Mulherias http://mulherias.blogosfera.uol.com.br Esse espaço de irmandade registra as maravilhosidades, os corres e as conquistas das mulheres das quebradas de São Paulo, do Brasil e do mundo. Wed, 22 May 2019 07:00:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Mulheres das periferias serão prejudicadas pela reforma da Previdência http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/mulheres-das-periferias-serao-prejudicadas-pela-reforma-da-previdencia/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/mulheres-das-periferias-serao-prejudicadas-pela-reforma-da-previdencia/#respond Wed, 22 May 2019 07:00:23 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2299

A operadora de telemarketing Indara, de 33 anos, e a diarista Maria Olinda, de 65, têm em comum uma mesma dificuldade: contribuir regularmente com a Previdência Social. Economistas analisaram os casos e concluíram que o fato de serem responsáveis pelos cuidados de filhos e família vai impactar ainda mais na hora da aposentadoria (Fotos: Acervo Pessoal e Marlene Bergamo/Divulgação)

Por Cecília Bacha, especial para o blog MULHERIAS

Mãe de um menino de dois anos, Indara Bitencourt tem 33 anos, é operadora de telemarketing e mora na Vila Yolanda II, na zona Leste de São Paulo. No outro extremo da cidade, a diarista de casas de família Maria Olinda da Costa Ferreira, da Vila Nova Cachoeirinha, completou 65 anos no dia 11 de abril, e conta com orgulho que criou suas “três filhas sozinha”. Apesar de Indara estar casada e educar o filho ao lado do marido, além de mães e periféricas, elas têm em comum a dificuldade de contribuir regularmente com a Previdência Social. E o que era difícil, de acordo com os economistas ouvidos pelo blog Mulherias, pode ficar inalcançável se a reforma apresentada pelo governo for aprovada sem modificações pelo Congresso Nacional.

Hoje, pelas regras atuais, trabalhadores urbanos podem se aposentar ao completar por tempo de contribuição. São 30 anos de pagamento para mulheres adquirem o direito e 35 anos para eles, sem restrição de idade nos dois casos. Outra possibilidade é por idade mínima: de 60 anos para elas e 65 para eles, desde que haja pelo menos 15 anos de pagamentos para a Previdência.

Essa última modalidade, a da aposentadoria por idade, é o modelo mais comum entre as brasileiras – segundo dados do Anuário Estatístico da Previdência Previdência Social de 2017, publicado em novembro de 2018. Entre os beneficiados por tempo de contribuição apenas 31,9% eram mulheres.

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A diferença, explica a economista Leda Paulani, é a “realidade vivida por mulheres do mundo todo: elas são as  responsáveis pelos cuidados familiares e domésticos e isso dificulta se manterem empregadas”. Professora do Departamento de Economia e da Pós-graduação da FEA/UPS (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), esses fatores são potencializados se pensarmos que “são nas periferias que se encontram o maior número de trabalhadoras precarizadas, na informalidade ou sem carteira assinada”.

Na nova proposta, para que se aposentem pela Previdência Social, as mulheres deverão ter a idade mínima de 62 anos (aumento de dois anos) e terem contribuído ao menos 20 anos (aumento de cinco anos), além de terem perdido, assim como os homens, a possibilidade de se aposentarem pelo tempo de contribuição.

Para a diarista Maria, as regras apresentadas pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL) não farão mais diferença. Ela entrou com pedido de aposentadoria logo após o seu aniversário e tem direito adquirido.  “Quando fui atendida, o rapaz achou minhas contribuições antigas, mas ele disse que era pouco, que não dava para contar tempo de serviço”.

Se tudo der certo, ela passará a receber um salário-mínimo, R$ 998 mensais, pelo o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que atende pessoas que nunca contribuíram com a previdência, seja por estarem em situação de pobreza a partir dos 65 anos ou por deficiência. Porém, caso a proposta de reforma entre em vigor, num caso como o de Maria o benefício seria reduzido a R$ 400 até os 69 anos. Só a partir dos 70, o valor do BPC será de um salário-mínimo.

A diarista Maria diz que parou de pagar a contribuição previdenciária quando uma das filhas ficou doente e precisou pagar por sua internação. “Eu preferia visitá-la todos os dias e não sobrava dinheiro. Depois os problemas da vida foram acontecendo e, você sabe como é, paga uma coisa aqui, outra ali e o dinheiro acaba antes do fim do mês.” (Foto: Marlene Bergamo/Divulgação)

O economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito, compreende o caso de Maria e de tantas outras trabalhadoras. “As mulheres da periferia deixam de trabalhar e contribuir não por serem dondocas, que com certeza não é caso delas, mas por falta de creche para deixar o filho pequeno, por exemplo”, explica.

 

“O Heitor ficou doente e precisou ficar em casa sete dias. Não aceitaram o atestado médico no nome dele no meu trabalho. Disseram que  só seria válido se fosse para mim”, conta a profissional que pretende pedir demissão se o impasse não se resolver. (Foto: Acervo Pessoal)

De fato, a operadora de telemarketing Indara atualmente se vê com dificuldades de equilibrar o emprego com carteira assinada e as necessidades do filho pequeno, de dois anos. “Sei que a contribuição é importante para meu futuro. Penso muito nisso. Mas se eu ficar sem emprego, sempre tem outras coisas para pagar antes da previdência”.

Indara começou a trabalhar aos 18 anos e não sabe quanto tempo tem de contribuição para a Previdência. Sabe apenas que, aos 33, no passado, antes de ter o filho, a doença da mãe foi outro motivo que a afastou do trabalho por mais de uma vez.

“No Brasil, mais de 40% da população trabalha sem carteira assinada”, explica a professora Leda Paulani. Se der sorte de continuar a encontrar empregos formais, há chances de Indara se aposentar na modalidade por tempo de contribuição. Mas, se encontrar obstáculos como a doença do filho, terá que estar preparada para momentos sem contribuir. Caso tenha que ser autônoma, tendência cada vez mais evidente no mercado, a probabilidade de engrossar a lista dos idosos desprotegidos será enorme.

Em que pé está a reforma?

Em trâmite na Câmara Federal desde fevereiro, a reforma da Previdência foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça. Dos 48 votos a favor da sua constitucionalidade, apenas quatro foram de mulheres. Nesta etapa, somente quatro pontos do texto original foram alterados. Nenhum deles diz respeito a peculiaridades da vida das mulheres. Para que o projeto entre em vigor, é preciso ser aprovado ainda em Comissão Especial, etapa em que ele tramita neste momento, e em plenário, onde precisa ser aprovado em duas votações com o aval de três quintos dos 513 deputados em votação nominal, o equivalente a 308 votos. Entre os deputados eleitos em 2018, apenas 77 são mulheres, o equivalente a 15% do total.

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Filosofia combate o embrutecimento, diz mãe de Criolo, filósofa e educadora http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/12/filosofia-combate-o-embrutecimento-diz-mae-de-criolo-filosofa-e-educadora/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/12/filosofia-combate-o-embrutecimento-diz-mae-de-criolo-filosofa-e-educadora/#respond Sun, 12 May 2019 07:56:27 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2247

Grupos organizados por mãe de Criolo que se encontram para discussões Foto: Reprodução/Instagram

Com reportagem de Hysa Conrado, especial para o Blog MULHERIAS

Maria Vilani Gomes, de 68 anos, é uma educadora que faz florescer arte no bairro do Grajaú, periferia do extremo-sul de São Paulo. Nascida em Fortaleza (CE), chegou na metrópole paulistana com 23 anos em busca de uma vida que destoasse da fome e da miséria. Em 1990, criou o Centro de Arte e Promoção Social (CAPS), um espaço que promove o pensamento humano através da filosofia e da arte. E isso bem no meio do nada, num local onde não tinha asfalto nem saneamento básico, mas que abriga uma grande efervescência cultural com rappers, grafiteiros, escritores e cantores. Deste cenário surgiu um dos grandes nomes do rap nacional, o cantor e compositor Kleber Cavalcante, o Criolo, a quem ela carinhosamente chama de “Klebinho”, seu filho.

A professora que se formou em filosofia e publicou cinco livros, voltou para a escola já adulta para terminar o Ensino Médio na mesma sala que o filho rapper. Mas mesmo nessa época tinha apego pelo filosofar e começou a incentivar discussões dentro do CAPS. Atualmente, existem as rodas de estudo “Pingado Filosófico com Notas Musicais” e “Café Filosófico”, que acontecem sempre no primeiro sábado do mês e discutem a filosofia e suas teorias através da música e já chegou a reunir mais de 30 pessoas.

Com atividades diárias e gratuitas, o centro de artes se mantém através da contribuição dos próprios diretores que pagam um valor mensal para custeio das despesas e do aluguel. Há também o lucro da venda de camisetas customizadas e do “Capsianos”, um selo editorial que publica autores da periferia e os próprios livros da Dona Vilani. Além das rodas de estudo sobre filosofia, há atividades que abordam a história da mulher, direitos humanos, também oficinas de escrita e saraus. Nessa entrevista, Dona Vilani, como é conhecida, explica como a arte e a filosofia são necessárias para as periferias.

 

 

No barraco em que a família morou nos anos 1980 Clayton e Kleber: Foto: Acervo Pessoal

O que a fez permanecer no Grajaú depois do sucesso do Criolo?
Eu vim pro Grajaú quando não tinha pra onde ir. O Grajaú me acolheu. Cheguei em São Paulo como a maioria dos nordestinos naquela época: sem nada no bolso, com um monte de sonhos na cabeça e sem ter pra onde ir. Vim para casa de pessoas conhecidas da minha mãe em busca de emprego. Eu havia casado recentemente e queria ter filhos. Chegou um momento que eu poderia ter saído daqui, só que eu já estava enraizada. O Grajaú é o meu país. Houve uma transformação em mim quando eu mergulhei nessa quebrada, quando eu comecei a criar. Em 2009 criei o “Café Filosófico” e veio um jornalista falar comigo assim “mas você vai criar um café filosófico na periferia?”, e eu comecei a chamar o povo pro café e eles perguntavam “café com o que?” e eu levava garrafões de café, bolacha. E hoje eu não coloco um café e as pessoas vão filosofar.

Em todos esses anos, a senhora tem noção de quantas pessoas ajudou a descobrir esse potencial artístico?
Não tenho, foi muita gente. Aqui no CAPS a gente deixa as pessoas muito livres, as pessoas vêm, vão e voltam quando bem querem e entendem. Nós temos cotidianamente um projeto que se chama “Rodas de construção de conhecimento”, temos um “Pingado filosófico com rodas musicais”, que é um filosofar sobre música para pessoas a partir dos 13 anos. No segundo sábado acontece um ateliê de escrita que é um projeto em que trabalhamos ciência e poesia. No terceiro sábado, tem roda de poesia e no último do mês ocorro o segundo módulo do ateliê de escrita que é para aprender a escrever crônicas. Nesse aí, o professor é o meu filho mais velho, o Clayton Cavalcante. Temos também a roda das psicologias, que é um estudo das mais variadas correntes da psicologia. A proposta é a promoção humana, pensar o ser humano e eu sou a coordenadora de tudo isso. 

Como nasceu o Centro de Arte e Promoção Social (CAPS) e como se deu a transformação cultural que a senhora promoveu no Grajaú?
Eu era uma mulher da periferia, num bairro sem asfalto, com saneamento básico precário, transporte precário e faltava tudo. E eu queria o mínimo para os meus filhos. Quando criamos o CAPS na minha cozinha o motivo era trazer arte para dentro de casa, para que meus filhos não crescessem embrutecidos pela nossa sorte de gente com pouco poder aquisitivo. Grajaú tem gente oriunda de todo lugar que você possa imaginar. E como o poder de criação é imanente ao ser, esse povo se juntou aqui e um começou a mostrar para o outro o que sabia fazer. E aí as dificuldades de ir buscar arte e cultura fora do Grajaú juntou a fome com a vontade de comer.

