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Greve de entregadores de apps: "ter comida e banheiro é o mínimo, né?"

Flávia Martinelli

26/06/2020 04h00

Bruna: (Foto: Acervo pessoal)

Bruna vai aderir à greve do dia 1º de julho. "Estamos pedindo condições mínimas de trabalho" (Foto: Acervo pessoal)

Com reportagem de Ariane Silva, especial para o blog MULHERIAS

"É complicado trabalhar por 12 horas na rua e não conseguir um lugar para usar o banheiro. Ainda mais sendo mulher", afirma Bruna, que prefere não divulgar seu nome por receio de represália. A entregadora de 33 anos é minoria no imenso contingente masculino da categoria profissional que fará greve por direitos e melhorias das condições de trabalho no próximo dia 1º de julho.

"Tenho filhos para cuidar, casa para sustentar. Passar o dia inteiro levando comida para os outros e não ter direito à água ou a uma refeição é uma questão que precisa ser conversada com as empresas. Não pode ser assim. Queremos o básico do básico", completa a motoqueira, que tem curso superior completo em recursos humanos, mas entrou para os apps por causa do desemprego no mercado formal.

A greve convocada em todo o Brasil faz parte de mobilizações que vão ocorrer em outros países, como Argentina, Austrália, China, México e Inglaterra. "Vou colar lá para conhecer outras minas motoca também, somos no máximo 10% dos entregadores", diz a entregadora Lalá, 23, que reivindica mudança na contagem de pontos de empresas que punem quem não trabalha aos fins de semana.

"Funciona assim: se você não trabalhar da sexta-feira a partir das 18h até domingo às 23h59 não acumula pontos. Aí, durante a semana, o mapa da cidade fica fechado, sem essa pontuação, impossibilita trampar. Mó lixo esse sistema", explica a motoqueira que, assim como Bruna, preferiu não se identificar porque sabe que as empresas sequer precisam dar explicações quando excluem um de seus "colaboradores". "É zoado."

Lalá, entregadora de App, vai aderir à greve para questionar o sistema que bloqueia o acesso ao mapa da cidade se o

Lalá, entregadora de app, vai aderir à greve para questionar o sistema que bloqueia o acesso ao mapa da cidade se o "colaborador" não trabalha aos fins de semana (Foto: Arquivo pessoal)

Para os apps, entregadoras e entregadores não são empregados, mas "colaboradores". Em comunicados oficiais, usam como sinônimos os termos empreendedores ou autônomos. Aplicativos de entrega também não se entendem como empregadores, ainda que hoje, juntos, empreguem mais mão de obra do que outros setores do país e sejam considerados como ramo de atividade essencial em meio ao isolamento social contra a pandemia do coronavírus.

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Os 3,8 milhões de pessoas que trabalham com aplicativos representam 17% dos trabalhadores sem contrato ou carteira assinada. Em 2019, quando os dados foram coletados, eram 23 milhões de trabalhadores nessa situação no Brasil de acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva e dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"Menos de R$ 1,50 por quilômetro não dá!"

Para Bruna, a questão da remuneração é outro ponto que chama a atenção.

"Tem dia que em 12 horas rodando tiro R$ 30. E já aconteceu de não ganhar nada também."

"Você sai de casa sabendo que está se expondo ao risco da Covid-19, sabe que o seu trabalho é essencial mas não faz ideia do quanto vai receber", conta a entregadora, que compara os valores que recebia na chegada dos apps no Brasil com as tabelas atuais.

"No começo, para atrair trabalhadores eles pagavam uns R$ 15 por uma corrida de 12 quilômetros, por exemplo.  Agora, você muitas vezes nem sabe a distância do local da entrega e só depois, fazendo as contas, percebe que recebeu R$ 9 por uma corrida nessa mesma distância! Não dá, não vale o custo e o risco. Tem que lembrar que toda manutenção da moto sai do meu bolso e, se eu tiver um acidente, vai ser tudo por minha conta. Num acidente, você comunica o aplicativo, eles te bloqueiam e pronto, problema seu."

