. Pego o produto, divido pela gramatura, então sei quanto custa cada grama. E coloco também o valor do meu tempo, a minha hora", explica.

Nataly mostra o shampoo sólido. A embalagem também é natural e biodegradável.

Ter controle e planejamento é essencial para conseguir lucrar. A fundadora do Veganos Paz & Amor lembra que no início do projeto não viu o dinheiro voltar porque não tinha uma estratégia para equilibrar os custos entre matéria-prima, sua hora de trabalho, os gastos com frete e ainda manter o preço dos produtos acessíveis a todo tipo de público. "Os R$250 que investi pegando emprestado o cartão de crédito de um amigo acabaram não rendendo, eu apenas fiz o dinheiro girar para comprar mais insumos", explica

Para a alagoana, os cosméticos veganos são uma forma de ativismo: "A Veganos Paz & Amor não é exatamente uma marca ou loja virtual. É um tipo de projeto que surgiu em 2017, quando descobri que a maioria dos produtos de higiene pessoal e maquiagem, principalmente industrializados e fáceis de encontrar, eram testados em animais.", conta. Ela é vegetariana estrita (ou seja, não consome carne, leite, ovos, mel e nenhum derivado animal) desde o nascimento, e seus pais são veganos também. Alice lembra que mesmo produtos que não contém ingredientes de origem animal podem ser testados em animais nos laboratórios.

Hoje, mesmo enfrentando os altos custos para importar matéria-prima do Sul para o Nordeste, Alice consegue equilibrar a entrada e a saída de grana lançando mão de estratégias: "Eu ofereço "pacotões" para os clientes de outros estados e organizo compras coletivas, assim consigo, com um frete só, vender mais produtos para mais pessoas e elas podem rachar o custo do envio", entrega. A dona do Veganos Paz & Amor, lucra, em média, o triplo do que investe. "Consigo tirar até R$2000 por mês, nos meses que vendo mais, e gasto R$ 650,00 com custos de produção."

Alice ensina em seu canal no YouTube a fazer as receitas que aprendeu. A ideia de vender os produtos veio da própria comunidade online, com muitas pessoas que não tinham tempo para fazer os próprios produtos pedindo que ela disponibilizasse para venda. Hoje ela já consegue se sustentar com a renda do projeto, que tem como objetivo oferecer alternativas sem crueldade a custos acessíveis, e toma seu tempo integral entre pesquisa, produção e divulgação. "O lucro ainda é baixo, mas estou me empenhando ao máximo para expandir o trabalho", explica.


Outra dica importante para quem vai começar é se ligar onde e como comprar os ingredientes. Optar por lojas que vendam matéria-prima fracionada é a melhor opção. 1kg de manteiga de cupuaçu, que pode ser usada em hidratantes, sai por cerca de R$90, mas é possível comprar apenas o suficiente para a sua produção e assim diminuir o investimento inicial.

Também é importante levar em consideração a região em que se vive. Alice, que é de Alagoas, tem dificuldade de encontrar insumos com preço baixo em sua cidade. Então, alerta que para lucrar o suficiente para cobrir os custos e se bancar, é importante focar no volume de vendas. "Vendendo bem e sem pausas, ainda que o lucro não seja altíssimo, você se mantém", aconselha.

A manteiga de cupuaçu é produzida a partir da fruta. É ingrediente muito usado nos cosméticos naturais. (Foto: P. S. Sena/Wikimedia Commons)

Além do autocuidado, os cosméticos naturais oferecem outro benefício que agrega muito valor aos produtos: a sustentabilidade. O Veganos Paz & Amor e a Nataly Sgoviah Conceito fazem questão de usar embalagens sustentáveis. É melhor para o meio ambiente e também para as consumidoras, gerando menos lixo e barateando o preço.

"Por ser biodegradável, o celofane vegetal, que uso nas minhas embalagens, dissolve em até 4 meses em água ou no meio ambiente. E o papel é reciclado, então a pessoa acaba consumindo menos embalagem. E o cliente tem a opção também de comprar sem o papel", conta Nataly. Ela calcula que se a pessoa utilizar um xampu e um condicionador por mês, ao preferir os produtos naturais, estará deixando de produzir o lixo equivalente a 24 embalagens de plástico. Já o blog do Veganos Paz & Amor ensina a reciclar as embalagens que acompanham os shampoos, condicionadores e desodorantes vendidos pela marca.

A sustentabilidade também se estende à rede de clientes. A maior parte das produtoras ainda são mulheres e das compradoras também. "Além dos produtos serem fitoterápicos e terapêuticos, a gente trabalha com aromaterapia na produção dos shampoos. É sustentável, é biodegradável e eu tenho uma rede de mulheres que consomem os meus produtos o que fortalece o meu negócio que também é formado por mulheres", explica.

A internet é aliada na hora de aprender e de vender

O investimento em aprendizagem vai depender de que cosméticos você quer começar, se higiene pessoal, cuidados, maquiagem. Mas em todas as categorias existem grupos no Facebook e vídeos no YouTube onde profissionais compartilham informações, receitas, e podem ajudar quem está começando nesse caminho.

Na internet, é possível encontrar cursos pra todo tipo de bolso."Com o curso básico você já consegue fabricar algumas coisas para poder vender. O investimento dos produtos é bem baixo e com um bom planejamento já começa a lucrar na primeira leva, na primeira produção", conta.

No Instagram, a Nataly Sgoviah Conceito explica como funcionam os componentes dos produtos (Foto: reprodução)

A diferença entre o curso mais barato e o mais caro é o aprofundamento oferecido. O curso mais caro geralmente ensina a trabalhar em laboratório, com equipamentos que permitem maior escala de produtividade. Continuam sendo cosméticos naturais, mas com maquinário para aumentar a produção. O investimento é indicado para quem deseja se profissionalizar.

A advogada Isabela Moura, 31 anos, não é vegana, mas há mais de 4 anos dá preferência a cosméticos veganos, naturais e artesanais. Ela conta que sempre busca primeiro uma opção natural feita por pequenas produtoras, ainda que seja mais caro. "Elas andam na contramão da indústria em relação à exploração de mão de obra, exploração ambiental e desperdício. Além disso, não me sinto segura sem saber exatamente o que estou consumindo", diz.

Engajada, Isabela até aprendeu a fazer o seu próprio desodorante, a base dele é apenas álcool, bicarbonato de sódio, água e óleo essencial. Assim, ela economiza nas compras de higiene. Além disso, a advogada diz que, apesar de ser um mercado jovem e difícil de acessar, a internet tem sido a grande aliada tanto de quem vende, como de quem compra. "Compro praticamente tudo que eu preciso hoje vegano pela internet, não costuma ser muito caro", diz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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