Como foi fazer esse centro cultural?
Não foi uma coisa premeditada. Eu tinha um trabalho no final dos anos 1980 com crianças, uma recreação infantil numa casa de fundos. Por meio dessas crianças conheci as mães e a arte que elas faziam: o artesanato, que valorizo e classifico como arte. Propus para essas mães a criação de uma oficina e feira comunitária de artesanato para se integrarem e fui procurar artistas no bairro subirem num palco para animar o evento. Acabei descobrindo uma infinidade de artistas no bairro! Então percebi que a gente não podia fazer só uma feira e, sim, um centro de artes.

O acesso à arte faz a diferença na criação dos filhos?
Meu Deus! Toda. Meus filhos todos são muito sensíveis, são dedicados à arte, carregam valores humanos indispensáveis à convivência em sociedade e em relação a si próprio, em relação a como viver consigo mesmo. Então foram sementes que foram plantadas, que a arte e a cultura nos ajudou a plantar e a regar.

Foto: Reprodução/Facebook

Quais os desafios de ser mãe na periferia?
Ser mãe é um desafio em qualquer lugar do mundo e principalmente na periferia porque a gente tem pouco ou quase nada de amparo quando se trata de saúde, de uma alimentação adequada e de cuidados no desenvolvimento da sensibilidade. A miséria destrói a sensibilidade. A gente tem como potência mas tem que dar muitos pulos e desatar muitos nós para desenvolvê-la.

E a senhora acha que a sociedade está se tornando mais insensível?
Insensível não, mas acredito que as pessoas estão exauridas pelo cansaço, pelas demandas, pelas exigências do dia a dia, pela exploração do ser humano. Eu nos vejo muito explorados e também exploramos o outro.

Explorados pelo trabalho?
Nós exigimos uns dos outros e não percebemos. Não falo só do patrão que explora seu empregado, mas da exploração mútua entre nós. Sempre estamos exigindo do outro muitas vezes aquilo que não conseguimos dar.

O que a senhora acha da tentativa de tirar a filosofia do currículo escolar?
Desconhecimento do real significado da filosofia não só no currículo escolar, mas nas esquinas, nos bares, nos clubes, nas ruas, nos balneários. Filosofia deveria estar em todos os lugares porque filosofar é pensar e o pensamento é um privilégio do humano. Nós aprendemos a criticar, mas não entender o porquê da nossa crítica.

Em São Paulo, com os filhos Clayton e Kleber, e o marido Cleon. Foto: Acervo Pessoal

Qual a avaliação que a senhora faz da forma como o governo atual tem tratado a educação?
Toda vida que há mudança no governo isso reverbera nas pontas, em tudo que é lugar. Acredito que a forma de pensar de quem está lá em cima deve ser uma energia para nós continuarmos resistindo a toda e qualquer negação do humano. Porque quando você trata mal a educação, a cultura, a arte, você está negando a humanidade que existe em nós. E nós, que percebemos isso, não devemos aceitar. E como é não aceitar? Continuar trabalhando pela humanização do ser. Porque a arte emana do ser e o poder é transitório. Esmorecer jamais.

Como a filosofia pode mudar o contexto da periferia?
Nós temos no CAPS um “Pingado Filosófico com Notas Musicais”, que é um filosofar sobre a música. Atualmente estamos estudando música medieval. Eu confesso que o público é pequeno, mas nós somos resistentes e continuamos. 

Como foi educar meninos e homens?
Permiti que acontecesse uma via de mão dupla entre nós, acho que foi uma coisa muito democrática. Eles aprenderam muito comigo, não tenho a menor dúvida, mas eu aprendi muito com eles. Mas partiu de mim essa abertura, quando eu cheguei pro meu filho e falei “eu tô estudando na mesma sala que você, mas fica tranquilo porque aqui eu sou apenas sua colega”. Um dia um professor veio falar que um dos meus filhos estava com o pé em cima da carteira, eu perguntei “Quem? Ah professor, o senhor me desculpa, mas eu não tenho filhos aqui, no dia da reunião de pais a gente conversa sobre isso”. O que a gente tem que fazer é se abrir para novas possibilidades de convivência. Quando você controla, segura e se acha o dono da verdade, você fica só solidão.

Tem alguma coisa que a senhora faria diferente hoje em relação a criação deles?
Agradeço a Deus todos os dias por ter me dado os filhos que eu tenho. Eu fui para a escola com eles e eu tinha todas as dificuldades do mundo, mas eles me ensinavam as lições. O outro que trabalhou como office boy me ensinou a conhecer as ruas. E hoje o meu filho mais velho está me ensinando a escrever crônicas, que é um gênero que eu não domino de jeito nenhum. Já Klebinho me ensina um porção de outras coisas, quando eu vejo as reflexões dele acerca da conjuntura eu penso “meu Deus!”. Se você conversar com a professora Cleane, que é minha outra filha, professora de língua portuguesa e inglesa, ela poderia ser uma historiadora de tão antenada que é.

A senhora se considera uma mãe coruja?
Eu acho que é uma coisa trocada. Eles são corujas e eu também. É uma ligação muito bonita que tem entre mim e meus filhos. Eles realmente fizeram a diferença na minha vida, eu não sei se eu seria quem eu sou se não fossem eles. Eles nortearam a minha vida.


“Ele levou para o palco aquilo que a gente é, aquilo é intimidade”, comenta Dona Vilani sobre o dia em que Criolo recitou um dos seus poemas do livro “Varal”.

Como foi a primeira vez que eles leram um livro da senhora? Eles a incentivaram a publicar?
Nós fizemos um evento de teatro no CAPS e o primeiro texto que o  Kleber interpretou quando era adolescente era meu. Era um poema que se chama “Proeza”, que está no livro “Varal” e foi lindo. O Clayton já musicou letras minhas e cantou nos eventos.

Por que o seu próximo livro se chama “Abscessos”?
Tem um poema no livro que leva esse nome. Mas abscesso é muito mais para retratar como estou me sentindo nesse momento, mergulhada em um abscesso, que tá lá com algo infeccionado, latente, que a qualquer hora pode estourar, sabe? É medo, é angústia, solidão em virtude da individualidade, cada um por si num egoísmo muito grande. 

Formatura do Ensino Médio, Dona Vilani e Criolo. São Paulo, 1992.

Quais são suas referências literárias?
Bebo mais na fonte de filósofos que de poetas. Eu gosto muito de Schopenhauer e Nietzsche. Mas tem alguns poetas que eu me apaixonei, como Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector e Rachel de Queiroz. Mas inspiração mesmo eu tenho nos poetas da minha quebrada. Tem uma menina aqui no bairro que faz parte do Sarau Sobrenome Liberdade, ela se chama Michele Sanz, ela é maravilhosa e me inspira. Tem o Márcio Ricardo, Luiz Semblantes e muitos outros. Eu gosto de poetas que transmitem essas sensações de “eu vivi isso” e na hora que declama vive de novo. 

A senhora se considera uma mulher feminista?
Sou uma mulher que combate dia e noite o machismo, mas o machismo que existe no homem e na mulher. Eu não consigo fazer o clube da Luluzinha e do Bolinha, eu sou a favor de que homens e mulheres caminhem de mãos dadas. Precisamos lutar contra isso que existe no homem e na mulher, não contra o homem ou contra a mulher. É uma construção cultural que tá enraizada no imaginário e isso é muito difícil de extirpar. Eu criei uma roda que se chama “Roda de estudo da história da mulher” e eu sempre convidei mulheres e homens, numa época em que os grupos feministas só chamavam mulheres para conversar. E eu dizia “os nossos homens precisam saber dos nossos anseios, das nossas dores, daquilo que nos incomoda, vamos chama-los para escutar”. Vamos chamar aqueles que nos causam dor e vamos dizer para eles que entendemos que ele é tão vítima quanto nós. A gente tem que pensar com muito mais seriedade essas pessoas que não são mais ignorantes em relação ao machismo e continuam machistas. Então se isso for o feminismo, eu sou feminista.

Maria Vilani homenageou a cantora Clara Nunes no evento “Especial Poeta”, realizado pelo CAPS nos anos 1990. Foto: Reprodução/Instagram

A senhora tem medo do Criolo ser exposto na internet por causa de algum erro machista?
Quem está na vidraça vai levar pedrada uma hora. Eu como mãe, estou sempre orando e pedindo a Deus para protegê-lo. Quem diz o que quer, ouve o que não quer.

A senhora corrige seus filhos por atitudes machistas?
Eu acho que nunca me preocupei em repreender nessa coisa da fala. Me preocupei muito mais com exemplos. Os meus filhos homens e mulheres aprenderam a varrer casa, tirar pó, a lavar banheiro, lavar louça, a cozinhar e lavar roupa. Nunca houve essa coisa de trabalho de homem e trabalho da mulher e nisso eu tive o apoio do meu marido. Ele sempre me ajudou muito. Ajudou não, porque não gosto desse termo. Ele sempre contribuiu com as tarefas domésticas. 

Fale um pouco mais do relacionamento da senhora com o seu marido.
Minha filha, não tem muito o que falar. É uma vida de sacrifícios, comunhão no sentido de bem comum e felicidade dos filhos, que é a nossa também. Até hoje nós trabalhamos pelo bem desses filhos, os elegemos como nossa prioridade e assim vamos vivendo. Espero que Deus permita que vivamos mais 45 anos.

“Espero que Deus permita que vivamos mais 45 anos”, diz dona Vilani quando perguntamos do seu relacionamento com o Cleon. Foto: Reprodução/Instagram

Depois da faculdade de Filosofia, a senhora continuou a estudar?
Fiquei uns quatro anos só lecionando. E depois fui fazer junto com meu filho mais velho uma especialização em Língua, Literatura e Semiótica. Semiótica é muito difícil, mas eu gosto. E depois eu fiz uma especialização em Filosofia Clínica, Pedagogia com extensão em supervisão escolar, fiz um aperfeiçoamento em psicanálise, infância e educação, e fiz psicopedagogia. Eu gosto de estudar. Mas vou dizer uma coisa pra você: eu tenho muita dificuldade porque a minha formação foi toda defasada, não tive o acompanhamento adequado, mas isso não quer dizer que eu não goste. 

Foto: Reprodução/Facebook

O que mudou pra senhora em relação a ser mãe?
Eu sou de uma época que as mulheres não participavam do processo de registro dos filhos, eram os maridos que faziam. Hoje as mulheres já saem do hospital com a certidão na mão, isso é maravilhoso! Deus me permitiu viver pra ver isso. É dando a oportunidade a mulher de também escolher. Eu já vi muita mãe ganhar bebê e o marido chegar com a certidão de nascimento e ela ficar doente, porque não era o nome que ela queria. Eu criei meus filhos em uma periferia, numa época de muita violência, de muitas carências. Eu estava conversando com uma amiga que teve 13 filhos e ela falou “Vilane, eu não perdi nenhum!” e eu disse “eu também não!”. O orgulho da gente é esse, de não ter perdido os filhos para as coisas desagradáveis que a vida oferece, para a porta larga.

Como a senhora se sente quando a procuram por ser mãe do Criolo?
Fico muito feliz, mas tento dizer para as pessoas que não sou a mãe do Criolo. Eu sou a mãe do Kleber e ele que criou o Criolo. Ele é o único responsável, porque eu não tive condições de ajudá-lo, não tive participação nessa aparição, nessa criação que é o Criolo. Então eu sou mãe mesmo do Kleber e ele carrega o Criolo. De uma certa forma ele me projeta. As pessoas me conhecem por causa dele e ser mãe dele é uma alegria, mas também uma responsabilidade muito grande. Porque ele realmente é um ser especial, iluminado.

