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Como tratar Covid-19 em casa de periferia: um guia popular e realista

Flávia Martinelli

29/05/2020 04h00

Líder comunitária distribui marmitas para moradores de Paraisópolis no início de maio (Foto: Getty Images)

Com reportagem de Ariane Silva, especial para o blog MULHERIAS

Não são apenas máscaras, testes, respiradores e leitos de UTI que estão em falta durante a pandemia do coronavírus no Brasil. Faltam também informações oficiais e protocolos de tratamentos realistas para quem está em casa lidando com sintomas leves da Covid-19 nas periferias. Com ou sem teste positivo para a doença, os que já confirmaram o vírus ou suspeitam que foram contaminados são orientados pelo Ministério da Saúde a isolar-ser num quarto de casa, de preferência exclusivo. As recomendações incluem ter à mão um termômetro e um telefone para se comunicar com um agente comunitário de saúde ou ligar para o SAMU 192. 

Essas condições, no entanto, não contemplam a imensa maioria da população periférica e as comunidades estão se virando para sobreviver. Nesse Brasil "invisível", cerca de 16% da população, ou seja, 31,1 milhões de brasileiros, não têm sequer a garantia da mais elementar necessidade dos cuidados com a saúde: água potável encanada. Quarto isolado, banheiro próprio e até termômetro e celular com crédito, é óbvio, para muitos ainda são artigos de luxo.

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Diante disso, o blog MULHERIAS elaborou um guia realista e popular para lidar com a Covid-19 em casas da quebrada. São informações recolhidas em manuais para especialistas de saúde e adaptados para linguagem leiga, adendos práticos feitos por profissionais de enfermagem e médicos, agentes comunitários e redes que se auto-organizaram e criaram seus próprios protocolos básicos. 

"Quem busca atendimento e é liberado para se tratar em casa e não recebe sequer um folheto de orientação com que é para fazer. Em teoria, todo mundo estaria sendo acompanhado à distância por profissionais do SUS, mas o que acontece é que faltam trabalhadores e estrutura de atendimento para que esse acompanhamento seja feito da forma correta", diz a professora de enfermagem Natália Stofel, de 34 anos, que acompanha o impacto da pandemia nas comunidades enquanto orienta seus alunos em São Carlos, no interior de São Paulo, onde mora e dá aulas.

"A reorganização do sistema de saúde não foi feita pelo Ministério nem por milhares de Secretarias de Saúde, mas pelos próprios profissionais da linha de frente", explica a enfermeira que também trabalha voluntariamente em lugares carentes de todo tipo de atendimento. Em sua cidade, Natália conta que a solução foi formar um "comitê popular de crise" para debater os problemas e propor soluções com representantes da população e técnicos da área de saúde. "O grupo oficial que o Estado montou não tinha ninguém da área técnica. Não adianta. A iniciativa que está dando certo e está sendo levada à frente foi feita pelo movimento negro aqui da região."

As mesmas críticas são feitas pelo agente comunitário de saúde Adailton Costa, de 27 anos, que trabalha em Santarém, no Pará. Há seis anos no ofício pelo SUS, ele explica que sua categoria profissional é formada por pessoas que moram nas comunidades e são contratadas para acompanhar a saúde de seus vizinhos, fazendo visitas, levando medicação gratuita, monitorando sintomas de doenças diversas para, se for o caso, encaminhar pacientes para as Unidades Básicas de Saúde (UBS).

"É a chamada atenção primária, que tem caráter preventivo, e poderia ter sido uma ferramenta valiosa o combate à Covid-19 se os profissionais tivessem recebido apoio do governo na forma de treinamento e equipamentos para realizar esse trabalho durante a pandemia. Mas isso não foi feito." 

O agente de saúde Adailton, ao centro, com outras profissionais na linha de frente  do combate à pandemia: "temos que ser realistas: todos dizem para monitorar temperatura mas é mais comum do que se imagina as pessoas não terem termômetro em casa" (Foto: Acervo pessoal)

Adailton denuncia não só a falta de equipamentos de segurança, que arca por si com máscaras caseiras e chegou a perder uma colega de trabalho para a doença, mas de informações. "Os protocolos que determinam quais sintomas monitorar e tratar, como organizar o fluxo de atendimento em hospitais mudam com frequência e muitas vezes não chegam. Ficamos sabendo do que é para fazer com semanas de atraso. E isso por meio do Whatsapp quando colegas compartilham a versão que têm."

Em seu município, a população em geral conta apenas com uma linha de celular para oferecer orientações sobre a doença. "É um único número para atender ligações de 300 mil moradores. Vive ocupado, claro, ninguém consegue falar", conta. "Temos que ser realistas: todos dizem para monitorar temperatura mas não é comum as pessoas não terem termômetro nem nas comunidades! E as dúvidas são muitas vezes simples, como lavar roupas de uma pessoa doente."

Guia popular para tratamento de Covid-19 em casas de periferia

Infelizmente ainda não temos um remédio para tratar a infecção pelo Sars-CoV-2, o novo coronavírus causador da Covid-19. Mesmo a cloroquina, que até o presidente Bolsonaro já admitiu não ter comprovação de que funciona, parou de ser testada pela Organização Mundial da Saúde como tratamento por aumentar a mortalidade entre as pessoas doentes.