"Somos autônomos, mas os aplicativos tiram essa autonomia de nós", diz Sorriso, da Associação dos Motoboys Autônomos e Entregadores do Distrito Federal (Foto: Acervo pessoal)

Alessandro da Conceição, o Sorriso, presidente da Associação dos Motoboys Autônomos e Entregadores do Distrito Federal, denuncia as políticas pouco transparentes de bloqueio aos profissionais. "Essa semana um entregador do iFood relatou que fez a entrega nas mãos de um cliente que, depois, alegou que não recebeu o pedido. No final do dia, o entregador estava bloqueado e com uma dívida. O cliente nesse caso recebe outro pedido. Isso é justo?", questiona. Não há recurso em caso para o motoqueiro e nenhum processo para investigar se a alegação do cliente é verdadeira. "Ficou bloqueado, fica sem trabalhar, tchau."

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Para a a jornalista Ana Guerra, que faz mestrado sobre lógica, operação e modelo de negócios de plataformas digitais, "tudo está envolto por um discurso que coloca a escolha nas mãos do trabalhador, caracterizado como microempreendedor, que deve se gerenciar como uma empresa e fazer escolhas lucrativas a partir de informações que os aplicativos disponibilizam". Empresas de grande porte dessa "plataformização", explica, "como a Uber, o iFood, etc., têm uma postura bastante predatória que acaba 'prendendo' os trabalhadores a elas por serem as únicas opções ou as mais funcionais."

O resultado, diz Ana, é a desorganização dos serviços que existiam no lugar, caso de taxistas ou entregadores contratados, que vêem seu trabalho precarizado e sem opção de retorno ao antigo patamar de condição de trabalho. "As plataformas se inserem no mercado com promoções a passageiros e incentivos financeiros a motoristas para fomentar uma base robusta de usuários da qual seu modelo de negócios depende. A princípio, pode ser uma boa alternativa em um país com altas taxas de desemprego, mas o que se cria é uma relação de dependência entre os trabalhadores e as plataformas."

Ana explica que os trabalhadores sabem que as condições são precárias e que estão sendo explorados, mas ficam sem ter para onde ir. "Como as plataformas têm a vantagem tecnológica, a possibilidade de oferecer descontos e a base de usuários, é difícil que alternativas mais justas e iniciativas dos próprios trabalhadores consigam prosperar."

A greve, portanto, tem a intenção de discutir até que ponto o modelo de negócio é humanamente respeitável e digno para toda a sociedade. Nessa semana, a página de reivindicação de direitos Treta no Trampo do Instagram, prestou homenagem a todos os trabalhadores autônomos que foram vítimas do coronavírus.

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Nem todos os consumidores, porém, se seduzem apenas pelo preço das entregas. A diretora de planejamento Marcela Geoffroy, de 32, tem utilizado sua formação como comunicadora e relações públicas para ajudar como pode a paralisação dos entregadores. "Acho a paralisação mais do que justa, inclusive acho que demorou", afirma. Ela ressalta o "limbo jurídico" em que a categoria se encontra, sem nenhuma garantia de direitos trabalhistas e que hoje se vê rendida às plataformas.

 

Provocada como usuária diante das reclamações e pautas da greve, Marcela conversou com motoboys e, com o endosso deles, criou o movimento #1DiaSemApp para fortalecer a paralisação no dia 01/07 (Foto: reprodução Facebook)

Provocada como usuária diante das reclamações e pautas da greve, Marcela conversou com motoboys e, com o endosso deles, criou o movimento #1DiaSemApp para fortalecer a paralisação no dia 01/07 (Foto: reprodução Facebook)

Ainda que clientes de apps que apoiam sejam poucos, ela acredita que a participação do consumidor é fundamental para pressionar o setor. "Deixar de usar os aplicativos no dia 1 é uma maneira de demonstrar que nos importamos com a segurança e os direitos dessas pessoas tão fundamentais nessa pandemia. Para muitos, e principalmente para grupos de risco, são eles que permitem o isolamento social."

Outro lado

A reportagem do blog MULHERIAS procurou os aplicativos iFood e Uber para saber suas posições sobre as denúncias e reivindicações dos entregadores, mas não teve resposta.

Para saber mais, confira o tretanotrampo e a #1DiaSemApp 

Sobre o autor

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Sobre o blog

Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Porque periferia não é um bloco único nem tem a ver com geografia. Pelo contrário. Cada uma têm sua identidade e há quebradas nos centros de qualquer cidade. Periferia é um sentimento, é vivência diária contra a máquina da exclusão. Guerrilha. Resistência e arte. Economia solidária e make feita no busão. É inventar moda, remodelar os moldes, compartilhar saídas e entradas. Vamos reverenciar nossas guardiãs e apresentar as novas pontas de lança. O lacre aqui não é só gíria. Lacrar é batalha de todo dia. Bem-vinda ao MULHERIAS.

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