Dona Vilani e Cleon. Foto: Reprodução/Instagram

 

 

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Um mês dos 80 tiros: perdi meu melhor amigo, meu amor e amante, diz viúva http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/um-mes-depois-do-assassinato-por-80-tiros-mulher-de-musico-fala-sobre-amor/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/um-mes-depois-do-assassinato-por-80-tiros-mulher-de-musico-fala-sobre-amor/#respond Wed, 08 May 2019 16:25:09 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2191

“No nosso último passeio fomos para Búzios passar o Carnaval juntinhos”, diz Luciana Foto: Acervo Pessoal

 

Com reportagem de Hysa Conrado, especial para o blog MULHERIAS

Trinta dias depois do assassinato brutal de seu marido, a técnica de enfermagem Luciana Nogueira Rosa, de 41 anos, faz um pedido: “Preciso fazer uma homenagem a ele. Quero falar do grande amor da minha vida e da falta que ele me faz”. A mensagem de texto que ela mandou para a reportagem trazia, além dessas palavras, dezenas de fotos ao lado de Evaldo Rosa dos Santos, morto depois que oficiais do Exército em Guadalupe, no Rio de Janeiro, desferiram cerca de 80 disparos de fuzis contra o carro que a família estava.

Quando começamos nossa conversa com Luciana pelo telefone, sua voz estava embargada e trêmula: “Ele não merecia o que aconteceu. Muitas vezes, meu Duda não deixava nem eu ter atitude de mãe [risos], porque ele queria estar à frente de tudo. Em sete anos, nunca levei meu menino no médico sozinha porque o Duda estava junto em todo o momento. Ele ia na reunião de escola e meu filho falava: ‘nossa mãe, mas lá só tem mulher’. Eu respondia que isso só mostrava que ele tinha um pai presente. “

Nove militares atiraram contra o carro em que Evaldo estava com a mulher, o filho de sete anos, uma afilhada do casal, de 13, e o sogro dele. A família estava indo para um chá de bebê. Nesta entrevista exclusiva ao blog MULHERIAS, Luciana precisou fazer longas pausas para conter o choro. “Você alguma vez sentiu o seu coração doer de sofrimento? O meu dói muito.”

Além de tocar cavaquinho, Evaldo, cujo apelido no meio musical era Manduca, trabalhava como segurança e foi camareiro no Projac, da Rede Globo, nos programas “A Grande Família”, “The Voice” e em algumas novelas. Foto: Arquivo pessoal

Luciana, sinta-se à vontade para prestar a sua homenagem.
Eu perdi o grande amor da minha vida. Eu e o Duda nos conhecemos quando eu tinha 14 anos. Ele foi o meu melhor amigo, meu grande amor, cúmplice, amante, parceiro. Durante os 27 anos que ficamos juntos, nunca nos separamos, nunca ficamos sem nos falar. O Duda fazia tudo por nós. Ele me deixava todos os dias no metrô, me fazia homenagem quando a gente ia no pagode, ia levar e buscar nosso filho no colégio todo dia. Imagina uma criança de apenas sete anos diante de tudo isso? Meu filho me diz, com os olhos cheio de lágrimas, ‘mamãe, eu vi tudo e eu sei de tudo’. Tenho que ter forças para engolir o choro e dizer ‘filho, nós estamos juntos até o fim’.

“Aos poucos fomos amadurecendo. A gente juntava dinheiro pra poder comprar lanche no Dia dos Namorados. Nosso primeiro carro foi um Chevette, que compramos com um  dinheirinho muito suado” Foto: Acervo Pessoal

Duda cuidava muito de mim, eu não podia dar um espirro. A gente sabe que uma hora vai morrer, de doença, de infarto. Essa perda te dói, lógico. Mas perder da forma como eu perdi? Tão violentamente, do meu lado, e eu não poder fazer nada… Fechar os olhos e reviver aquele momento do jeito que foi, do lado do meu filho! A minha vida nunca mais vai ser a mesma. Agradeço a Deus todos os dias por ter colocado a melhor pessoa do meu lado. 

O governo do Rio de Janeiro está prestando assistência à família da senhora?
Não, não. Tenho apoio dos amigos, dos colegas de trabalho e da família; a base de tudo. São essas pessoas que estão me dando  forças para caminhar e não adoecer.

Nesses 30 dias, o que mudou na rotina da sua família?
Não consigo mais morar na casa em que eu vivia com ele. Parei de trabalhar e estou fazendo tratamento psiquiátrico e psicológico. Estou tomando remédio controlado para dormir, mas mesmo assim, tenho insônia. E o nosso filho pediu pra ficar longe da escola por uns tempos.

O que vocês gostavam de fazer juntos?
A gente corria contra o tempo para estar junto. Para dormir nós três juntinhos, agarradinhos, se cheirando. As festas da família, os aniversários, Páscoa, Ano Novo, era tudo na nossa casa. No Dia das Mães, meu marido sempre organizava tudo, saía para comprar as coisas, preparava a churrasqueira, a cerveja. E hoje não tenho mais nada… Tô falando isso e tremendo. No nosso último passeio fomos para Búzios passar o Carnaval juntinhos. A gente gostava muito de ir ao pagode da Tia Doca, no Cristo, de ir para Rio das Ostras e ao cinema com nosso filho. 

Pode nos contar das recordações bonitas que a senhora tem do começo do relacionamento?
Me lembro perfeitamente do dia que ele foi em casa pedir minha mão em namoro para o meu pai. Ele estava com uma bermuda branca, ele adorava vestir branco e sempre foi muito estiloso, e uma blusa vermelha. Meus pais consentiram e a gente viveu cada momento intensamente. A gente juntava dinheiro pra poder comprar lanche no Dia dos Namorados. Nosso primeiro carro foi um Chevette, que compramos com um  dinheirinho muito suado.

No atual cenário de guerra no Rio, a senhora tinha medo que algo tão terrível pudesse acontecer com a sua família?
Nunca. De assalto todo mundo tem medo. Mas da forma como aconteceu? Nunca imaginei, meu Deus… chego a ficar tremendo. Onde eu moro não tinha Exército. Eu não vivia em comunidade e não era comum encontrar militares na minha rotina. O que aconteceu foi num bairro vizinho.

A senhora acha que a cor da pele da sua família, negra, teve alguma influência no ataque dos militares?
Por sermos negros, não. Acho que foi despreparo. Não tinha porque ter acontecido aquilo. A gente estava a 20 quilômetros por hora, um carro lento, não tinha nada contra a nossa conduta; nada que fizesse a gente parecer suspeito. Quando paro pra analisar… É uma coisa surreal o que aconteceu.

Existe um estudo que mostra que um homem negro morre no Brasil a cada 21 minutos e que o risco de um negro sofrer violência policial é muito maior do que no caso de homens brancos.
Nunca pensei sobre o assunto. Sabemos que o preto tem sua discriminação, mas isso nunca incomodou a gente.

O que a senhora pensa sobre a postura que o Exército tomou diante da tragédia?
Não tenho mais o pensamento de que eles [o Exército] estão para proteger a gente. Mas eu não tenho acompanhado nada, tenho procurado ficar longe. Não assisto mais televisão. Quando entro nas redes sociais é só para postar a minha tristeza e a minha saudade. Quando as pessoas mandam alguma coisa, excluo porque senão eu vou adoecer. A minha alma dói. Preciso de forças para seguir, caminhar e cuidar do meu filho. 

A senhora postou no Facebook sua indignação sobre a declaração do presidente Jair Bolsonaro, que disse que o “Exército não matou ninguém”. Esperava outra postura dele?
Olha, eu acredito que às vezes a pessoa fala sem pensar e não se põe no seu lugar. Mas eu acredito que Deus está trabalhando e vai tocar no coração de cada um.

Post de Luciana no Facebook que comenta a declaração do presidente Foto: Reprodução

Que diálogos a senhora tem com Deus?
Eu questiono: “meu Deus, por que o senhor não me levou? Poxa, Senhor, por que me deixou?” Eu até peço perdão aos meus familiares quando tenho esse pensamento, mas acho que assim eu não teria tanta dor. Também fico pensando que eu e o meu filho poderíamos estar lá com nosso Duda. Porque eu e o meu filho e as pessoas que estavam comigo [no carro], nós somos um milagre. Mas, gente, dói muito, na alma. Vejo meu filho sofrer e sofro de novo também. Você alguma vez sentiu o seu coração doer de sofrimento? O meu dói muito.

A senhora está com algum tipo de assistência jurídica?
Estou sendo acompanhada, tudo direitinho. Tenho um advogado mas não posso declarar nada [o processo corre em segredo de Justiça]. Acredito na justiça divina e na dos homens. Minha certeza é que Deus está trabalhando por mim e pela minha família. Cada pessoa será responsabilizada pelos seus atos. Cada um vai responder pelo que fez. Porque isso que aconteceu é uma coisa nunca vista. Nunca.

O que a senhora consegue falar para seu filho, para tentar consolá-lo?
Tenho que dizer a ele o tempo todo que estou bem. Às vezes, deito um pouquinho e ele fala: “mamãe eu sei que você está com saudade. Eu também tô, meu coração tá doendo”. Eu estou muito perdida ainda. Tem uma música que define muito minha relação com o Duda. Chama “Além do meu querer”, é do Arlindo Cruz, e tem um trecho que diz: “Com você eu vivi o mais lindo sonho de amor e hoje eu vivo a chorar. Meu universo desabou”. 

“Com você eu vivi o mais lindo sonho de amor e hoje eu vivo a chorar. Meu universo desabou’. Foto: Acervo Pessoal

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Yoga na laje: mulheres do Capão Redondo mostram a prática sem gourmetização http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/04/26/yoga-na-laje-mulheres-do-capao-redondo-mostram-a-pratica-sem-gourmetizacao/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/04/26/yoga-na-laje-mulheres-do-capao-redondo-mostram-a-pratica-sem-gourmetizacao/#respond Fri, 26 Apr 2019 07:00:26 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2143

Quem disse que a prática de origem indiana é coisa para ricos ou pessoas “iluminadas”? Na quebrada da Vila Fundão, grupo de mulheres de 12 a 60 anos se encantou pelas técnicas que colocam o corpo em movimento e ainda estimulam o autocuidado, o equilíbrio e a consciência. (Foto: Divulgação Yoga na Laje)

Com reportagem de Monise Cardoso, especial para o blog MULHERIAS 

Bastam duas ferramentas para fazer Yoga: corpo e mente. Ainda assim, a atividade foi atingida pelo “raio gourmetizador” e faz muita gente acreditar que a prática indiana milenar é coisa de rico. Mentira. A moeda que mais coloca essa democracia em risco entre as mulheres da periferia é outra: o tempo. Via de regra, a rotina de horas perdidas na condução para o trabalho e o cuidado da casa e dos filhos consome os preciosos momentos que elas teriam para si.

Desde agosto do ano passado, porém, um projeto na Vila Fundão, distrito do bairro do Capão Redondo, no extremo Sul de em São Paulo, busca enfrentar esse desafio. Todos os finais de semana, o Treino na Laje reúne cerca de 30 mulheres que decidiram olhar para si e praticar as técnicas do Yoga na laje da ONG Perifa Ativa. A atividade é gratuita e conta com apoio da professora Sophia Bisilliat, de 56 anos, que começou a dar aulas de exercícios funcionais e, aos poucos, passou a introduzir o conhecimento ancestral e popular da Índia. 

A Yoga tem como fundamento evocar o equilíbrio e a consciência, estimula princípios de autocuidado, além de botar o corpo em movimento”, diz Sophia. São benefícios que valem para todos, não é mesmo? “As alunas acabaram dando um jeito de aquele momento ser delas. Deixam o filho com marido, com a mãe, o vizinho. E é incrível, porque elas ficam se sentindo, até se maquiam pra fazer o treino”, conta.

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E haja disposição! O treino tem duração de três horas e inclui um circuito completo de atividades. O primeiro exercício é sempre uma caminhada pelo bairro. A prática reunia apenas mulheres, mas logo chamou a atenção de algumas crianças que passaram a acompanhar a caminhada de bike. “Hoje tem uma galera que vai de bicicleta para o treino, inclusive, já conseguimos a doação de mais de 30 bikes, além de vários mecânicos parceiros”, conta Sophia.