O que é feito em casos leves, então, é tratar dos sintomas para permitir que o próprio sistema imunológico do paciente dê conta de curar a doença. É preciso ajudar o corpo nessa empreitada com bastante água, boa alimentação, repouso, além de  tomar medidas para não infectar outras pessoas com quem se divide o espaço.

Antes de tudo, porém, é importante ter alguma calma. Mantenha a casa organizada e preparada dentro do possível. Reze, medite, conecte-se com crenças ou pensamentos reconfortantes e prepare-se de maneira racional para enfrentar a doença. Por fim, todos os profissionais envolvidos nesse Guia pedem o favor de compartilhar essas informações, que estão checadas e confirmadas com especialistas em saúde, com o máximo de pessoas possível, sendo solidário e podendo salvar muitas vidas.

Se você suspeita ou está com sintomas leves de Covid-19

  • Tenha em casa dipirona ou paracetamol para controlar a febre e ajudar na dor no corpo
    Os dois medicamentos são oferecidos gratuitamente pelo SUS. Converse com a sua agente comunitária de saúde para levar os remédios até você ou peça para alguém buscá-los na Unidade Básica de Saúde mais próxima à sua casa usando máscara ou cobrindo o rosto com uma camiseta de algodão. 

Foto: Getty Images

Não vá a hospitais ou UPAs a menos que tenha sintomas graves. Se você não estiver doente, em muitos hospitais corre o risco de se contaminar lá. Em caso de dúvidas para testagem ou se estiver precisando de remédios e não tiver em casa, procure o agente comunitária de saúde do bairro.

  • Monitore sempre a temperatura, se possível usando um termômetro

Há modelos por cerca de R$ 10. Mas caso não tenha, você conseguirá checar as variações de temperatura com a mão na testa ou por causa dos constantes calafrios. A febre causada pela Covid-19 costuma ser alta, é fácil de perceber. Para ajudar a ficar confortável e lidar com os sintomas, dipirona ou paracetamol são recomendados de 8 em 8 horas. Cuidado com os anti-inflamatórios (tipo ibuprofeno), que nos últimos anos viraram "bala" e algumas pessoas usam inocentemente para dores em geral e podem agravar quadro de Covid-19.

Em caso de tosse, uma mistura de limão e mel pode funcionar tão bem quanto alguns xaropes da farmácia. Então, dê preferência ao tipo caseiro num primeiro momento. Para os que são medicamentos, só use com recomendação médica pois alguns duplicam os analgésicos e é perigoso.

  • Tome bastante água, alimente-se bem e limpe tudo o que tocar com água e sabão

Se você ou alguém da sua comunidade sofre com desabastecimento de água, falta de comida ou produtos de higiene, peça ajuda. Sua casa precisará de água limpa e potável, comida e produtos de higiene. Os que estão saudáveis poderão mobilizar esforços para salvar a sua vida. Não tenha vergonha, quando tudo passar você retribuirá a atenção.

Quem está doente precisa beber no mínimo dois ou três litros de água por dia (que podem ser também na forma de chás, sucos ou sopas). Hidrate-se toda hora porque o vírus acomoda-se mais rápido em garganta seca.

Faça no mínimo três refeições por dia para o corpo se recuperar. Tenha um pequeno estoque de chás, canja de galinha, sopas diversas e sucos de limão, laranja e etc. Eles não fazem mal mas também não curam. São tão importantes quanto qualquer outra fonte de água e vitaminas para o seu corpo. Cuide bem dele, é ele que vai fazer todo o trabalho de te curar.

Não deixe faltar água e sabão pois tudo tocar precisará ser higienizado para não contaminar outras pessoas. Ou seja, mesas, balcões, móveis, torneiras e maçanetas de portas precisarão ser limpos constantemente.

  • Faça repouso

Todo doente precisa descansar e muito. Não saia de casa mesmo se começar a se sentir melhor. Toda pessoa com Covid-19 deve ficar isolada em repouso por 14 dias. 

Morador usa máscara na favela da Rocinha, no Rio Foto: Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images

O que fazer se você divide a casa com uma pessoa infectada

  • Tente isolar um canto da casa para o doente

Nem todas as famílias conseguem ter um cômodo separado para a pessoa infectada, mas é preciso fazer o possível para reduzir os riscos de infectar as outras pessoas que moram na casa. Mova móveis de lugar ou use um tapete para determinar uma área o mais isolada possível para o paciente. Tente limitar a movimentação da pessoa em isolamento domiciliar e minimizar ao máximo o compartilhamento de espaço. 

O contato entre as pessoas que moram juntas também deve ser feito com muito cuidado. Mantenha sempre 2 metros de distância, nunca deixe quem está doente dormir na mesma cama com outra pessoa. Todos na casa devem usar máscara ou pano de algodão cobrindo o rosto o tempo inteiro. 