Quem faz as atividades elogia. A vendedora Diolanda da Rocha Lopes, de 32 anos, garante que realmente funciona. “Agora eu respiro bem fundo antes de gritar com meu marido ou meus filhos”, ri. Ela foi a primeira aluna do Treino na Laje e aproveitou sua popularidade na quebrada para aumentar o número de alunas. “Saí fazendo boca a boca na rua, conversando com uma e outra e daí surgiram as 30 interessadas. Temos até um grupo de WhatsApp”, diz.

Passados oito meses de prática, a vendedora Diolanda conta que sentiu a melhora nas dores causadas pela musculação, único exercício que costumava praticar. “Nós não tínhamos noção do que era Yoga, eu mesma acreditava que fosse só meditar.” Foto: Acervo Pessoal

Respira, expira

A funcionária pública Sandra Silva, de 45 anos, encontra no Yoga o amparo para lidar com o luto que enfrenta após o recente falecimento de sua mãe. “Além do bem-estar físico, me sinto bem emocionalmente. Os exercícios me trazem equilíbrio para refletir”, desabafa. Presente nas aulas há quatro meses, ela também é praticante de corrida e comemora quando o final de semana vai se aproximando.

“Tem sido um ponto de equilíbrio. Alongar e refletir, exercitar a empatia e a compaixão e aprender a retroceder para avançar”, pontua a aluna Sandra. Foto: Acervo Pessoal

Para a vendedora Claudia Regina Soares, de 41 anos, a prática também teve interferência direta no dia a dia. “Além de aprender a respirar melhor, aprendi a manter uma postura legal, ponto muito importante porque eu trabalho em pé o dia todo e morria de dores na coluna”, comemora.

Além dos exercícios, Sophia sempre leva oficinas diferentes para as moradoras do extremo sul: horta, comida orgânica e stylist são algumas das que já rolaram por lá, sempre com a colaboração de parceiras e parceiros das áreas. Há sete meses na aula, Claudia conta que vem mudando os hábitos alimentares graças às rodas de conversa que acontecem ao final dos encontros.

Assista o vídeo que acompanha Sophia na Vila Fundão:
(Direção de Fábio Brandão e produção de Renata Veneri)

A influência positiva também vem do exemplo da própria professora. Para chegar ao Capão Redondo, Sophia faz uma viagem de bicicleta de mais de uma hora que começa na Pompéia, bairro na Zona Oeste da cidade. A disposição da professora inspira a assistente administrativa Daniela Silva, de 35 anos, que todo o sábado sai do município de Embu das Artes e encara mais de 1h20 de transporte público até o Capão.

Daniela descobriu o Yoga depois de ter suas atividades físicas limitadas por uma fratura no pé. “Eu nunca tive a menor curiosidade, fui na aula a convite de amigas. Hoje vejo como uma terapia, parece que ficou mais fácil lidar com os problemas. E me sinto tranquila com as meninas”, explica. Após aprender a arte de respirar, ela também se livrou das crises de enxaqueca que eram frequentes. Foto: Acervo Pessoal

Os feedbacks de mais disposição, mais autoestima, mais vontade de se olhar no espelho, de se cuidar, melhora na saúde e nas relações com a família são comuns para a Sophia. Mas ela, que também é bailarina, conta que o maior ganho do projeto é a relação com as alunas. “O Treino na Laje só existe por causa delas, do contrário nada disso aqui aconteceria. Fico feliz e agradecida por poder cuidar dessas mulheres e testemunhar tantas transformações.”

Inspiração: a professora vai de bike da Zona Oeste até o extremo Sul para dar as aulas. Foto: Acervo Pessoal

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Escola pública da periferia combate violência com jornal de boas notícias http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/04/11/escola-publica-da-periferia-combate-violencia-com-jornal-de-boas-noticias/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/04/11/escola-publica-da-periferia-combate-violencia-com-jornal-de-boas-noticias/#respond Thu, 11 Apr 2019 07:00:45 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2049
Professora e alunos de até 10 anos criaram o “Semeadores da Paz”, que só publica histórias positivas e inspiradoras, tem tiragem mensal de 3 mil exemplares e é escrito coletivamente por famílias e moradores de um bairro rural de Itajaí (SC)
Com reportagem de Monise Cardoso, especial para o Blog MULHERIAS
Foi em um dia de aula, durante uma roda de leitura, que um dos alunos da turma do 4º ano de Ensino fundamental se assustou com uma notícia sobre briga de trânsito. Na sala de aula, repleta de crianças entre nove e dez anos de idade, estava a professora Patrícia Regina Wanderlinde Alves, de 45 anos e 28 de docência.

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O caso repercutiu na classe e ela viu ali uma oportunidade de discutir violência. “Propus que cada um desenhasse seu significado de paz. A maior parte dos resultados se relacionava à ausência de guerra”, explica. Para os pequenos da Escola Básica Professora Judith Duarte de Oliveira, em Itajaí (SC), paz era não haver armas, mortes ou brigas. Esse olhar precisava ser mudado.

Em uma atividade, os alunos do 4º ano do Ensino Fundamental retrataram em desenhos o que acreditavam representar a paz

Os alunos não estavam errados. Porém, há um longo caminho que separa a paz dos atos de violência extrema como um assassinato, por exemplo. Foi pensando nas nuances do tema que a professora resolveu abordar o tema cultura de paz. Segundo a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o termo define um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados em valores como liberdade, justiça, democracia e tolerância.

O projeto teve início em 2017 e os primeiros passos envolveram muita teoria, leitura de textos, estudo de letras de músicas e rodas de conversas com os alunos. “O primeiro texto que li para eles foi ‘O Jovem e a Estrela do Mar’, que fala sobre fazer a diferença dentro das suas possibilidades, ainda que não seja possível mudar o mundo todo”, lembra. A intenção de Patrícia era fazer os alunos entenderem que, mesmo sendo crianças, são capazes de impactar o meio onde vivem.

A professora usou boa parte de suas aulas para discutir temas como Direitos Humanos, respeito às diferenças e também grandes momentos da história como o Apartheid (sistema político de segregação da população negra comandado pela população branca na África do Sul durante 1948 e 1994), e a implementação da lei Maria da Penha (que criminaliza os crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher).

Patrícia discutiu temas importantes como Direitos Humanos, respeito às diferenças e também grandes momentos da história.

A escola onde Patrícia leciona está localizada em Itaipava, um bairro periférico e rural de Itajaí, e recebe crianças que vivem em situação de vulnerabilidade social. Muitas vezes, é no colégio que elas fazem a primeira refeição do dia e sabe-se que a comunidade enfrenta dificuldades financeiras e de relacionamento em casa. “Um projeto que amplie os horizontes de jovens que vêm de uma realidade de violência e pobreza sobre o que é paz pode ser crucial para mudar o destino deles”, defende Patrícia.

Esquadrão da paz

O resultado dos trabalhos foi exposto em um evento aberto para todos os alunos e comunidade escolar

Após estudar mais sobre cultura de paz, os pequenos tiveram contato com as ideias de pacificadores como Martin Luther King Jr (1929 – 1968, pastor protestante e ativista político americano que se tornou um dos maiores líderes do movimento de direitos civis dos negros nos EUA), Anne Frank (1929 -1945, de origem judaica, ela foi vítima do holocausto durante a adolescência e seu diário registrou sua experiências na Segunda Guerra) e Mahatma Ghandi (1869-1948, pacifista, e maior defensor da não agressão como um meio de revolução).

O resultado dessas pesquisas foi transformado em livros e audiolivros, o segundo formato proposto pela própria turma para tornar a obra inclusiva. “Havia 11 alunos com deficiência na sala por isso toda a discussão passava por como incluir todos”, conta.

Com o projeto, Patrícia foi vencedora na categoria regional do Prêmio Professores do Brasil, uma premiação que há 12 anos é promovida pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) e tem como meta prestigiar o trabalho de professores de escolas públicas da educação básica que contribuem para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem desenvolvidos nas salas de aula. Patrícia apresentou seu trabalho em uma conferência internacional na Armênia e em um evento sobre educação, ensino e aprendizagem na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

O projeto foi batizado de “Juntos Pela Paz: é tempo de semear” e as turmas envolvidas nas atividades eram chamadas pela professora de esquadrão da paz. “Eles se tornaram responsáveis por replicar as ações e mensagens aprendidas”, conta.  E o comportamento dos jovens realmente mudou.”

As crianças passaram a intervir nos casos de desrespeito na fila do ônibus escolar, denunciavam casos de brigas entre os alunos, e por entender que paz também é sobre respeito ao meio em que vivem, passaram a sinalizar sobre torneiras abertas e lixo fora do lugar.

O resultado das pesquisas foi transformado em livros e audiolivros. O formato em áudio foi proposto pela própria turma para tornar a obra inclusiva

No ano passado, o projeto cresceu e virou o “Semeadores da Paz”, um jornal de doze páginas que pública apenas boas notícias.

Hoje em dia os veículos só noticiam coisas ruins, isso faz os jovens naturalizarem a violência, meu sonho era poder mostrar que tem gente boa por aí”, diz a professora

Graças ao sonho e à garra de Patrícia, que bateu de porta em porta nos comércios da região, o circular tem patrocínio de 20 empresários e uma tiragem de três mil exemplares por mês. O jornal é escrito coletivamente por todos os alunos da escola e também por familiares, que passaram a estar mais presente nas reuniões e atividades desenvolvidas no ambiente escolar.

Voluntários da comunidade também se dispõem a escrever suas histórias no jornal. É o caso de um empresário do bairro que já foi morador de rua e de um ex-aluno que perdeu a perna em um acidente de trabalho e refez sua vida. O jornal também tem uma sessão focada em orientar os pais a como estudar com os filhos – escrita pelos próprios pais. Há ainda o espaço sobre qualidade de vida, histórias inspiradoras e divulgação de concursos e oportunidades para os estudantes.

O jornal “Semeadores da Paz” que só publica notícias positivas, tem uma tiragem mensal de 3 mil exemplares e é escrito coletivamente por alunos, famílias e moradores do bairro

Militarizar é solução?

Para a professora, evitar tragédias como a ocorrida na Escola Estadual Raul Brasil, de Suzano (SP), que foi palco de uma chacina no dia 13 de março, é responsabilidade de todos: estado, professores, famílias e sociedade em geral. “É necessário políticas públicas que deem alternativas para os jovens, que amparem as famílias e que tornem a escola um ambiente atrativo. A educação integral precisa ser repensada, não basta deixar o aluno horas na escola, jogado. O tempo passado ali deve ser preenchido com atividades que façam sentido pra vida dele” analisa.

Patrícia tem muito claro qual é o seu papel na vida dos alunos:

Não posso modificar a vida do estudante, mas posso tentar fazer com que ele mude o olhar sobre a própria vida, posso deixar uma marca fundamental que é fazer aquele sujeito saber defender seus direitos e reivindicar as suas ideias.”

Há propostas do Ministério da Educação para militarizar o ensino na Raul Brasil e em outras escolas. O modelo que compartilha a gestão entre civis e militares é aposta do governo Jair Bolsonaro para combater a violência nas escolas. Patrícia, que vive a realidade da educação no país todos os dias, defende que medidas radicais podem não ser a melhor solução. É preciso equilíbrio para chegar a um modelo de ensino que contribua para que os alunos se tornem sujeitos transformadores de suas histórias.

“A escola é movimento, qualquer tentativa de encaixar crianças em caixas padronizadoras de comportamento têm grandes chances de surtir efeito contrário ou efeito nenhum. Além disso, essa proposta dificulta a percepção do professor sobre a subjetividade dos estudantes. Como vou identificar um pedido de socorro embutido em determinado comportamento se sou eu quem define como aquele aluno deve falar, agir e se portar? Respeito e limites são necessários, claro. Mas precisamos dar espaço para a fala dos alunos, para que eles construam o diferente”, defende.

Para saber mais:
O trabalho e a metodologia do projeto “Juntos Pela Paz: é tempo de semear” é recomendado pelo MEC e pode ser replicado por professores em todo o Brasil.

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Ditadura impulsionou milícias e teve remoções criminosas de favelas http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/31/ditadura-impulsionou-milicias-e-teve-remocoes-criminosas-de-favelas/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/31/ditadura-impulsionou-milicias-e-teve-remocoes-criminosas-de-favelas/#respond Sun, 31 Mar 2019 08:00:53 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2075

Na remoção da comunidade da Praia do Pinto, lideranças que tentaram dialogar com o governo foram presas e ainda assim houve resistência dos moradores. Até que, misteriosamente, o lugar pegou fogo e destruiu 800 barracos. Mais de 4.000 pessoas ficaram desabrigadas. (Foto: Facebook/Amigos do Leblon)

Para os que vivem nas periferias e bairros esquecidos pelo poder público, a violência do Estado e a violação dos direitos não começaram com o golpe militar em 1964, muito menos acabaram em 1985, com o fim da ditadura. Das senzalas às favelas, historicamente, jovens e negros sempre estiveram na mira da violência institucional. Ocorre que na ditadura ela ganhou contornos específicos. Com consequências até hoje.

“Em que medida a construção do complexo aparato repressivo para perseguir os opositores políticos contribuiu na conformação das forças de segurança que continuam assassinando, torturando e desaparecendo com as pessoas?”, questiona o portal Memórias da Ditadura, criado pelo governo federal em 2014, à época dos 50 anos do golpe.

De acordo com os historiadores Juliana Oakim e Marco Pestana, que participaram da Comissão da Verdade no Rio de Janeiro (CEV – Rio), as violações de direitos humanos nas favelas naquela cidade durante a ditadura se pautaram a partir de dois eixos: as remoções forçadas e a presença militarizada do Estado no cotidiano dos moradores.

Entre 1962 e 1974, mais de 140 mil pessoas foram removidas de suas casas, em especial nos bairros que se tornaram mais atrativos para o mercado imobiliário. Foi um lucro danado no Leblon e na região da Lagoa, bairros nobres da cidade. Cerca de 26 mil casas e 80 favelas deram lugar aos prédios luxuosos. A desculpa era a de que as comunidades seriam local de propagação da ideologia comunista. Sei…

Uma obviedade necessária a ser mencionada: parte das famílias que “sumiram” do mapa turístico carioca morava nas áreas desde o fim da escravidão e, mais uma vez, foi obrigada a se alojar precariamente nos morros, cada vez mais distantes do centro da cidade.

“A manchete emblemática explicita como a favela é tratada como algo indesejável em determinados pontos da cidade, problema que seria sanado com a remoção das pessoas que ali viviam para espaços mais afastados”, explica a socióliga Evelyn Postigo em sua tese de mestrado defendida em 2014 na Universidade Federal de São Carlos (Foto: Acervo da Tese)

O processo de expulsão começou um pouco antes da ditadura, com a permissão de Carlos Lacerda, governador do Estado na época. Depois do golpe, os despejos ilegais ganharam força política e recursos com a criação, em 1968, da Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio (CHISAM) – que de interesse social não tinha nada. Segundo a comissão, o Estado queria mesmo era acabar com as favelas. Política pública de moradia só mesmo para as classes abastadas.

“Fomos tirados dessas comunidades [Favela da Praia do Pinto, Ilha das Dragas e Ilha dos Caiçaras] como animais. O governo e a Polícia Militar iam botando nossas coisas pra cima dos caminhões de lixo, metendo pé de cabra e marreta nos barracos, derrubando tudo”, conta Altair Guimarães à Comissão da Verdade do Rio. Altair, que morava na Lagoa Rodrigo de Freitas, em Copacabana, viu a remoção forçada acontecer aos 14 anos e foi transferido para Cidade de Deus (Jacarepaguá), distante 29km de sua antiga casa.

O novo bairro era só barro e não tinha nenhuma estrutura para receber os novos moradores. “Eu e os meus amigos fomos separados, alguns foram para Cordovil e outros foram para outro lugar. Essa mudança de um lugar para outro foi muito ruim de ser vivida na minha adolescência”. Altair conta sua trajetória em busca de moradia digna no documentário “One Man, One City, Three Evictions” (Um homem, uma cidade, três despejos”, em tradução livre) e explica a complexidade da política de limpeza social promovida pelo Estado no Brasil.

 

Etevaldo Justino, presidente da Federação de Associações de Favelas do Estado da Guanabara lembra que foi preso por “ativismo subversivo” na época. No típico roteiro, os moradores da Favela do Esqueleto organizaram um plebiscito na comunidade para mostrar ao governo que gostariam de permanecer ao local, mas sem sucesso: a remoção foi realizada e os moradores expulsos do terreno que hoje abriga a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

 Suspeito até que se prove o contrário

“Intensificar as batidas nas favelas, realizando-as da ordem de 3 a 4 vezes por semana”. O trecho, retirado da ata de uma reunião realizada em 1971 com os representantes da Polícia Militar do Estado da Guanabara (atual PM do Rio de Janeiro), evidencia a forma como os militares enxergavam as favelas: com suspeitas e julgando os moradores como criminosos e subversivos em potencial.

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A Polícia Militar e sua ação ostensiva — que passeia armada pelas ruas — é uma invenção da ditadura e sua principal herança. Antes disso, a Força Pública, mesmo militarizada, era treinada para situações críticas de defesa da ordem. Ficava na maior parte do tempo nos quartéis e tinha pouco contato com a população.  Na ditadura, “eliminar” o inimigo foi o foco — e não para promover a segurança pública para a população. Algo que se mantém no que hoje se dá ao nome de “guerra às drogas”.

Violência cotidiana virou algo comum

A atuação dos militares nas favelas durante a ditadura aumentou tanto em número quanto em truculência. Amparados pelo regime, policiais cada vez mais violentos atuavam nas comunidades, não só em busca de reprimir aqueles que resistiam aos processos de despejos ou se organizavam politicamente, mas interferindo no dia a dia dos moradores, ampliando a violência aos espaços de lazer e diversão.

O relatório final da Comissão da Verdade no Rio mostrou que os militares tinham duas motivações para reprimir as favelas: uma era a ideia de que as regiões eram suscetíveis à criminalidade e outra, o medo de que “os favelados poderiam atuar como base para uma revolução de caráter comunista”.

Mais uma obviedade necessária a ser dita: a ideia de que favelas são lugares mais propensos à criminalidade é estigma desde o fim da escravidão. Com a abolição em 1888, milhares de homens e mulheres negros tiveram sua liberdade, entretanto, por não terem dinheiro, moradia nem nada que tivesse valor material, foram para áreas mais afastadas dos grandes centros, terras “sem dono”, para assim tentar reconstruir suas vidas após séculos de exploração.

Esquadrões da morte são os pais das milícias

Os Esquadrões da Morte foram grupos de policiais envolvidos com a criminalidade e surgiram no Rio de Janeiro o final dos anos 1950 e início dos 1960. Segundo a jurista e pesquisadora Alessandra Teixeira, em depoimento à Comissão da Verdade de São Paulo, agiam diretamente com o jogo do bicho, a prostituição e tráfico, além de torturas e assassinatos. 

A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo concluiu que, a partir da reconstituição da história da violência policial, especialmente no período da ditadura, a estrutura da segurança pública e a lógica imposta pelos agentes ditatoriais “permaneceu intacta e reflete na truculência dos dias atuais, repetindo as mesmas estratégias dos membros do Esquadrão da Morte”. Qualquer semelhança com os grupos de policiais milicianos, portanto, também não é simples  coincidência.

A impunidade e permanência do mesmo modo de operação da polícia foi replicada em todo país e fez surgir, no século 21, segundo os estudiosos da violência urbana, a existência do que seria essa espécie de “Esquadrão da Morte 2.0”. Foi nesse contexto que a Comissão da Verdade em 2014 recebeu o depoimento de Débora dos Santos, fundadora do “Movimento Mães de Maio” – organização das mães dos 600 jovens que foram mortos pela polícia de São Paulo em 2006 em retaliação às rebeliões da facção criminosa PCC.

Débora conta que seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, 29 anos, era gari, pai de um menino na época com 3 anos e foi morto quando saída de sua casa, em pleno Dia das Mães, para dormir no imóvel que estava construindo e ficava próximo ao trabalho (Foto: Facebook/Mães de Maio)

No livro do movimento, “Mães de Maio: Do Luto à Luta”, ela registrou:
Vivemos em um Estado dito democrático de direito que camufla uma verdadeira ditadura continuada, operando livremente, assolando lares de famílias periféricas, sem direito à justiça, à verdade e à liberdade. Sabemos que os sinhozinhos feudais e o capitalismo, os capitães de mato, o Estado e as chibatas hoje se concentram nas balas de revólveres dos policiais. A pena de morte está completamente declarada e descarada nesse país que se diz democrático.”

Grafite de Carol Itzá: “periferia segue sangrando” denuncia nos muros o histórico de violações de direitos nas quebradas (Foto: @carolitza)

* Colaboraram Victória Durães e Monise Cardoso, especial para o blog MULHERIAS

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Maior movimento feminino contra ditadura veio de clube de mães da periferia http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/30/maior-movimento-feminino-contra-ditadura-veio-de-clube-de-maes-da-periferia/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/30/maior-movimento-feminino-contra-ditadura-veio-de-clube-de-maes-da-periferia/#respond Sat, 30 Mar 2019 07:00:15 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2041

Comissão do Movimento Custo de Vida encarregada da entrega de abaixo-assinado em Brasília em 1978 – Foto: Movimento (suplemento Assuntos, set./1978)

Foi dos encontros de bordado entre mulheres nas paróquias das periferias da Zona Sul de São Paulo que originou-se um dos maiores movimentos populares contra a ditadura no Brasil. Paralelamente aos movimentos sindicais, os Clubes de Mães, criados em 1972 dentro das comunidades eclesiais de base da igreja Católica, multiplicaram-se por toda a cidade quando passaram a reivindicar creches, luz, água encanada e a questionar a alta dos preços dos alimentos.

Seis anos depois, em 1978, sob o nome de Movimento Custo de Vida, o MCV, as autodenominadas “mães da periferia” levaram mais de 20 mil pessoas à Praça da Sé num ato público para protestar contra a política econômica do governo militar. E isso porque milhares de pessoas foram impedidas de chegar até a praça com controles, inclusive nas rodovias, que proibiam a chegada de ônibus de diferentes cidades na manifestação.

A ousadia foi tanta que o movimento ainda fez um abaixo-assinado ao General Geisel, então presidente da época, com mais de 1 milhão e 300 mil assinaturas. O documento reivindicava o congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade, o aumento dos salários acima do aumento do custo de vida e um abono salarial de emergência imediato e sem desconto para todas as categorias de trabalhadores. Uma ousadia descomunal na época. Em Brasília, elas não foram recebidas pelo ditador e deixaram o material — enorme, com mais de 7 quilos de papel — na seção de protocolo do Congresso. Foram acusadas de terem falsificado as assinaturas, claro.

“A única resposta oficial que receberam do governo foi um laudo grafotécnico da Polícia Federal dizendo que havia duplicidade em parte das assinaturas”, aponta o historiador Thiago Nunes Monteiro, autor do livro “Como pode um povo vivo viver nesta carestia: o Movimento do Custo de Vida em São Paulo (1973-1982)”. Tal acusação foi prontamente respondida pelo movimento ao explicarem que eram assinaturas de pessoas analfabetas e também de mães que assinavam por seus filhos, pois, como defendia o MCV, analfabetos e crianças também passavam fome.