  • Limite o número de cuidadores

O ideal é atribuir a função de cuidador a apenas uma pessoa, que esteja com boas condições de saúde, sem ser do grupo de risco. Em todos os contatos com o doente, o cuidador precisa estar sempre de máscara bem ajustada, que cubra a boca e nariz, e ter total atenção para não tocar nela durante o uso, além trocar a máscara quando ela estiver molhada.

A pessoa adoecida deve permanecer o maior tempo possível com a máscara. Se não tolerar, deve realizar rigorosamente cobrir a boca e nariz ao tossir ou espirrar com a parte de dentro do cotovelo, ou utilizando lenço descartável, e descartar os materiais usados para a higiene respiratória.

  • Ventile o ambiente e limpe tudo

Deixe as janelas sempre abertas para o ar circular e higienize com frequência móveis, aparelhos domésticos e maçanetas com água e sabão, álcool 70% ou água sanitária. 

Se tiver um umidificador, deixe perto do doente quando for dormir. Se não tiver, pode ligar o chuveiro na água quente ou fazer uma inalação com água quente numa bacia para respirar o vapor.

  • Crie a rotina de limpeza das mãos

Lave com água e sabão, respeitando os cinco momentos de higienização:
1 – antes de contato com a pessoa;
2 – antes da realização de qualquer contato ou procedimento;
3 – após risco de exposição a fluidos biológicos (como tirar a temperatura, ajudar a trocar de roupa ou alimentar-se);
4 – após contato com a pessoa;
5 – após contato com áreas próximas à pessoa, mesmo que não tenha tocado a pessoa, cuidando direta ou indiretamente da pessoa.
Enxugue as mãos preferencialmente com toalha de papel. Se não tiver, use toalha de pano limpa e troque por outra quando ela estiver molhada.

  • Deixe produtos de higiene no banheiro

No caso de banheiro compartilhado, é importante deixar produtos à mão para higienizar o local após cada uso da pessoa infectada. Tudo em que o paciente encostar, como vaso sanitário, descarga e torneira da pia e do chuveiro, deve ser higienizado com uma solução de água sanitária com água, álcool 70% ou esfregando água e sabão com uma buchinha.

  • Separe roupas e utensílios 

Pratos, copos e talheres devem ficar separados porque o vírus pode permanecer vivo nas superfícies por até três  dias. Separe também roupas de cama, sem nunca compartilhá-los. Estes itens deverão ser limpos com água e sabão após o uso e poderão ser reutilizados. A roupa contaminada para lavar precisa ficar num saco plástico separada das roupas dos outros integrantes da casa. Não agite e evite o contato da pele nessa roupa usada pelo doente. Tudo o que a pessoa com Covid-19 usar deve ser lavado com água e sabão em pó. Pode-se usar máquina de uso doméstico comum. Deixa todas as roupas secarem bem antes de usar de novo.

  • Visitas nem pensar!

Essa dica vale para todo mundo nesse momento, mas para casas com pessoas infectadas é ainda mais importante: não é a hora de receber visitas. Se alguém precisar entregar alguma coisa, a pessoa deve permanecer fora da casa. Se um morador ficar doente, todo mundo que mora com a pessoa deve ficar em isolamento por 14 dias.

Quando ir a um hospital ou ligar para o Samu (192) 

  • Um pouco de "cansaço" para respirar todos os doentes podem sentir, mas se isso se intensificar com dor torácica, respiração ofegante, sensação de desmaio, palpitações, vômito e febre alta é indispensável procurar assistência médica.
  • Se a febre estiver muito alta (a partir de 39ºC), não baixar com o uso de medicamentos antitérmicos (como a dipirona e o paracetamol), em caso de falta de ar ou se a pessoa aparentar ter dificuldades de falar ou raciocinar é hora de buscar atendimento. 
  • Febre alta será comum em algum momento mesmo nos casos que não complicarão. Mas é preciso buscar um médico no caso de febre maior que 39°C ou sem abaixar por 4 dias ou mais. Esse foi o critério adotado pela Prefeitura de São Paulo para internação em Hospitais de Campanha dos casos "leves" até aqui.
  • Cheque qual a unidade básica de saúde ou hospital de referência no tratamento da Covid-19 está mais perto. É importante chegar lá já de máscara ou com um pano de algodão enrolado no rosto para cobrir a boca e o nariz. Ali, a pessoa será encaminhada para uma área específica para suspeitos de Covid-19 para aguardar atendimento.
  • Ao ligar para SAMU 192 ou para o serviço de transporte hospitalar recomendado por um agente de saúde, informe que o paciente está em isolamento domiciliar por causa da Covid-19.

Fontes: Adailton Costa, agente de saúde de Santarém (PA), estudante de bacharelado interdisciplinar em Saúde da Universidade Federal do Oeste do Pará e membro do Sindicato dos trabalhadores em Saúde Pública do Estado do Pará (SINTESP); professora Natália Stofel, enfermeira pelaUniversidade Federal de São Carlos, doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de Pelotas e mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo; Rede de Apoio às Famílias de Vítimas da Covid no Brasil com base em orientações de médicos, enfermeiros e agentes de saúde voluntários, Ministério da SaúdeCentro de Operações de Emergência – Doença pelo Coronavírus (COE).

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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