Ana Dias (Foto: Memorial da Resistência de São Paulo)

Ana Dias, “mãe e militante”, uma das lideranças dos primeiros grupos que fez pesquisas de preços para reivindicar melhorias, lembra: “O mais bonito era ver que aquilo que aprendi na rua e na luta não ficava só para mim, ia tipo fervilhando. Começou um clube de mães, depois dez, 20, 30, foram para outros estados além de São Paulo. E sempre liderado por donas de casa que não tinham conhecimento, mas que de repente começaram a enxergar que faziam parte dessa sociedade que só ia mudar quando tivesse muita gente, juntas, lutando pelos mesmo direitos.” Mas o aparato militar não deixou passar despercebida essa movimentação. “Fomos xingadas, humilhadas, e era pela família, pelos irmãos. Nós éramos terroristas, comunistas. A igreja também jogava pedra. Nós íamos pra rua, e os homens se perguntavam: ‘Essa é a mulher que saiu do fogão? Analfabeta?'”

“O MCV, também conhecido como Movimento Contra a Carestia (MCC), virou um receptáculo de vários outros movimentos sociais que marcaram o período, sendo responsável pela reocupação e repolitização do espaço público, em plena ditadura militar”, afirma o historiador Thiago Monteiro. O especialista conta que MCV foi uma resposta coletiva e popular a um processo inflacionário que corroía o poder aquisitivo dos pobres, sem que houvesse a contrapartida de elevações salariais.

Com uma linguagem acessível às pessoas menos instruídas, os folhetos criados pelo movimento recorriam a imagens marcantes como a de que os salários subiam pela escada, enquanto o custo de vida disparava pelo elevador

Na década de 1970, a  desigualdade social brasileira, que já era problema de longa data, acentuou-se ainda mais. Em São Paulo, a redução do salário mínimo anual médio real, de um índice 100, em 1964, caiu para 78, em 1974, o que fez aumentar para 163 horas e 32 minutos o tempo necessário para o trabalhador adquirir a “ração mínima”, um termo  estabelecido em lei que era calculado, em 1965, em 88 horas e 16 minutos mensais. É claro que isto reduziu também o poder aquisitivo das famílias. Para piorar, nas regiões periféricas da cidade, contrariando a situação atualmente vivida em São Paulo, o custo de vida – exceção feita à moradia – era ainda mais caro do que nas regiões centrais.

Em 2018 completou-se 40 anos do histórico dia 27 de agosto de 1978, quando o Movimento Custo de Vida (MCV), durante a ditadura civil-militar, colocou mais de 20 mil pessoas em um ato público na Praça da Sé (SP) para protestar contra a política econômica defendida pelo governo.

E a periferia só crescia. Pela primeira vez, a população urbana ultrapassou a rural e cerca de 2/3 dos habitantes da capital em 1970 eram migrantes. Em 1975, de acordo com a Secretaria dos Negócios Metropolitanos de São Paulo: entre as moradias da periferia apenas 46% tinham acesso à água encanada e somente 20% delas à rede de esgoto. O que existiam eram fossas negras ou esgoto a céu aberto. Nessas casas, na maioria construídas pelos próprios moradores com a ajuda de amigos e vizinhos aos finais de semana a renda familiar atingia até 3 salários mínimos e a média de moradores por residência era de 5,3 pessoas. Quem morava na quebrada gastava de 3 a 4 horas diárias no trajeto de ida e volta para o trabalho em veículos que carregavam cerca de 130 pessoas, o dobro da lotação máxima prevista.

Aprendemos muito na rua, debater com outras pessoas, a enfrentar polícia. A gente não ia pra rua de ‘alegre’, tinha uma coordenação, que passava a informação pros grupos de mulheres, que repassava para a família e o marido, o marido levava pra fábrica, a fábrica levava até o Sindicato, então era um círculo que aumentava e todo mundo enxergava”, recorda Ana Dias

Assista ao depoimento da militante em um debate na Universidade de São Paulo.

 

Ana Dias foi esposa do líder sindical Santo Dias, morto a queima-roupa pelas costas pelo policial  militar Herculano Leonel, em um piquete da greve dos metalúrgicos de 1979, um ano depois de Ana ter participado da organização da manifestação da Praça da Sé. O enterro de Santo contou com 30 mil pessoas que protestaram contra a morte do líder operário, pelo livre direito de associação sindical e de greve e contra a ditadura.

Ana Dias, viúva de Santo Dias, no enterro do operário, em 1979 (foto Agência Estado)

“O Clube de Mães da Zona Sul de São Paulo teve um papel importantíssimo na resistência a Ditadura Militar e na luta das mulheres por melhores condições de vida para suas famílias”, afirma o historiador Carlos Alberto Nogueira Diniz, da Universidade Estadual Paulista. “Apesar da existência de clube de mães e outros movimentos similares em outras regiões do pais, nenhum teve tanta importância e repercussão como o Clube de Mães da Zona Sul de São Paulo.”

Em 1982, diante de outras diversas fontes de luta, como o movimento estudantil, operário e outros, o MCV já havia esgotado sua capacidade de mobilização em São Paulo. Mas isso não tira seu mérito de ter colaborado para o eclipse do regime ditatorial. 

Para saber mais e nunca mais esquecer:
O documentário de 1980 feito pelo diretor Renato Tapajós traz um um resumo das lutas populares contra a ditadura. Logo nas primeiras, é possível ver o grande protesto que ocorreu na cidade no velório de Santo Dias, marido de Ana Dias. 

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O brechó da periferia que se desdobrou em evento, desfile e estilo de vida http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/29/loyal-o-brecho-que-se-tornou-um-estilo-de-vida-nas-quebradas-da-zona-sul/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/29/loyal-o-brecho-que-se-tornou-um-estilo-de-vida-nas-quebradas-da-zona-sul/#respond Fri, 29 Mar 2019 07:05:20 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=2014 Com reportagem de Hysa Conrado, especial para o blog MULHERIAS

“Por essa calça jeans que tô usando, paguei R$2. Essa jaqueta branca eu já tinha e o lenço no cabelo é um cachecol que eu peguei da minha mãe”, diz Jaqueline Leal, de 22 anos, enquanto ajeita no rosto os óculos de lentes amarelas. Mais conhecida por Loyal ou simplesmente Jaque, ela explica que quando começou a comprar roupas nos brechós onde mora, no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, “só queria expressar a partir do seu visual o que é ser uma mulher preta e periférica.” Acabou virando referência para tantas outras da região. 

De tênis branco plataforma e longos dreads ruivos nos cabelos, ela conta que não demorou muito para que a ideia de montar um look gastando menos de R$ 5 começasse a chamar a atenção dos amigos do teatro do bairro. E aí, a experiência de customizar as peças de acordo com o que cada um queria transmitir de suas vivências passou a ser uma questão política e não apenas de moda. E assim surgiu o brechó LOYAL que, na tradução do inglês significa “leal”, uma forma de se colocar no mundo.

Jaque Loyal, 22 anos, é estudante de Publicidade e Propaganda. Fundou o LOYAL em 2017.

Há dois anos, a ideia era apenas montar uma loja online para vender peças personalizadas entre R$5 e R$15. Mas o LOYAL se tornou um marco cultural de conceito e estilo a partir dos desfiles realizados nas Fábricas de Cultura do Capão Redondo, Jardim São Luís e Jardim Ângela, todas na periferia da Zona Sul. Já foram seis eventos, três por ano, cada um mais lotado que o outro, capazes de aglutinar até 200 pessoas.

Para Jaque, o sucesso vem da conscientização de quem não aceita mais a mensagem de que só vai ser legal se estiver usando um kit da grife estrangeira x ou y. “Se o produto não é acessível nem necessário, consumir brechó e entender sua identidade fica muito mais fácil”, teoriza a estudante de publicidade e propaganda, idealizadora da marca e vendedora de uma loja de shopping.

Todos os desfiles são temáticos, mas não se tratam de temas a partir da estética, cartela de cores ou estações do ano.  Mas sim discussões sobre feminismo, racismo, suicídio e violência, por exemplo. “Os assuntos são marcados pelas urgências do momento e das pessoas que fazem parte do LOYAL. Somos um movimento de moda periférico que trabalha com o empoderamento da quebrada em todas as suas vertentes artísticas, mas principalmente a moda”, define Jaque. No documentário feito por alunos da universidade Anhembi Morumbi, ela vai além e conta como isso se manifesta na produção dos looks e nas ruas.

Os desfiles da marca já se tornaram verdadeiras vivências. Assim foi o de setembro de 2017, mês de campanha pela prevenção do suicídio no Brasil. Jaque percebeu a necessidade de tratar a questão em conjunto. Um mês antes do evento, durante o processo de criação e imersão para o desfile, pediu para que os participantes, que são amigos próximos e moradores da região, escrevessem ou gravassem um desabafo sobre os tipos de bullying que já tinham sofrido por causa do corpo, da cor, do cabelo e outros motivos.

Foi a partir dos relatos que escolheram juntos a trilha sonora do evento: a música Pretty Hurts, que na tradução do inglês diz que “beleza dói”, da norte-americana Beyoncé. “Depois do desfile, notei diferença na vida dos modelos. Eles buscaram aceitar e compreender que comentários negativos de terceiros não devem interferir tanto na vida”.

Diferentemente dos desfiles anteriores, o LOYAL abriu ao público em geral a possibilidade de ser modelo de seu próximo desfile, chamado “Corpos sem Juízo”. Haverá um primeiro encontro, no dia 13 de abril na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, e interessados poderão compartilhar vivências para participar.

Modelar no LOYAL, no entanto, não é só fazer carão e olhar para o infinito. Quem sobe na passarela tem de estar presente no projeto como um todo. “Às vezes rola um atraso, alguns  só querem desfilar. Mas é muito mais importante o processo.” Durante os ensaios, são feitas dinâmicas de teatro para tirar a timidez e produção de textos para que os modelos possam expressar o que sentem em relação ao tema. A proposta é que sejam pessoas que nunca se imaginaram modelos por não se sentirem dentro dos padrões. Um dos desfiles já contou com um participante que é deficiente visual, por exemplo.

O próximo desfile que será realizado no dia 4 de maio, na Fábrica de Cultura do Jardim São Luís, vai abordar questões LGBTQ+ e de pessoas que fogem do padrão exigido pela sociedade.  O “lugar de fala” dos envolvidos é assunto importante e haverá representantes de cada letra da sigla que significa lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer e pessoas que não seguem orientação sexual heteronormativa ou binarismo de gênero.

Editorial LOYAL Capão 2018. Modelos: Clara Xavier, Jaque Loyal, Eduarda Carvalho, Iuri Fernandes, Isac Oliveira e Gustavo Feitosa. Foto: Estevam Fotografia. Produção: Jaque Loyal.

Para se ter ideia da profundidade dos assuntos abordados nas coleções do LOYAL, Jaque já escolheu o Triângulo da Morte como tema. A denominação foi dada aos bairros do Capão Redondo, Jardim São Luís e Jardim Ângela na década de 1990 por causa do alto índice de homicídios que registravam diariamente. Na época, a região foi considerada a mais perigosa do mundo. O desfile tocou nessa ferida porque “é um ciclo, não tem fim”, definiu Jaque. De fato, ainda que a situação tenha melhorado, os bairros continuam, infelizmente, na lista dos 10 mais violentos da capital.

No vídeo de abertura do evento, Jaque narra o período obscuro pelo qual passava a sua quebrada. “Aqui quem fala é mais um sobrevivente. Uma sobrevivente. Olhe pra mim! Não me vê, não é mesmo?! Anos atrás isso só era pior (…) Capão, uma das pontas do famoso Triângulo da Morte, dois homicídios por dia, eram muitas mortes por mês, isso do que sabemos…. E os que foram jogados nesse mato aqui ao lado?”.

Em 14 de abril de 2018, data que marcava um mês do assassinato da vereadora Marielle Franco, o LOYAL realizou um desfile que falava sobre feminismo. Apenas artistas mulheres se apresentaram no evento e nos vídeos exibidos. “A gente achou complicado abordar apenas uma vertente do feminismo então teve mulheres trans, mulheres negras, brancas, gordas, não focamos só em uma”, ressaltou. Para Jaque, o retorno mais marcante foi o relato de uma das modelos. “Ela contou que a mãe assistiu à apresentação e passou a não mais aceitar as situações de machismo que vivia em casa.”

Ditando tendência

Como toda marca que vira desejo de consumo, LOYAL tem sido copiada. “Algumas pessoas compram as peças em outros brechós e customizam com o logotipo. Acho muito legal. São pessoas que foram ao desfile, se identificaram, levaram a ideia para fazer na própria calça em casa”. 

Luana Villalva é uma das admiradoras do LOYAL que customizou a blusa com o nome da marca. Jaque Loyal conta que só esse ano, pelo menos cinco pessoas já copiaram a marca em peças que não foram feitas por ela.

As peças mais procuradas no LOYAL são os jeans, que seguem a tendência do “destroyed” (destruído). Camisetas com o nome da marca são queridinhas. Os pedidos costumam ser feitos pelo perfil do brechó no Instagram. É possível especificar a cor e a tipo de logotipo. Registro do LOYAL no aniversário de 106 anos do Capão Redondo. Foto: Divulgação/Facebook

Para a idealizadora da marca, não existe um look específico que defina o LOYAL. Mas duas mulheres a inspiram na moda e na vida: as cantoras de rap Linn da Quebrada e Jup do Bairro (fotos). Ambas se autodenominam, “bixas travestys e nos shows debatem racismo no cotidiano, questões sexuais, de gênero e de corpo. “Elas destoam de tudo e me colocam num lugar de pensar”, diz Jaque. (Foto: Divulgação)

Uma vitrine para os artistas da quebrada

Jaque já quis trabalhar em revista de moda adolescente e foi estudar publicidade acalentando esse sonho de menina. Mas logo percebeu que sua vitrine estava no próprio quintal. “Publicidade periférica existe. Todos os artistas que já passaram pelos nossos desfiles estão cantando nos eventos do Capão ou estão aparecendo em shows e em rolês”, afirma. A marca faz parcerias com artistas locais e patrocina o figurino do grupo de dança Set Of Beats, formado por meninos e meninas que misturam ritmos como Funk, Pop, Hip Hop, Trap. 

Poetas da periferia são prestigiados pela LOYAL. Um dos desfiles contou a participação da poeta Aline Anaya, do sarau Verso em Versos. Ela recitou o poema “Abrem os Caminhos”, que diz: “mulher preta até parece que não pode errar, né? Grita a sua branquitude em mim mas com certeza não é isso que vai me fazer parar. Porque eu não brigo por espaços, eu luto por fé na emancipação, a minha ancestralidade dá frutos no meu corpo e ela se estende em minhas mãos. Eu tô com elas, pra elas, as manas”. Foto: Facebook/Divulgação.

Da ponte pra cá

No “Propriedade Periférica”, Jaque falou sobre a importância de ter referências próximas.

O que é chegar num desfile na sua quebrada? Primeiro que não existe, mas chegar e ver seu vizinho desfilando… É isso! A representatividade tá do lado. O LOYAL diz que a moda não tá só no São Paulo Fashion Week, a moda tá aqui.”

Para 2019, a meta é levar os eventos culturais do LOYAL para outras quebradas da Zona Sul, como Diadema e Grajaú. A prioridade da marca é a periferia, na visão da estudante de publicidade faz mais sentido influenciar e abrir caminhos na quebrada do que adaptar o LOYAL ao Centro da cidade.

“Não me interessa estar no centro se a quebrada não estiver comigo”, afirma.

Editorial LOYAL: PÓS-PARAÍSO. Modelo: Jaque Loyal. Produção: Iuri Fernandes e Jaque Loyal. Foto: Iuri Fernandes.

 

Atualmente, as peças do LOYAL são vendidas apenas nos dias de desfile ou quando o brechó é convidado para alguma feira ou evento. A meta é que a partir do segundo semestre de 2019 as vendas sejam feitas também através do Instagram. Quando o evento da marca é patrocinado pela Fábrica de Cultura, o cachê gira em torno de R$700 e é possível faturar R$400 com as peças vendidas no brechó. Para Jaque, não existe o receio de uma grande marca copiar o conceito do LOYAL. “Porque é único, é um acontecimento, não são só as roupas”, explica. Além disso, ela destaca que as peças são garimpos e que nunca uma é igual a outra. Modelo: Amanda Santana. Foto: Raquel Euzebio.

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Casa ecológica em favela é exemplo de solução ambiental em SP http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/21/casa-ecologica-em-favela-e-exemplo-de-solucao-ambiental-em-sp/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/21/casa-ecologica-em-favela-e-exemplo-de-solucao-ambiental-em-sp/#respond Thu, 21 Mar 2019 07:01:49 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=1960 Com reportagem de Victória Durães, especial para o blog MULHERIAS

Em vez de muros, são bambus espaçados que margeiam a rua de terra batida do acesso principal da favela. Entre as cercas, é possível antever a horta. Há pés de couve, taioba, quiabo, todo tipo de temperos, legumes e umas abóboras grandonas. A trepadeira de flores cor-de-rosa enfeita o portão principal da casa de 100m2 que deixa à mostra estruturas de paredes feitas com barro, garrafas de vidro e erigidas com o suor dos moradores da favela Vila Nova Esperança, onde moram 600 famílias, no extremo oeste de São Paulo, já na divisa com o município de Taboão da Serra. 

Ali funciona o espaço sustentável da comunidade, ou seja, um complexo composto por áreas de plantio e de convivência, com brinquedoteca, biblioteca e cozinha industrial. Tudo foi feito com técnicas de bioconstrução que, segundo o Ministério do Meio Ambiente, adota tecnologias de mínimo impacto ambiental por meio de técnicas de arquitetura adequadas ao clima, que valorizam o tratamento correto de resíduos, o uso de recursos matérias-primas locais e o aproveitamento dos conhecimentos das próprias pessoas da região. Saberes ancestrais de construção de pau-a-pique, também conhecida como taipa de mão, por exemplo, é bioconstrução.

“Na Bahia tem muita casa de barro, é difícil ver de madeira, papelão. Quando a pessoa não tem condição, ela constrói com a terra e foi isso o que fizemos aqui”, relembra a moradora e líder comunitária Maria de Lourdes Andrade de Souza, mais conhecida como Dona Lia.

Foi Dona Lia, líder comunitária da Vila Nova Esperança, quem mobilizou a comunidade e voluntários para erguer o imóvel ao longo de três anos em mais de 50 mutirões de trabalho. “Acho que mais de mil pessoas ajudaram fazer tudo isso aqui. Dá muito orgulho”

Baiana de Itaberaba, ela aprendeu a técnica quando criança, vendo a família e vizinhos construindo moradias. Para fazer um muro, ela conta que o primeiro passo é fazer a estrutura de hastes de madeiras na vertical, fixas no chão. Depois, deve-se entrelaçar o bambu na horizontal. Aos poucos, os quadrados vazios são preenchidos com barro.

“É um erro associar a bioconstrução à pobreza, e à falta de estética”, diz a paisagista Angélica Brückner. “Precisamos transformar esse olhar, em nome do resgate da cultura e para reduzir a nossa produção de lixo no mundo.”

Sim, é seguro!

O bioconstrutor formado em Edificações e Saneamento Ambiental Rodrigo Calisto, de 31 anos, foi voluntário técnico na obra e explica que a técnica “é segura, durável e uma possibilidade real em muitos casos de moradia na periferia, porém ela gera autonomia e não interessa para a indústria.”

Especialista em perícia de avaliação de imóveis, ele lembra que já no ano de 1554 tínhamos em São Paulo o Pateo do Colégio, que foi construído pelos jesuítas em pau a pique. “Dá pra perceber que são técnicas utilizadas há séculos e que funcionam”.  A construção foi demolida em 1896, mas até hoje é possível ver uma parede da antiga edificação no jardim do Pateo, no centro da cidade.

O metro quadrado saiu por menos da metade do preço

De acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil, o valor médio de um metro quadrado de obra erigido com materiais convencionais é de quase R$ 1.400 no Brasil. Em todo o complexo construído na Vila Nova Esperança, Lia acredita que gastou, ao longo de mais de dois anos, no máximo, R$ 600 por m2.

A verba veio por meio de doações e venda de marmitas e produtos da horta. Foram construídos: 15m² da biblioteca, 36m² da cozinha, 8m² da brinquedoteca e área de convivência interna e 35m² na área de convivência externa.

“Como toda obra, bioconstrução tem custo. Mas existem vários meios para baratear”, diz o especialista em soluções ecológicas nas periferias Diogo Menezes, de 29 anos. “Partimos do mapeamento da região para buscar os materiais mais usados e em conta”, completa o fundador da cooperativa de educação ambiental Eparreh. “Se é complicado encontrar ou comprar bambu, pode ser melhor ir num ferro-velho para fazer estruturas em metal.” (Foto: Acervo Pessoal)

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Permacultura e biocontrução garantem proteção ambiental 

Vila Nova Esperança cultiva seus alimentos em horta comunitária

“Por aqui, grandes construções jogam no lixo o pontalete [madeira utilizada para fazer escora em construções com materiais industrializados] e aproveitamos isso para fazer a estrutura da casa.” Além da escolha de materiais, mão-de-obra influencia muito na conta. Para construir o centro comunitário, de 2015 até hoje Lia organizou mais de 50 mutirões. “Se for fazer as contas, mais de mil pessoas ajudaram a levantar esse espaço. Da comunidade mesmo tem umas 40 pessoas que sempre vem ajudar.”

E a obra não para. No próximo sábado (dia 23) são aguardadas 51 pessoas para mais uma rodada de bioconstrução, dessa vez para fazer um mini picadeiro de circo. Além dos moradores, participam estudantes, pesquisadores e todo tipo de voluntário. Para participar, entre em contato pela página da comunidade.

Como tudo começou

A“era verde” de Vila Nova Esperança tem início em 2003, com a chegada de Dona Lia na favela. Ela foi morar na comunidade com um filho depois do divórcio e passou a fazer mutirões de limpeza de entulho e lixo. Como o caminhão da coleta passa só uma vez por semana, fomos atrás da TETO [ONG que atua em 19 países na construção de casas ecológicas em zonas periféricas] e conseguimos uma verba para construir um abrigo pro lixo, pra não ficar tudo espalhado na rua.”

A favela, que ainda hoje lida com inúmeras dificuldades de infraestrutura, quase foi desocupada por ser acusada de provocar danos ao meio ambiente. “Estamos localizados numa área preservação ambiental, sabemos disso e temos consciência da nossa responsabilidade. Mas nós não sujamos esse lugar, pelo contrário, limpamos!”

A história de Vila Nova Esperança é antiga. O terreno era parte de uma fazenda. Na década de 1960, a proprietária o transformou em pequenas glebas que viraram moradia de famílias. O bairro foi crescendo mas ficou esquecido pelo poder público mesmo com a urbanização chegando nos arredores.

Primeiro, foram levados à região conjuntos habitacionais populares. Em meados de 1970 e 80, a política municipal para lidar com o déficit de moradia era criar aglomerados urbanos o mais distante possível do centro da cidade. Depois, já nas mãos de construtoras privadas, a região passou a ser alvo de condomínios de classe média com muros altos para os que queriam conciliar a vida no campo perto da metrópole. Em três lugares diferentes da área de proteção ambiental, sugiram lixões, a maioria eram aterros ilegais de detritos de construção civil.

Dona Lia conta que mesmo com todo esse movimento urbano no entorno, a comunidade de Vila Nova Esperança permaneceu ignorada. Água encanada, por exemplo, só chegou em 2005. Luz? Só em 2014… A favela foi alvo de despejo em 2011, quando o ônus por toda a poluição e devastação da mata recaiu sob os moradores. “A polícia veio aqui retirar todas as famílias mas fomos buscar nossos direitos e o juiz decidiu que temos direito de estar aqui.” 

Foi então que a líder comunitária pediu autorização para usar um terreno público ao lado da comunidade, que era um lixão. Dali nasceu a horta orgânica comunitária e até uma moeda local, a esperança, que passou a remunerar com legumes e verduras os trabalhadores que cuidavam do plantio. Construída em 2013, a horta ganhou um prêmio Câmara Municipal da Prefeitura de São Paulo.  

A construção da biblioteca foi em 2016. “Como a nossa horta tem muitas plantas medicinais que podem evitar idas ao médico, então pensei que seria bom para todo mundo encontrar livros que explicassem como usar as ervas”, explica Lia. E assim a construção começou com barro, madeira reciclada e garrafas de vidro.

A necessidade de cozinhar o excedente de produtos da horta, por sua vez, trouxe no ano seguinte a mobilização pela cozinha comunitária que oferece refeições. “O escoamento de resíduos vai direto para uma fossa de bananeira”, orgulha-se Lia. Tecnicamente conhecida como canteiro bio-séptico, a fossa trata a água com o uso de comunidades de bactérias que ficam aprisionadas numa caixa impermeável. É necessário plantar árvores que gostem de muita água, como bananeiras, para tornar sistema de tratamento auto-regulável.

No ano passado, o sucesso da cozinha impulsionou a construção de áreas de convivência, com mesas e espaços para aulas e cursos. Entre eles, claro, os de bioconstrução. “Aprendo muito com a natureza. No meio ambiente tudo foi feito para todo mundo andar junto, cada um respeitando a posição do outro e fazendo o planeta girar”, acredita Lia.

 

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Mc, professora e duas deputadas contam como vivem o legado de Marielle http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/13/mc-professora-e-duas-deputadas-contam-como-vivem-o-legado-de-marielle/ http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2019/03/13/mc-professora-e-duas-deputadas-contam-como-vivem-o-legado-de-marielle/#respond Wed, 13 Mar 2019 07:00:17 +0000 http://mulherias.blogosfera.uol.com.br/?p=1906 Com reportagem de Victória Durães e Hysa Conrado, especial para o Blog MULHERIAS

14 de março de 2019 marca o primeiro ano sem a vereadora e militante Marielle Franco. Mas sua trajetória em prol dos Diretos Humanos não acabou naquele assassinato. Marielle virou símbolo de busca por justiça e luta por dignidade e políticas públicas nas favelas e periferias. Ela vive em Dani Monteiro, a mais jovem deputada estadual eleita no Rio de Janeiro. Marielle vive em Mc Martina, a poeta do Morro do Alemão que denuncia o cotidiano de violência nas quebradas. Vive em Lucia Cabral, a professora que trabalha para mostrar aos moradores do Alemão que eles têm direitos. Vive também em sua amiga e militante Renata Souza, a primeira mulher negra a presidir a Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Mulher negra, periférica, mãe e LGBT, a socióloga assassinada aos 38 anos lutou contra as desigualdades vividas na pele de quem, como ela, nasceu e cresceu nos morros cariocas. Cria da favela da Maré,  iniciou sua militância em direitos humanos após ingressar no pré-vestibular comunitário e perder uma amiga, vítima de bala perdida, num tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. Eleita Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo PSOL com 46.502 votos, Marielle foi assassinada em um atentado em 2018. Treze tiros atingiram o carro em que ela se encontrava e tiraram não só a vida dela como de seu motorista, Anderson Pedro Gomes.

Um ano após sua morte, centenas de manifestações que cobram justiça e esclarecimento do assassinato também tratam Marielle como “semente”. A menção diz respeito às militantes que seguem os passos da vereadora na luta pelos direitos de mulheres negras, periféricas, lésbicas e bissexuais. Marielle vive!

“Eu vejo Marielles todo dia. Vejo na minha mãe, na minha avó, nas professoras pretas, nas mulheres faveladas, em mim”, diz Mc Martina, 21 anos, idealizadora do Slam Laje, a primeira batalha de poesia do Conjunto de Favelas do Alemão.

(Foto: Douglas Lopes/Divulgação)

Foi para Marielle o primeiro voto de Sabrina Martina, a rapper Mc Martina. “Lembro que conheci a vereadora em um evento na favela em 2016. Minha identificação foi imediata. Primeiro porque é preta. Segundo, pela coragem. E falo que ela é porque Marielle ainda vive, está presente”, completa a jovem.

A Mc jamais vai se esquecer que Marielle foi  uma das pessoas que colaborou com uma vaquinha para arcar com seus custos de alimentação e transporte para frequentar um cursinho pré-vestibular de alto custo onde ganhou bolsa de estudos.“Quero fazer o mesmo curso universitário que ela. Marielle era socióloga e vou fazer Ciências Sociais”, diz a rapper, também participante do grupo Movimentos, formado por jovens de varias periferias do Rio que discutem e acreditam em uma nova política de drogas – pauta que Marielle também defendia.

Martina é fundadora do coletivo Poetas Favelados, que realiza saraus itinerantes em transportes e espaços públicos do Rio de Janeiro. “Nossa tarefa principal em ataques poéticos é ‘furar a bolha'”, explica Martina, que no ano passado participou do TED Ex Laçador, em Porto Alegre (RS).

A gente quer impactar a tia que sai cansada do trabalho e nunca ouviu falar em sarau, às vezes não tem tempo de ler um livro mas se interessa. A gente quer impactar o menino que acha o colégio um saco e quer matar a aula e em uma poesia percebe que boa parte da aula pode estar naqueles versos.”

Marielle está presente, segundo Martina, não apenas em seus poemas que denunciam a condição da população negra Brasil, onde uma pessoa negra é assassinada a cada 23 minutos, totalizando 71 mortes de pessoas negras por dia.

Para a Mc, Marielle é como Dandara dos Palmares, a guerreira que lutou ao lado de Zumbi pela libertação dos negros no período colonial. E também como Carolina Maria de Jesus, uma das principais escritoras negras do Brasil, que escreveu sobre sua vida na comunidade do Canindé, em São Paulo no começo no século passado. Mc Martina sabe, também, que é semente do legado de todas essas mulheres.

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“Meu papel era estar ao lado da Marielle e eu não tinha pretensão de me candidatar, mas o feminicídio político dela e o chamado da própria Mari para a ocupação da linha de frente da política me convenceu”, conta Renata Souza, 36 anos, nascida e criada na Favela da Maré. Renata foi amiga, assessora de Marielle e hoje é deputada estadual do Rio de Janeiro pelo Psol.

Renata Souza e Marielle Franco cursaram juntas um cursinho pré-vestibular comunitário no ano 2000 e não se largaram mais. Moradoras da Favela da Maré, encontravam muitos pontos de militância em comum: a luta contra o racismo, o machismo e a pauta da segurança pública – que posteriormente marcou a trajetória de ambas nos movimentos sociais, na política partidária e na universidade. Renata foi  ex-chefe de gabinete da vereadora e fez doutorado UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sobre a resistência da juventude frente à militarização da vida na Maré.

É desumano deixar uma mulher sozinha nos parlamentos, um lugar historicamente negado para nós, em especial, mulheres negras e pobres. Marielle sempre fez ações para que mais de nós ocupassem esses espaços”

Renata está na política institucional desde 2007. No ano passado, candidatou-se e foi eleita Deputada Estadual do Rio de Janeiro com 63.937 votos. Foi a mais votada candidata do campo da esquerda na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).

Atualmente, é presidente da Comissão de Direitos Humanos na assembleia e a primeira mulher negra a ocupar esse cargo. “É muito simbólica essa nomeação. Ter a vivência de mulher, negra e favelada me ajuda a ter um olhar diferenciado na construção de políticas públicas que atendam as reais necessidades dessa população”, explica. “Marielle deixa como legado a necessária resistência para que a humanidade não se desumanize, uma luta universal contra as desigualdades sociais e pela democracia”.

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“A favela ficou órfã sem Marielle. Mas ela sempre encontra um meio de existência e sobrevivência e estamos aqui na luta”, afirma a professora e assistente social Lucia Cabral, de 52 anos, que há 11 fundou no complexo do Alemão o  Espaço Democrático De União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção (ONG EDUCAP)

“Meu trabalho é mostrar aos cidadãos que moram nas favelas os direitos que ele têm e não conhecem”, explica Lucia. Além de oferecer a jovens e adolescentes acesso à tecnologia e inovação, saúde, cultura, esporte e lazer, a ong EDUCAP  é uma voz importante na luta por direitos humanos e segurança pública no Morro do Alemão.

Foi essa a pauta que aproximou Lucia de Marielle.

Conheci Marielle em 2007 por conta da Chacina do Alemão, quando 21 jovens foram assassinados aqui. Ela acompanhou, escutou e lutou com a gente nesse momento triste e difícil, e todas as vezes que precisávamos era na porta dela que a gente batia, chamava no zap, ligava… Ela sempre esteve aqui presente de corpo e alma.”

Para Lucia, a favela ficou órfã sem a vereadora assassinada. “Ela era a nossa porta-voz, e mesmo que o [hoje deputado federal] Marcelo Freixo esteja por dentro de tudo, ela era a grande referência. Marielle deixa um legado de força e coragem que eu nunca vi na minha vida”.

Lucia acredita na potência econômica, política e de desenvolvimento das favelas, no poder reinvenção das comunidades e na solidariedade de seus moradores. “Marielle também enxergava o potencial da mulher, do negro, do jovem, do seu Zé da vendinha, daquela ONG que lá no fundo de quintal está dando reforço escolar, ensinando uma criança a ler. Pulsava nela esse desejo de ver a favela no brilho”.

Força é o que não falta às mulheres que continuam resistindo e atuando em diversas frentes de militância nas comunidades espalhadas pelo país: seja nos movimentos sociais e associações de moradores, seja através da arte ou da política institucional e partidária, o espírito livre e de luta de Marielle Franco ecoa em todas elas. “O que nos fortalece é o desejo de mudar, de transformar. A favela sempre encontra um meio de existência e sobrevivência”.

“Com a Marielle, nós pudemos enxergar a nós mesmas como corpos políticos, muito além da invisibilidade a que sempre estivemos expostas”, lembra Dani Monteiro,  de 27 anos, a mais jovem deputada estadual eleita no Rio de Janeiro. “Tentaram calar Marielle, mas o crime ampliou o nosso grito.”

A jovem negra, feminista e favelada, como se descreve, nasceu no Morro de São Carlos, no Estácio e é cotista no curso de Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Antes de se eleger, trabalhou como telemarketing para sobreviver. “Foi quando me deparei com a realidade e passei a militar pelo direito à cidade, à educação e à mobilidade”, lembra.

Dani filiou-se ao PSOL em 2015, construiu o setorial de favelas do Rio de Janeiro e participou da coordenação de mobilização da campanha que levou Marcelo Freixo ao segundo turno da disputa pela prefeitura do Rio, em 2016. Em janeiro de 2017, passou a trabalhar como assessora parlamentar da vereadora Marielle Franco. A deputada conta que sua candidatura foi definida bem antes da execução de Marielle.

Ela queria outras mulheres com as mesmas bandeiras que ela defendia”

Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, busca estruturar seu mandato no feminismo, segurança pública, negritude, cultura, trabalho e educação. “Eu entendo a responsabilidade que assumi, quero contribuir para um novo jeito de fazer política”, garante. “Há um espaço de poder que podemos e temos a responsabilidade de ocupar”, afirma a deputada que tem como um dos pilares da sua atuação a luta contra as políticas de extermínio de jovens negros que vêm sendo postas em prática nas favelas e periferias do Rio de Janeiro.

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Caso Marielle 

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